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Análise: Ys: Memories of Celceta (PC) — entre muita exploração e combates ágeis

Lançado anteriormente para PS Vita, o frenético JRPG de ação chega agora ao PC com várias melhorias e ajustes.


Aventuras repletas de ação, pontuadas por trilhas sonoras intensas e mecânicas acessíveis, são características que definem Ys, a série de RPGs da Nihon Falcom. Ys: Memories of Celceta conta com tudo isso em conjunto com um imenso mapa, resultando em uma jornada imersiva e divertida. Lançado anteriormente para PS Vita, o jogo chega agora ao PC em uma versão tecnicamente superior e repleta de opções.

O herói desmemoriado

A série Ys retrata, principalmente, as crônicas de Adol Christin, um intrépido aventureiro que acaba se envolvendo em problemas em suas viagens. Cada um dos jogos apresenta uma história isolada, com conceitos e mecânicas recorrentes entre eles. Em Memories of Celceta, o herói acorda em uma cidade desconhecida e não se lembra de nada: todas as suas memórias desapareceram. Parece que a explicação para isso está em Celceta, uma imensa floresta localizada na região. Sendo assim, Adol decide explorar o local com a ajuda de Duren, um informante que afirma conhecer o rapaz. Naturalmente, a amnésia do rapaz não é natural e a trama explora os motivos por trás desse acontecimento.


Sim, Memories of Celceta usa a batida premissa “protagonista desmemoriado” como mote principal. Entretanto, o recurso é desenvolvido de forma criativa e instigante. Pelo caminho, Adol encontra inúmeras pessoas que afirmam que já o conhecem. Além disso, o herói parece ser fonte de problemas: complicações surgiram nos locais visitados anteriormente por ele. Conforme recupera suas memórias, a situação fica um pouco mais clara, mas sempre apresentando lacunas — fiquei tentando entender o que estava acontecendo, sendo que a própria história tem um leve aspecto de enigma que precisa ser montado. Um detalhe legal é que algumas das memórias mostram as origens de Adol, o que faz com que Memories of Celceta seja uma ótima opção para iniciar a série Ys.
Memories of Celceta é uma reimaginação de Ys IV, que teve versões para Snes, PC Engine e PS2. A intenção da desenvolvedora foi fazer uma espécie de reinício da série se aproveitando das capacidades dos consoles atuais. Mecanicamente, Memories of Celceta refina conceitos de Ys Seven (PC/PSP), ao mesmo tempo em que introduz novidades, como o mapa extenso. Muitas das ideias de Memories of Celceta depois foram melhoradas em Ys VIII: Lacrimosa of Dana (Multi).

Desbravando uma selva extensa

A maior parte da aventura de Memories of Celceta acontece na floresta que dá nome ao jogo. O local é imenso e recheado de tesouros, inimigos e locais a serem visitados — ou seja, um convite à exploração. A linha principal da história é um pouco linear, porém existe muito conteúdo opcional na forma de missões paralelas, monstros poderosos e trechos que só podem ser acessados com habilidades específicas. A variedade de situações é boa, por mais que não saia do lugar comum de outros vários JRPGs.

A floresta é vasta e Adol conta com algumas ferramentas que ajudam na exploração: pontos de teletransporte permitem viagens rápidas a qualquer momento e o mapa é detalhado, apresentando pontos de interesse. É possível, inclusive, colocar um marcador no mapa que também aparece no pequeno radar, um recurso útil quando queremos ir a um local específico. Mesmo assim, senti falta de uma opção que permitisse colocar mais marcadores para identificar eventuais bloqueios ou pontos em que habilidades específicas são exigidas.


Existem vários incentivos para desbravar Celceta. Completar porcentagens do mapa dá várias recompensas na cidade, memórias de Adol aumentam certos atributos do herói, materiais específicos podem ser utilizados para melhorar equipamentos, e assim por diante. Muito do meu tempo com o jogo foi utilizado justamente explorando cada cantinho da floresta de Celceta, principalmente em busca das memórias perdidas de Adol, que é representada por globos de luz — fiquei genuinamente instigado em conhecer o passado do herói.

Mesmo com muita coisa para ver, Memories of Celceta é uma aventura compacta, com história principal durando por volta de 20 horas. Pode parecer um ponto negativo, mas na verdade é uma vantagem: a ação e história têm andamentos diretos e sem muita enrolação, resultando em uma jornada bem agradável. Ver todo o conteúdo opcional e conseguir todas as conquistas pode exigir mais que o dobro desse tempo.


Destruindo tudo no combate ágil

A franquia Ys é conhecida por apresentar combate divertido e Memories of Celceta não é diferente. O sistema de batalha é completamente em tempo real e lembra bastante um jogo de ação, com os herói atacando, defendendo e esquivando rapidamente. É tudo muito ágil e rápido, lembrando um título de hack ‘n slash, o que torna o jogo bem acessível. Controlamos um herói, que é acompanhado por mais dois controlados pela inteligência artificial, e é possível trocar de personagem com o toque de um botão.

A essência do combate é simples, porém Memories of Celceta tem vários elementos que adicionam complexidade. O principal deles é o tipo de dano: corte (slash), impacto (strike) e perfuração (pierce). Cada um dos heróis tem ataques exclusivamente de um dos tipos, e alguns monstros são vulneráveis a uma das categorias. Sendo assim, é essencial trocar para o personagem certo para derrotar certos tipos de inimigos com mais facilidade. Técnicas especiais podem ser utilizadas em sequências capazes de atordoar e impedir a ação dos oponentes.


Já as técnicas avançadas são ativadas ao reagir corretamente às investidas inimigas. A Flash Guard é ativada ao defender no momento exato em que um ataque inimigo acerta o herói e aumenta o dano dos próximos golpes. Já a Flash Move exige esquivar na hora certa e deixa todos os inimigos em câmera lenta, sendo perfeito para desferir vários ataques em sequência. Para ativar essas habilidades, é imprescindível prestar atenção nos movimentos dos oponentes.

Cada personagem oferece uma experiência de jogo diferente por causa de seu estilo de luta. Adol, por exemplo, é ágil e tem habilidades capazes de fazer vários ataques em sequência. Já Duren é um pouco mais lento e apresenta um combate mais cadenciado baseado em artes marciais — apreciei bastante seus ataques que exigem timing correto para serem conectados. Frieda, em um primeiro momento, lembra Adol com sua agilidade, porém a garota tem como foco feitiços de gelo que acertam grandes áreas. Gostei bastante de testar o arsenal de cada um dos personagens, pois é muito divertido dominar seus movimentos.


O combate de Memories of Celceta tem muitos recursos, porém a aventura não exige domínio deles. O motivo disso é que boa parte dos confrontos é trivial, bastando atacar de qualquer jeito para sair vitorioso. A situação muda um pouco nos chefes por causa de seus padrões mais complexos e maior força, no entanto estratégia básica ainda funciona. Por um lado isso faz com que o jogo seja bem acessível, mas por outro deixa as coisas um pouco triviais e repetitivas. Por sorte existem alguns monstros mais complicados e também níveis de dificuldade avançados — nessas situações a estratégia se torna importante e o sistema de combate fica interessante.

Mesmo com esses pequenos problemas, o combate do jogo diverte bastante com sua agilidade e eventuais momentos mais complexos — é muito recompensador controlar os heróis destruindo tudo que aparece pelo caminho ao desferir inúmeras técnicas especiais estilosas. E dá pra sentir perfeitamente que essa é justamente a proposta do jogo: um JRPG de ação ágil e frenético.


Do portátil para o PC

Ys: Memories of Celceta foi lançado originalmente para PS Vita em 2012 (no Japão) e agora o jogo chegou ao PC. Assim como outros títulos da XSEED Games, como Trails of Cold Steel, Memories of Celceta conta com várias melhorias técnicas: suporte a altas resoluções, texturas retrabalhadas, taxa de quadros melhorada, suporte a HDR e mais. Também foram incluídos recursos adicionais, como salvamento automático e a possibilidade de acelerar as cenas não interativas. Nos testes, o jogo se comportou muito bem, mesmo com a maior parte das opções no máximo — o título é leve e roda sem problemas até mesmo em máquinas modestas.

Os filtros e opções melhoram bastante os gráficos do jogo, mas é difícil não se incomodar com o visual datado. Memories of Celceta era graficamente competente no Vita, com a tela menor escondendo alguns dos problemas. Já no PC os modelos simples e texturas medianas ficam ainda mais aparentes por causa da resolução muito maior. Para piorar, alguns elementos têm resolução baixa e contrastam de maneira estranha com modelos em alta resolução. Não é um jogo visualmente impressionante, contudo suas mecânicas e jornada compensam este detalhe.


Uma aventura compacta e divertida

Ys: Memories of Celceta é um JRPG que se destaca com a ação acelerada e grande mundo. As mecânicas principais são simples e acessíveis, no entanto existem algumas camadas de complexidade capazes de agradar jogadores mais exigentes. A jornada cativa com um mapa extenso, muito conteúdo adicional e combates divertidos. A versão para PC conta com várias melhorias técnicas interessantes, por mais que o visual apresente um pouco de simplicidade em alguns momentos. Ys: Memories of Celceta é mais um sólido episódio na série e também um ótimo JRPG de ação.

Prós

  • Combate ágil e simples, com alguns elementos de complexidade;
  • Uso criativo da premissa "herói desmemoriado";
  • Mundo extenso e repleto de atividades e segredos;
  • Boa variedade de opções gráficas e técnicas.

Contras

  • Visual datado;
  • Combate repetitivo em alguns momentos.
Ys: Memories of Celceta — PC— Nota: 8.5
Análise produzida com cópia digital cedida pela XSEED Games
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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