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Resident Evil 7: Biohazard (Multi) revisitado: o terror em sua mais completa forma

O retorno ao verdadeiro survival horror trouxe insegurança e insanidade em forma de conteúdo adicional ao longo de seu primeiro ano de lançamento.


O desgaste da franquia Resident Evil — em especial da série principal de jogos — foi objeto de crítica nos últimos anos. O anúncio de um novo título que prometia mudar completamente as convenções da série deixou todos apreensivos, mas Resident Evil 7: Biohazard (Multi) foi um sucesso e tanto, principalmente pela ótima execução de ideias para uma franquia quase sem esperança. Um ano após seu lançamento, vamos conferir um pouco mais sobre o que mudou e o que chegou de novo.

A reinvenção da série

Depois de muito decepcionar os fãs da série, a Capcom finalmente encontrou uma luz no fim do túnel e apostou todas as suas fichas nela, disponibilizando até uma demo grátis para mostrar as novidades de gameplay meses antes do lançamento oficial do jogo. A proposta de criar um novo título canônico em primeira pessoa foi arriscada, mas foi recebida com críticas positivas.

RE7 foi um dos destaques entre os gigantes de 2017, concorrendo ao prêmio de melhor direção de jogo no popular The Game Awards. A maioria das respostas positivas do público gamer e da crítica especializada foram suficientes para que os desenvolvedores não largassem mão do título tão cedo, idealizando conteúdos adicionais após seu lançamento.

Usar um pouco de raciocínio para progredir na história não faz mal a ninguém.

A série ficou conhecida, ainda no PlayStation original, pelos calafrios sentidos a cada corredor percorrido na mansão Spencer, em meio a uma trama interessante e com quebra-cabeças inteligentes. Agora localizada em uma casa de campo, uma nova história se desenrola — em primeira pessoa, o que faz com que o combate do jogo fique mais estratégico quando comparado com as últimas entradas da série (mais voltadas à ação do que ao terror). Muitos dos bons elementos de level design dos jogos clássicos foram trazidos e adaptados com uma tecnologia mais moderna. A melhor parte ficou por conta da imersão: o jogo possui compatibilidade completa com PS VR na versão de PS4 para aqueles que não têm medo de experiências ainda mais reais.

A caminho da estabilidade

A versão de PC foi, certamente, uma das que mais sofreu com críticas relacionadas a desempenho e problemas técnicos, apesar de ser a mais adequada para aproveitar tudo o que o jogo oferece em qualidade audiovisual — desde que seu hardware seja poderoso o suficiente para rodar o título nas configurações máximas. Um dos problemas mais apontados era a queda na taxa de quadros por segundo, que incomodava por atrapalhar a experiência e acontecia inexplicavelmente após recarregar o cenário algumas vezes. Felizmente, a solução chegou com atualizações e, por meio de discussões em fóruns especializados, usuários chegaram à conclusão que deveriam desativar uma das opções-padrão do jogo para melhorar ainda mais.

As versões de Xbox One e PS4 foram as que apresentaram problemas e reclamações menos significativos, mas também não escaparam de alguns detalhes deixados de lado na versão final: carregamentos iniciais muito extensos, algumas texturas de paredes pouco detalhadas, quedas de framerate em áreas muito detalhadas, etc. As atualizações se incumbiram de arrumar bugs e glitches esporádicos que ocorriam principalmente durante os combates, mas esses problemas mais frequentes não foram solucionados, o que nos faz questionar se a equipe responsável ainda se dará o trabalho de consertá-los.

Entre achados e perdidos

Em um universo tão hostil e tenebroso como o de RE7, é difícil lutar e sobreviver para contar sua história de herói no futuro. Para isso, aqueles que passaram pela mansão dos Baker foram filmados como estrelas de cinema por um dia — mesmo sem saber ou sem concordar com a tortura pela qual passavam. No formato de DLC, o episódio duplo Gravação Proibida Vol. 1 e Gravação Proibida Vol. 2 foi lançado antes mesmo que o jogo completasse um mês de lançamento — com diferença de semanas entre um e outro — e trouxeram um pouco mais do que o jogo ofereceu de melhor, cada um com três estilos distintos de gameplay.

Margarite, a inesquecível anfitriã da Família Baker.

Em Pesadelo, você assume o papel de Clancy Jarvis (cinegrafista do programa de TV Sewer Gators) e deve eliminar todos os inimigos a sua frente, gerenciando seus recursos e melhorias com cautela. Seu objetivo é sobreviver por cinco rodadas até que amanheça e Clancy consiga escapar das dependências da mansão. Na fase Quarto, toda o raciocínio do jogador é colocado à prova, já que devemos escapar de um quarto cheio de enigmas, mistério e ameaças. Esse modo compensa os simples quebra-cabeças apresentados pelo jogo original e nos faz sentir insegurança de estar sob a vigilância de Margarite, que constantemente volta ao quarto para verificar o estado de Clancy.

O último modo de Gravação Proibida Vol. 1 é Ethan Deve Morrer, que conta com um gameplay mais furtivo e descentralizado da proposta do jogo — os eventos ocorridos nesse modo não são canônicos. Esse modo é bem hostil para iniciantes, já que todo seu progresso no minigame é perdido ao morrer. O objetivo é conseguir passar o máximo de salas sem sofrer muito dano para enfrentar um dos membros da família Baker no final.

Com uma proposta também mais arcade, o primeiro modo de Gravação Proibida Vol. 2 é Aniversário de 55 anos de Jack, um jogo com mais ênfase em ser cômico do que aterrorizante. Entre espumantes embrulhados para presente e criaturas que explodem em confetes e serpentinas, seu objetivo é manter o bom e velho Jack bem alimentado.

Os outros dois modos são bem concisos para um melhor entendimento da história principal e ambos estrelam, novamente, o cinegrafista amador. Em Irmãs, conhecemos um pouco mais da família Baker antes do primeiro encontro com Eveline — a garota que mudaria o destino dos caipiras. Esse modo de jogo é um tanto quanto similar ao do jogo base e não apresenta grandes desafios de sobrevivência — deixando o desafio por conta de descobrir o final verdadeiro ou ter que se contentar com um final decepcionante. O último modo, 21, é nada menos que uma sequência de partidas de Blackjack (jogo de cartas) contra outro refém — que também joga por sua vida — enquanto o insano Lucas Baker controla cada rodada do jogo com explosivos, televisores e ferramentas de tortura.

Escolha com cuidado: cada jogada  pode definir sua morte ou sua pena criminal. 

Os bons samaritanos

Os dois episódios extras finais foram lançados juntamente com a versão completa do jogo, que ganhou uma nova arte de capa e foi intitulada Resident Evil 7: Biohazard Gold Edition. Além de todo o conteúdo previamente lançado nos dois volumes de Gravação Proibida, a promessa era de um episódio que explicasse um pouco mais sobre Zoe e seu desaparecimento repentino na segunda metade da campanha principal. Era o momento para a Capcom fechar uma entrada revolucionária com um pouco mais de história e um pouco menos de minigames. Além disso, um velho companheiro de ação e suspense daria as caras após tanto mistério.

O lunático Lucas Baker, ainda à solta após o resgate de Mia e Ethan, é a carta da vez no DLC Not A Hero. Equipado com trajes e equipamentos com tecnologia de ponta, Chris Redfield, agente de diversas forças policiais e antiterrorismo de títulos anteriores da franquia, foi enviado para investigar e (tentar) dar um fim ao caso. Em uma área nova idealizada fora das dependências da mansão Baker — onde minas e ambientes industriais poluídos se interligam de um modo bem construído —, Chris precisa dar conta dos molded, bem como tentar descobrir o que a Umbrella Corporation tem a ver com o desfecho da trama.

Em End of Zoe, você assume o papel do ex-militar e tio de Zoe, Joe Baker. Em uma aventura para tentar salvar Zoe de um problema possivelmente fatal, você deve desferir golpes somente com as mãos — as armas de fogo e armas brancas foram deixadas de lado por propósitos pacifistas de contexto. Controlar o grandalhão caipira e combater inimigos “mano-a-mano” pode ser cômico em alguns momentos, mas seu propósito de salvar a sobrinha e evitar a tragédia que assolou a família Baker eleva o tom de seriedade. Vez ou outra somos agraciados com upgrades para ajudar no combate e com coletáveis que proporcionam melhorias significativas nas habilidades e força.

Cada boneca coletada garante um bônus de força a Joe.

O terror, porém, foi deixado um pouco de lado para priorizar a ação ininterrupta nestes últimos DLCs. Parece que a equipe ficou tão preocupada em entregar a parte que ainda faltava da história do modo mais direto e convencional possível que deixaram de lado a verdadeira parte brilhante do jogo original. Para aqueles jogadores que se sentiram conquistados pela história e destino da família Baker, porém, os DLCs End of Zoe e Not A Hero são certamente recomendados.

O trabalho da Capcom para trazer de volta à vida uma série (praticamente) descartada — que compartilhava de conceitos incompatíveis com sua obra seminal do PS1 — foi excelente e digno de boas críticas. Mais difícil que estabelecer novos padrões aceitáveis na indústria é trazer de volta os fundamentos e a essência considerados “antiquados” sem depender muito da nostalgia. Sem sombra de dúvidas, esse é o tipo de título que estrelará o Top 3 de melhores jogos  dasérie Resident Evil para muitos fãs, assim como foi o meu caso.
Arthur Maia escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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