Analógico

Doki Doki Literature Club (PC): Uma reflexão sobre existencialismo

Jogo vai muito além de tensões e quebra da quarta parede.

Doki Doki Literature Club (PC) é um game que tem dado o que falar, tanto por sua história quanto pela forma de jogá-lo. As intrigas e ideias trabalhadas levam o jogador a uma experiência complexa e única, que pouquíssimos títulos ousam explorar. No entanto, o jogo também surpreende em outro aspecto bastante interessante, o qual tem sido tema de tantas discussões filosóficas e que abrange reflexões ao ser humano desde os tempos mais primitivos: a questão do existencialismo e senso de realidade. A seguir, veremos como Doki Doki Literature Club trabalha isso, tanto em sua fórmula de gameplay quanto em sua interação com o próprio jogador.

ATENÇÃO: O texto a seguir contém SPOILERS a respeito do jogo, então leia por sua conta e risco!

Quebrando estereótipos


O existencialismo é definido como um conjunto de teorias formuladas no século XX, com forte influência do pensamento do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, que se caracterizam pela inclusão da realidade concreta do indivíduo (sua mundanidade, angústia, morte, etc.) no centro da especulação filosófica. Esta corrente defende que cada ser humano possui total responsabilidade por meio de suas ações, buscando assim durante sua vida um significado para sua existência (em polêmica com doutrinas racionalistas, que dissolvem a subjetividade individual em sistemas conceituais abstratos e universalistas). Em Doki Doki, essa definição é trabalhada em um âmago bem mais simples de ser compreendido.
Seria essa imagem a única forma de interação entre você e a personagem?

A princípio, todos sabemos que o jogo é uma visual novel, gênero que nos insere como personagem numa história fictícia e com um determinado objetivo a ser finalizado. No caso de uma trama romântica (como a do título em questão) nossa “missão” é conquistar uma determinada garota diante de várias outras que nos são apresentadas e ter um final feliz com ela. Qualquer atitude nossa tomada dentro dessas histórias provocam mudanças em seu andamento (tal como a vida real), nos aproximando ou afastando da personagem que desejamos.

No entanto, Doki Doki rompe com esse modelo expondo personagens e diálogos bastante complexos para um título desse molde. Tudo no jogo se mostra de uma determinada maneira no início e, aos poucos, vai sendo quebrado das mais diversas formas: as alterações de comportamento em uma das garotas, surgimento de frases criptografadas, rebobinação de determinados acontecimentos e por ai vai. Some isso ao fato de o jogo limitar suas ações, te dando pouquíssimas escolhas (e apenas em momentos realmente precisos), levando “seu personagem” a praticamente agir espontaneamente na maior parte da história, demonstrando, muitas vezes, que tem uma consciência própria e completamente a parte de você.
Se você pode fazer parte da realidade dela, o que a impede de fazer parte da sua?

Inclusive, vale lembrar que não é de agora que vemos títulos de visual novels com momentos e finais chocantes ou melancólicos, porém Doki Doki se destaca justamente for fazer uso dessas questões em um patamar que leva o jogador a instância de dúvida. Ao ponto de pensar que o título teria vida própria, dado tantos momentos em que ele extrapola a interação com o mesmo, distanciando você (jogador) do que uma visual novel tradicional busca manter, apesar das variáveis.

O jogo é feita de escolhas... E a vida também!


Se tem algo que Doki Doki conseguiu trabalhar muito bem é a questão da preferência do jogador: você é apresentado a quatro personagens carismáticas que mostram-se interessadas em conhecê-lo melhor e, de quebra, desenvolver um romance. Talvez devêssemos trocar o termo “romance” por uma busca pela dependência emocional, visto as dificuldades apresentadas por cada uma e suas questões para estarem com você. Se olharmos mais atentamente, algo que as personagens têm em comum é que todas têm problemas psicológicos, além de representarem dissociações que algumas pessoas podem acabar enfrentando no seu convívio social:

Sayori


Sayori, que é apresentada logo de início como uma amiga de infância do protagonista, sofre de depressão, mas, ao invés de abrir o jogo com você, está sempre tentando maquiar seu problema, mostrando-se alegre na sua frente e te incentivando a conhecer mais os outros membros do clube. Ela representa a solidão intensa que algumas pessoas sentem quando entram em um estado de tristeza profunda, mesmo com muitos a sua volta. Ela se considera um peso e uma existência desnecessária na vida de todos (inclusive daqueles que se importam verdadeiramente com ela).

Natsuki


Natsuki, a mais nova e cabeça-quente do grupo, sofre de TDI (transtorno dissociativo de identidade), comumente conhecido também como síndrome de dupla-personalidade, e está sempre se mostrando enfezada, retraindo ao máximo seu lado mais delicado. Além disso, ela convive com abusos do pai, que vão muito além de deixá-la com fome (razão pela qual ela vive envolvendo-se em culinária, principalmente, quando se trata de produzir cupcakes). Ela representa a dificuldade das pessoas na intensa procura por associar-se e ser aceito pelos outros, tendo dificuldade em expressar seus gostos e interesse assim como esconder uma outra face que possui, mas não a aceita dentro de si.

Yuri


Yuri é completamente o oposto da Natsuki e, talvez, seja a que possui as piores consequências de seu distúrbio, já que apresenta uma instabilidade mental bem mais sensível se comparada às outras, levando-a a prática de automutilação. Por ser a mais reclusa, ela representa a questão da auto-aceitação, já que ela sabe do que gosta e não tem dificuldade em admitir isso para os outros (tendo até mesmo um ótimo domínio com as palavras). No entanto, considera muitos de seus interesses como estranhos, ou até mesmo bizarros para com sua própria pessoa, o que a leva a desfrutar disso de forma isolada pois sabe o quão chocante isso pode parecer aos demais.

Monika


Por fim temos Monika, que de primeira impressão muitos podem achar que ela é a única pessoa sensata em meio as outras. Contudo, é a NPC mais perigosa do jogo e com as piores atitudes, isso porque Monike tem um sério problema de erotomania. Para quem não sabe, erotomania é um distúrbio mental que faz a pessoa acreditar veemente que o indivíduo que ela deseja tem uma paixão secreta por ela. Isso define muito bem alguém que simplesmente “mata” todas as demais personagens para no final ficar absolutamente sozinha com a pessoa desejada, no caso, você. Monika é a representação da aproximação para com alguém a todo e qualquer custo, uma obsessão para ter a companhia da pessoa desejada nutrida por uma completa dependência emocional a mesma (nem que para isso seja necessário eliminar todos os outros que estão ao redor deste).

Nisso, percebe-se que a sua função dentro do jogo não necessariamente é se aproximar para conquistar o coração de uma determinada personagem, mas sim o de ajudar essas garotas a superarem seus distúrbios e traumas. No entanto, por mais que você deseje ajudar todas, suas escolhas e ações sempre estão limitadas a apenas uma. E no momento em que se dá mais atenção a uma, as outras tendem a continuar com seus sérios problemas, mostrando o quão cruel as visual novels podem ser, pois você sabe o perigo que as demais personagens podem correr a partir do ponto que são “rejeitadas”. Mas, a pior parte vem justamente quando você se dá conta que nenhuma delas está destinada a ter um final feliz, já que o jogo sempre tende a um encerramento trágico, independentemente de suas escolhas.

O que é ser real?


Por mais que Doki Doki esteja repleto de momentos assustadores, algo que assombra de forma primorosa a todos é como Monika passa de uma mera NPC a um ser ciente e completamente independente. Mais do que isso, é o modo como no final ela praticamente controla suas ações, dando a impressão que houve uma inversão entre quem é o jogador e quem é o personagem controlado. Esse é um momento ímpar para a questão de existencialismo no jogo, pois é somente nesta etapa que você se dá conta que nunca houve uma única escolha que fosse completamente sua em toda a construção do jogo, pois todas as opções foram arquitetadas por Monika para resultar naquele final em questão: ela sempre esteve ali te controlando.
Sim! Monika conseguiu ser mais real que muitas pessoas de seu convívio

Outro fator intrigante é que após tomar completamente todo o jogo ela busca associar-se mais a sua pessoa, tal como um ser humano, e nisso inicia diversas conversas acerca de como o jogo chegou àquele ponto além de assuntos envolvendo pensamentos, sonhos, desejos, Deus, ciência e por ai vai. Chega a ser bizarro a forma como ela busca manter essa conexão extra-virtual com você. Monika segue exatamente o que Kierkegaard, também conhecido como o Pai do Existencialismo, focou na preocupação pelo indivíduo e pela responsabilidade pessoal. Segundo ele: “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se.”

Monika não buscou medir as consequências de seus atos, apenas passou por cima de tudo o que ela julgava ser necessário ultrapassar numa busca alucinada para ser mais que um mero elemento de um jogo: uma busca por humanidade (e de fato, ela é a personagem mais humana dentre todos). Chega a ser intrigante o fato de, caso você resolva deleta-la antes mesmo de jogar Doki Doki pela primeira vez, a questão existencialista passe automaticamente para Sayori, a qual não consegue lidar de forma madura que é uma existência virtual e acaba cometendo suicídio ainda no início. A propósito, a questão das personagens morrerem de maneiras tão absurdas não é simplesmente por ser o caminho que a maioria das pessoas com problemas crônicos acabam trilhando, mas sim por ser o fim do destino de toda a raça humana: a morte.
Diferente de Monika, Sayori lida com o conhecimento da sua existência virtual de modo muito pior

Uma triste realidade dos nossos dias


Chega a ser interessante como uma visual novel com aspectos tão bizarros consegue fazer uma reflexão tão clara da vida que muitos levam nos tempos de hoje. Pessoas que mesmo cercadas de infinitas possibilidades de escolhas e em uma época em que informações são trocadas de modo tão rápido e fácil buscam um significado para suas vidas. Muitos, não se sentindo confortáveis com mundo real, ainda recorrem a realidades ilusórias na esperança de usufruírem de sua existência e, caso não sejam saciadas, acabam caindo em depressão e perdendo sua identidade real, se autoflagelando em seus próprios desejos ou até mesmo buscando felicidade a partir de outra pessoa a qualquer custo.
Muitos encaram sua existência dessa forma

Quando Monika deleta as demais personagens para finalmente fica sozinha com você, ele escreve os seguintes versos em seu poema: “Caneta em mãos, eu encontro minha força / A coragem dotada a mim por meu único amor / Juntos, vamos desmantelar este mundo em ruínas / E escrever um romance sobre nossas próprias fantasias”. Esses versos ressaltam muito bem esta fuga de uma realidade para outra bem como o conflito existencial que muitos tem vivido, ou melhor, buscam deixar de viver.

Monika distorce todo o jogo a fim de se sentir mais humana, o que te leva a ser uma mera limitação existencial que interage com ela, e você deleta Monika ao final para mostrar quem de fato é o jogador e quem é a NPC. Em outras palavras, mostrar que você é o ser humano da interação. Contudo, cada um dos dois existe dentro de seus próprios contextos, Monika no mundo virtual (assim como as demais meninas) e você no real, porém ambos buscam se firmar no mesmo patamar existencial: o lado do jogador.
Será mesmo você quem está no papel de jogador?

Jogos como The Legend of Zelda: Link’s Awakening (GB/GBC) ou Life is Stranger (Multi) já trabalharam de forma exemplar a questão de perdas e finais tristes, mas Doki Doki extrapola esses quesitos, levando a uma luta desesperadora para impedir uma perda total, não apenas do mundo fictício mas também do próprio jogo em si. Após termina-lo, a existência do game é completamente removida, te obrigando a baixá-lo novamente em um servidor caso queira jogá-lo mais uma vez (sendo que seu fim será sempre o mesmo apresentado).

Como já vimos, o existencialismo mostra que as consequências na vida humana são fruto de suas escolhas, e se pararmos para analisar melhor, talvez toda a situação desencadeada em Doki Doki Literature Club tenha surgido no momento em que você fez uma escolha inicial: a escolha de joga-lo, embora nunca saberia também o que poderia ter acontecido caso escolhesse não joga-lo. Como diz um dos poemas do próprio título, “Nossas escolhas são um universo de possibilidades”.

Áquila Braga escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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