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Análise: Need for Speed: Payback (Multi) não é a revolução prometida

EA prometeu muito, mas no final das contas é só mais um Need for Speed, mediano para a própria franquia


Need for Speed é uma das franquias mais famosas dos games, afinal quem nunca jogou? Eu adorava as perseguições de carro. Eu sempre jogava o Hot Pursuit 2 (Multi) com meu irmão, no modo multiplayer em que um podia ser piloto ilegal e o outro policial. Entretanto, os tempos de ouro de NFS acabaram, concorrentes a altura chegaram e agora um lançamento seu não consegue chamar mais atenção que o anual FIFA.

A fim de mudar essa dura realidade, a EA prometeu que Need for Speed: Payback seria uma revolução para a franquia (ela já disse o mesmo com o reboot de 2015). Bem, não foi dessa vez que chegou a esperada revolução.


Enredo de cinema, por duas horas

Um dos grandes destaques na E3 2017 com Need for Speed: Payback foi como o jogo estaria focado na ação, com corridas dinâmicas, missões alucinantes e enredo de cinema. É uma pena dizer isso, mas o que você viu na E3 dura pouco mais de duas horas.


A história de Payback se resume no seguinte. Sua equipe de carros tenta roubar um carro de um dono de cassinos (O Apostador). Vocês conseguem, mas uma traidora foge com a máquina e ainda atira no mecânico de vocês. Logo após o protagonista é pego pelo dono dos cassinos e diz “se você não quiser ser preso, terá que trabalhar para mim e recuperamos meu carro”.

Depois de seis meses de motorista particular, sem contato com sua equipe, você decide voltar às ruas e correr novamente (por mais que estivesse proibido pelo seu chefe). Irá num racha feito pela Casa, uma organizadora de corridas de rua. O problema é que a Casa é movida por apostas e eles escolhem quem vai ganhar as disputas. O protagonista, Tyler, não gosta disso e ganha a corrida.

“Por acaso”, a traidora da sua equipe é gerente da Casa. Soube que você ganhou a corrida e foi na dar um aviso... Explodiu sua casa. Sem mais nada, Tyler recebe uma proposta d’O Apostador de conseguir derrubar a Casa, ele aceita.


Tiros, explosões, diálogos até interessantes, cenas bonitas, ação, mas só até aí mesmo. O gameplay da E3 do roubo de carro da Casa é o ponto alto do jogo, após isso a ação realmente acaba. O jogo fica resumido a corridas, com uma ou outra diferente. Não é errado um jogo de corrida ser só corrida, mas quando se é prometido enredo de cinema, é esperado isso, e não foi o que aconteceu.

É triste notar que havia potencial de verdade de tornar NFS um jogo de história interessante. Os personagens são carismáticos, não só os protagonistas, mas também os donos de ligas de rua. Infelizmente, tudo o que tenho a dizer é que eles possuem frases legais. Não mostram nem o rosto, e a interação só ocorre nas corridas, com a voz via rádio. Se esses personagens fossem mais trabalhados, ampliando a história de cada um com cenas, talvez fosse melhor.

Além disso, EA, aprenda com Velozes e Furiosos que virou um sucesso do cinema depois de mudaram o foco da história. Eu não me imaginaria dando essa dica, mas é verdade. Need for Speed: Payback tem uma história repleta de expectativas e na verdade ela não passa de plano de fundo para corridas, com alguns poucos momentos de agito.

Corridas repetitivas e perseguições de mentirinha

Correr em NFS continua sendo muito legal. Além das competições clássicas de rua e drift, há a modalidade off-road. Correr na terra em Payback se mostra um dos momentos mais legais do jogo. Construíram diversas estradas de areia, seja em desertos, construções ou perto do rio. Fugir das corridas normais, em asfalto, para dar lugar a elevações, poeira na cara e muitos saltos é no mínimo empolgante.


Apesar disso, há um ponto no jogo que você pensa “eu já passei por essa pista”, isso não é problema. Mas quando ela fica MUITO repetitiva, aí se torna cansativo. Ao mesmo tempo, há algumas estradas que só são percorridas cerca de três corridas. Porém, o jogo consegue diversificar os trajetos, até percorrendo toda a avenida em torno da cidade (passando pela cidade, floresta, deserto, rio...), além de tornar os inimigos sempre mais desafiantes. Mas possui lugares, como a cidade, que mal tem missão dentro dela de corrida.

Outra promessa da EA foi a volta da polícia ao jogo. As perseguições deveriam ser emocionantes, policiais agressivos e ação por todo o trajeto. Eu fiquei muito decepcionado. Primeiramente, a história do jogo diz que a Casa controla as ruas, manda na polícia e explicitamente odeia a nossa equipe. Por que não tem uma única viatura de polícia na rua nos procurando?

É isso mesmo. As perseguições são limitadas as missões, sendo que nem todas aquelas que dizem “fuga” envolvem polícia. Boa parte dessas tarefas são para chegar em determinados pontos da cidade em um tempo limite.

Nem mesmo as perseguições parecem realmente merecem seu nome. Elas são missões de tempo. Isso mesmo. O objetivo é percorre um trajeto já definitivo, passando por pontos de controles antes que o tempo esgote, até chegar no fim determinado. Emocionante? Não

Não há qualquer indicador de procurado (por exemplo, de 1 a 5 estrelas). Os policiais simplesmente surgem, sem qualquer organização. Há momentos que aparece 5, em outros você se vê no meio do trajeto por dezenas de segundos sem um no mapa.

As viaturas são agressivas, de fato, mas não inteligentes. É até possível saber seu padrão. Elas ficam na frente de seu carro, freiam bruscamente para a direita e tentam te parar assim. Se você pegar o jeito pode fazer com que ela capote ao tentar fazer isso. É também notável como as viaturas conseguem ser frágeis, a ponto de "morrerem" sozinhas.

Esse é o máximo de dificuldade que as barreiras podem acrescentar

As barreiras de polícia. No Most Wanted de 2005 você precisava passar direito, acionando o nitro, destruindo os carros e com direito a câmera lenta. No Most Wanted de 2012 havia sempre um espacinho para se passar intacto. Em Payback as barreiras são objetos estéticos. Na maioria das vezes elas estão fechando a rua toda, mas isso já era planejado, porque o próprio GPS já apontava antes que você precisava virar à esquerda (por exemplo). Quando não, as barreiras são um carro forte na esquerda da pista, e outro metros depois na direita.

Por fim, tentaram tornar as coisas menos entediantes, com viaturas equipadas de “inibidores” que podem atordoar o seu carro (ele perde o controle). Porém, só fui afetado por elas menos de 10x, durante toda a campanha. O maior desafio dessas missões de perseguição é o tempo, e não a polícia.

Bonito, mas não fascinante

Need for Speed: Payback é inegavelmente bonito, mas não impressiona tanto quanto o imaginado. Forza Horizon 3 consegue apresentar visuais mais fieis e lindos mesmo no Xbox One (considerando também que é desenvolvedora Microsoft).



Ainda assim, foi feito um bom trabalho com Payback. A cidade de Fortune Valley é bonita, repleta de caminhos secretos, montanhas e vegetação estão sempre aos olhos do jogador. Produzir uma grande cidade com vários detalhes próprios é um dos pontos positivos do jogo.

Porém, a trilha sonora é totalmente o inverso. Ela é empolgante, ainda mais porque eu me surpreendi em ouvir algumas boas bandas que estou sempre ouvindo, mas são desconhecidas. Você pode encontrar desde a clássica banda de rock Queens of the Stone Age até a grupo brasileiro de rap Haikaiss.

A falha do soundtrack está em seu tamanho. São apenas 45 músicas, um pouco mais de duas horas e meia. Antes da metade da campanha, você já estará desligando o som de música do game e abrindo o Spotify. É triste ver uma playlist tão boa, mas tão pequena, e logo se torna repetitiva. O melhor era ter feito várias estações de rádio com dezenas de músicas, como vários jogos fazem.

Em nome de loot boxes, peças de carro viraram cartas

Estamos vivendo anos difíceis nos games. Em busca do lucro cada vez mais, as empresas estão lançando jogos com sistema de loot boxes, e o pior de tudo é fazem dele necessário para a progressão da campanha. É um absurdo pagar quase R$ 300 num jogo (ou Shadow of War que chega a ultrapassar esse valor) e ainda ter que gastar mais nele com sorteio.



Como isso afetou Need for Speed: Payback? Você já não leva mais o carro para a oficina para melhorar ele (agora só questões estéticas). Você deve ir numa loja de ferramentas. Lá terá várias cartas aleatórias de diferentes marcas, níveis e poderes. Essas cartas são peças de carro. A loja atualiza a cada 10 minutos. Então volte lá para ver se tem as cartas que você queria para melhorar sua máquina. Se não tem, de novo, é possível rodar uma roleta pagando 3 fichas (que podem ser compradas com dinheiro de verdade).


Pois é, agora o upgrade do seu carro depende da sorte. Além de desestimulante, o sistema exige que o jogador use a roleta, pois a loja é esquematizada para não oferecer várias peças de alta qualidade. Mesmo assim, há momentos que a roleta “vicia” a dar cartas de mesmo atributo (comigo até 5x o mesmo atributo), ou até repete a mesmíssima carta. Por “sorte”, eu não precisei comprar nenhuma ficha, só usei as que ganhei dentro do jogo. Talvez porque recebemos a versão Deluxe para análise e ela me ofereceu várias fichas.

Um Need for Speed mediano, um jogo de carro decepcionante

Analisando Need for Speed: Payback, ele possui uma história mal elaborada, apesar do potencial de fazer algo maior. As corridas são desafiantes, mas perseguições não fazem jus a outros títulos da franquia, sendo desestimulantes de tão “fakes”. O visual é bonito, bem planejado, mas não lindo. Enquanto a trilha sonora, limita-se a duas horas e meia, o que a torna repetitiva, apesar de boa.

No final, Need for Speed: Payback não cumpriu sua tarefa de redefinir a franquia. Como sempre, a EA prometeu mais do que cumpriu. Entretanto, para quem gosta de NFS, vai se satisfazer com o jogo. Àqueles que gostam do gênero corrida e possuem outros games, como Forza Horizon 3, The Crew, DriveClub, podem não gostar tanto de Payback e se decepcionar diante da expectativa gerada. Quem sabe no próximo jogo finalmente voltem a acertar. Mas dessa vez, não foi possível.

Pós

  • Corridas off-road empolgantes;
  • Inimigos desafiantes;
  • Grande e diverso mundo aberto;
  • Belo visual.

Contras

  • História mal elaborada;
  • Perseguições policiais fracas;
  • Trilha sonora boa, mas curta;
  • Mudanças na personalização do carro para forçar sorteios em roleta e tentar dar sentido aos loot boxes;
  • Só mais um NFS cheio de promessas vazias.

Need for Speed: Payback – PC, PS4 e XBO – Nota: 6.5
Plataforma utilizada na análise: PC

Janderson Oliveira ainda não chegou ao patamar de universitário por estar no Ensino Médio, entrou no GameBlast com o intuito de unir o que aprendeu em sala com o que andou jogando enquanto deveria estudar para Química. Tem Facebook caso queiram catalogar a espécie.

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