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Análise: ARK: Survival Evolved (Multi) é desafio e exploração com extenso conteúdo

Após dois longos anos em acesso antecipado, ARK é lançado oficialmente e o resultado é incrível, mesmo que não perfeito.

A cada dia os jogos de sobrevivência em sandbox se tornam mais e mais populares. Desde o lançamento da primeira versão de Minecraft (Multi) para computadores, o estilo se tornou muito popular, principalmente pela liberdade de manipular o ambiente ao seu redor mesclada com aspectos próprios de sobrevivência como fome, necessidade de coleta de recursos e ameaças de seres malignos ou selvagens. Nessa corrida pela fama, ARK: Survival Evolved (Multi) se destacou desde o início do seu acesso antecipado.

Desenvolvido pela Studio Wildcard, o jogo tinha como principais diferenciais seus gráficos realistas e a ambientação, a qual possui diversos seres pré-históricos povoando territórios inóspitos e assombrantes, ao mesmo tempo que muito belos e estonteantes. Entretanto, como a maioria dos jogos em acesso antecipado, ARK tinha problemas constantes, principalmente relacionados à otimização de seus gráficos. Lançado oficialmente no mês passado, o jogo melhorou vários aspectos e se tornou um título memorável, mas não perfeito.


A sobrevivência levada ao extremo

Ao criar seu personagem em ARK, seja em um modo online ou em uma partida solo, você inicia sua jornada com alguns trapos como roupa, perdido em uma área escolhida por você (geralmente perto de praias) e com uma estranha tecnologia incrustada em seu braço. A partir daí, é com você. Nas configurações padrões, o personagem sentirá fome, frio, sede, bem como se cansará rápido de corridas, ficará mais suscetível ao frio durante a noite e também debaixo d’água. Todos esses mecanismos são uma faca de dois gumes no jogo, pois tornam as mecânicas de sobrevivência incrivelmente realistas, mas também prejudicam bastante jogadores novatos.

Desde seu layout original, ARK se tornou bem mais instrutivo e instintivo em seus menus. Entretanto, ainda é bastante carente de informações sobre o início do jogo, fazendo com que o jogador precise morrer diversas vezes de variadas formas para que comece a pegar o jeito da coisa. Esse método de “tentativa e erro” acaba ferindo um pouco a espinha de sobrevivência do jogo, pois faz com que alguns jogadores tendam a não ligar para a morte do personagem no início, só dando valor para isso quando ele está bem mais forte, quando poderá perder itens valiosos caso morra longe de sua base.



Fora esse problema inicial relacionado à curva de aprendizagem do jogo, ARK se sustenta muito bem com as mecânicas de sobrevivência. De forma que a necessidade de um abrigo e a confecção de uma fogueira, por exemplo, passem longe de ser meros aparatos de conforto, mas sim garantias de que seu personagem ficará protegido durante as longas (ou não) noites do jogo. Se o início da jogatina é conturbado, com o tempo (ou com dedicação, ou com amigos ajudando) o jogador começará a dominar cada vez mais este mundo e é exatamente aí que todo o prazer de jogar ARK está.

Um mundo a ser domado

Após vencer as dificuldades iniciais do jogo e superar as necessidades biológicas do seu recém-criado personagem, chega a hora de expandir seus horizontes e conhecer tudo o que o jogo tem de melhor: seus animais. ARK: Survival Evolved surpreende com um bestiário de fazer inveja a qualquer Jurassic Park. Com mais de 100 espécies diferentes variando entre dinossauros, mamíferos, répteis, anfíbios, insetos, aves e peixes, ARK surpreende bastante tanto na extensão do seu mundo como nas variedades inseridas nele.



Seja por terra, água ou ar, as criaturas que povoam ARK possuem uma inteligência artificial muito interessante, de modo que seus comportamentos, movimentos e hábitos façam alusão, na base do possível, ao que paleontólogos dizem do comportamento dessas variadas espécies de animais que jamais pudemos ver pessoalmente. Mas toda essa extensa fauna não está povoando ARK somente para embelezar o ambiente ou fornecer carne para os sobreviventes: eles podem ser domesticados.

Praticamente qualquer criatura que seja maior que um ser humano (e até algumas levemente menores) são passíveis de serem domadas. Além disso, há celas específicas para serem confeccionadas, transformando praticamente qualquer animal em uma voraz, útil e versátil montaria. A mecânica para domar os animais varia bastante de espécie para espécie, o que torna o jogo ainda mais complexo, detalhado e realista.



O único problema com o sistema de domesticação de animais é referente às maiores espécies da ilha. Com variados comandos para as criaturas, algumas acabam entrando em conflito com o mapa, tornando algumas experiências um tanto problemáticas. Mandar um animal muito pequeno lhe seguir enquanto você caminha controlando outro muito maior, por exemplo, gera bugs de inteligência artificial, fazendo com que os animais tracem caminhos estranhos e até fiquem agarrados em pedras ou árvores. Mas esses problemas não chegam a atrapalhar permanentemente a aventura, mesmo que seja um tanto chato voltar pelo caminho para recuperar um Anquilossauro preso em uma pedra, por exemplo.


Os mais belos territórios do jurássico ao fantástico

Um dos pontos altos do jogo é, sem dúvidas, seu visual. Todo desenvolvido com o motor gráfico da Unreal Engine, ARK tem visuais estonteantes. Seus biomas são altamente diversificados e complexos, assim como a flora é detalhada e igualmente variada. Os animais são um espetáculo à parte e roubam a cena desde os menores Dodôs até o colossal Titanossauro. Tudo é muito bonito, só ainda não funciona de forma impecável. 

Os problemas de otimização assombram ARK desde os seus primeiros dias em acesso antecipado e seria um crime ignorar o fato de que a equipe resolveu quase que todos os problemas relacionados a isso. Mas este “quase” nos obriga a citar que, em determinados momentos de jogo, a queda de frames ainda permanece, mostrando determinados problemas com a otimização do game, mesmo nas configurações mínimas na versão de PC. Entretanto, essas quedas são bem mais raras agora que o jogo foi lançado oficialmente.


Uma vastidão de conteúdos sem precedentes

Se em uma coisa ARK não deixa a desejar, é em seus conteúdos. Para início de conversa, o jogo possui aspectos de RPG ligados ao sistema de sobrevivência de modo que quanto mais tempo o personagem permanecer vivo, mais experiência ele ganha (o mesmo vale para os animais domesticados). Passando de nível, o jogador recebe pontos que liberam a habilidade de confeccionar determinados materiais ou equipamentos, assim como também recebe pontos para distribuir em suas habilidades físicas como pontos de vida, nível oxigênio quando nada, fôlego para correr e lutar, peso que aguenta carregar, nível de fome e de sede, entre outras coisas.

Ligado a esse sistema muito bem estruturado, são 100 níveis somente para liberar todos os pré-requisitos para acessar todos os engramas passíveis de serem construídos, que vão desde celas de animais, até armas tecnologicamente avançadas. A variedade de materiais e a extensão desse conteúdo por si só, somados à extensa variedade de animais e o gigantesco tamanho da ilha, faz a jogatina ultrapassar tranquilamente 100 horas, seja jogando sozinho ou em grupo.



Como se não bastassem o jogo base (Survival Evolved) e as expansões ARK: Scorched Earth (já lançada) e ARK: Aberration (que será lançada em outubro), o game ainda possui três DLCs gratuitas: The Center, Ragnarok e Primitive+, sendo duas dessas mapas completamente novos, com mais algumas criaturas e recursos. Como se estas DLC sozinhas já não agregassem centenas de horas de jogo, existe também o recurso dos mods, no qual jogadores desenvolvem modos de jogo variados com criaturas diferentes, texturas diferenciadas e tantas coisas quanto a comunidade de fãs consegue imaginar. E ainda recebemos o spin-off ARK: Survival of the Fittest (Multi) junto com a aquisição de Survival Evolved. Realmente é uma compra que compensa pelo tamanho do conteúdo.

Modos de jogo completamente editáveis

Outro aspecto muito positivo de ARK: Survival Evolved é a capacidade que temos de manipular diversos aspectos do jogo na edição do mapa a ser criado, mesmo depois de jogos já iniciados (no caso das partidas solo). Chega a ser complexa de tão extensa a lista de materiais a serem manipulados desde a velocidade de fome e nível de dificuldade para domar animais indo até a velocidade com a qual defecamos e a possibilidade de termos ou não doenças ao longo do jogo. É possível ficar quase uma hora apenas editando essas configurações para que tudo se adeque ao seu jeito de jogar. 

Nos servidores online o esquema funciona de modo semelhante. Entretanto, é relativamente complicado iniciar uma aventura em um servidor já existente, muito porque grandes áreas da ilha já estão dominadas e algumas configurações proíbem o jogador de construir muito próximo de construções inimigas. Mas estes problemas são superados quando o lobo solitário entra para uma tribo, situação em que o trabalho em equipe e o senso colaborativo podem ser muito reforçados. Servidores online podem ser, inclusive, em formato PVP ou PVE, sendo que o segundo pode se transformar no primeiro durante alguns horários do dia, caso o administrador deseje.

Passando longe do “autoexplicativo”

Mesmo com os grandes avanços de layout e as legendas todas em português brasileiro muito bem adaptado, ARK ainda está longe de ser um jogo com ensinamentos bem delimitados, explicados ou mesmo instintivos. O básico do jogo é passível de ser aprendido pelo jogador por mera tentativa e erro e exploração de oportunidades. Entretanto, tarefas mais complexas, principalmente aquelas relacionadas aos níveis pós-nível 70, não são tão fáceis de serem aprendidas e muitas acabam passando despercebidas por jogadores desavisados.

Graças a isso diversos recursos como aplicativos de celular no estilo “ARK Wiki”, textos explicativos na internet e vídeos de tutorial no YouTube são encontrados aos montes. Mesmo que informações como os materiais necessários para fabricar determinado equipamento estejam inseridas no jogo de forma bem didática, outras como o fato de que o Paquicefalossauro pode nocautear os inimigos em vez de matá-los, facilitando domar determinadas criaturas não é algo presente no jogo.



Isso acaba sendo um problema, pois caso o jogador queira explorar todas as nuances do jogo e dominá-lo da melhor forma possível, ele precisará passar um bom tempo estudando sobre o jogo, entendendo suas mecânicas e assistindo tutoriais de como, onde e por que fazer determinadas coisas. Claro que muitos jogos possuem esse problema, como Xenoblade Chronicles X (Wii U), por exemplo. Mas isso retrata uma falta grave na curva de aprendizado do jogo, que não passa todas as informações necessárias para que o domínio da ilha seja instintivo do início ao fim.

Apesar dos pesares, um jogo incrível

Mesmo que ARK: Survival Evolved tenha problemas na curva de aprendizado, bem como na transmissão de informações mais específicas sobre seu conteúdo, a diversão dentro do game não é prejudicada nem impedida por causa disso. Nunca antes um jogo tratou com tamanha imersão, seriedade e realismo a vida pré-histórica, fugindo dos tradicionalismos e das mesmices e apresentando realmente espécimes diferenciadas e variadas, combinadas em um visual incrível e com sistemas de jogo mais incríveis ainda.



As possibilidades de se jogar online, somadas aos mods, DLCs, expansões e atualizações contínuas fazem de ARK um dos jogos de sobrevivência com maior longevidade da atualidade. Tendo sua experiência renovada a cada semestre com conteúdos cada vez mais diversificados, sejam eles oficiais ou feitos por fãs. Só por aí o jogo já é digno de reconhecimento, pois jogos de sobrevivência tendem a uma mesmice a qual só é passível de chegar em ARK após mais de duas centenas de horas de jogo.

Para amantes da vida pré-histórica, como este que vos fala, o jogo tem um charme a mais. Para aqueles que adoravam dinossauros quando eram crianças ou então ainda adoram atualmente, o jogo é a pedida certa. Com aspectos de RPG mesclados aos de sobrevivência e as possibilidades de construção e manipulação do mapa proporcionadas por um sistema sandbox de primeira, ARK possibilita uma viagem no tempo de forma nunca antes vista. Ver, caçar e domar feras que jamais vimos vivas é algo sem comparações, e que ARK continue fazendo isso da melhor forma possível, com ainda mais conteúdo e mais variações.


Prós

  • Ampla gama de recursos e mecânicas de jogo;
  • Mecânica de sobrevivência bem desafiante;
  • Extensa variedade de fauna e flora;
  • Biomas realistas, diversificados e bem estruturados;
  • Sistema de domesticação agrega à experiência;
  • Modo de jogo altamente editável;
  • Três mapas diferentes e muito extensos;
  • Longevidade incrível já em seu conteúdo básico;
  • Modos multiplayer funcionam muito bem;
  • Sistema de Mods agrega à longevidade;
  • Ark Survival of the Fittest incluso na compra;
  • IA dos animais agrega ao realismo da experiência.

Contras

  • Mesmo tendo evoluído, otimização ainda tem problemas;
  • Alguns problemas na movimentação de animais muito grandes;
  • Layout pouco intuitivo dificulda aprendizagem;
  • Necessidade de busca constante de tutoriais na internet.
ARK: Survival Evolved — PS4/XBO/PC — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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