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Análise: Eliosi’s Hunt (PC/PS4), uma busca por reconhecimento

Um mercenário das galáxias e um contrato que não vale tanto a pena.



A cena brasileira no mercado mundial de jogos está despontando mais e mais, o que estou a amar de paixão. Não só no quesito de diversão mobile, estamos todo mês vendo mais obras surgindo para os computadores e até mesmo consoles com a estampa tupiniquim de criatividade sulamericana. Mas como tudo que vem em massa, algumas substâncias dúbias se embrenham em meio ao nosso ouro.

A curta aventura de Eliosi’s Hunt (PC/PS4) me deixou com um sabor amargo na boca. Ao menos dou meus parabéns para a equipe da TDZ Games em serem honestos. Vocês tentaram de coração e pode-se ver claras marcas de amor ao mundo gamer na obra, mas tanto graficamente quanto em jogabilidade sua obra ainda me parece crua para algo comercial.

Contrato Aceito

A saga de nosso Zé Pequeno mercenário espacial, Eliosi, é um shooter de visão aérea no qual você controla os movimentos do protagonista com um dos analógicos e a mira fica por conta do outro, podendo atirar em qualquer direção enquanto se move. O jogo mescla elementos de plataforma em que você irá fuzilar aliens enquanto busca por seus alvos ao atravessar por precipícios e armadilhas de vários mundos diferentes.

Não existem diálogos e as poucas cutscenes narram o suficiente: você está indo de planeta em planeta à caça de alguma cabeça em especial e relaxando na cantina no meio-tempo. Pegue seu comunicador, ative seu drone, carregue sua pistola e vá. Pretexto o suficiente para a curta jogatina de 5 fases, o que pode deixar os curiosos em conhecer esse universo mais a fundo tristes, pois realmente não há muita coisa. Eliosi’s Hunt lhe entrega ação desde o primeiro momento e nada mais.


Cada estágio é também curto e consideravelmente linear, com uns poucos desvios para apresentar um desafio que guarda um colecionável ou uma rota alternativa, caso não você não consiga atravessar um setor de modo mais direto. Algo peculiar é que Eliosi’s Hunt lhe permite não só usar os checkpoints no caminho como locais de retorno mas também destruí-los para mover-se mais rápido, dando a opção de voltar em um lugar mais próximo do onde você morrer ou atravessar os labirintos novamente mais rapidamente. Não achei de todo necessário consumi-los para encarar os desafios mais ao fim do mapa e isso é bom, uma vez que permite-lhe moldar a dificuldade que deseja para o jogo conforme avança e confere ao produto final um bom elemento para speedruns.

Cheque Sem Fundo


Os bons elementos de Eliosi’s Hunt, porém, são sobrecarregados pelos seus fatores negativos. O jogo tem a jovialidade e intenções esperançosas de seus criadores mas também sua imaturidade — não no sentido coloquial de algo rude, mas sim o de algo que saiu do forno ainda cru.

Clareza e otimização são os elementos principais de minha crítica ao jogo. Em mapas mais escuros, como o primeiro, a iluminação e texturas são tão escuras que não é difícil perder noção do que é piso, parede e seu avatar, gerando confusão quanto seu posicionamento. Essa dificuldade de encontrar-se fica mais evidente ainda quando você precisa de precisão para saltar entre plataformas móveis, em que as caixas de colisão se mostraram também escorregadias para mim. Descobrir mais tarde que é mais eficiente apertar o gatilho para atirar múltiplas vezes do que segurá-lo e usar do fogo automático também me deixou irritado, uma vez que prefiro lidar com shooters apenas tendo de me preocupar com meu posicionamento na tela.

Falando nos controles, sinto que alguns dos comandos são redundantes, mais especificamente o de sacar sua arma. Por repetidas vezes, senti o ato de ter que primeiro tirar a pistola do coldre e então atirar mais um contratempo do que um elemento interessante ao jogo, uma vez que o único motivo pelo qual você vai colocá-la de volta no bolso é caso morra e ressurja em um checkpoint. Quando você quer simplesmente avançar rápido por um setor irritante, não é incomum se ver atirando-se contra os inimigos que avançam e levando golpes antes mesmo de conseguir dar o primeiro tiro. A sensibilidade da mira foi inconvenientemente baixa em um joypad, efetivamente reduzindo seus alvos para oito direções em vez de um campo real de 360 graus.

Algumas questões de design e balanceamento também me deixaram incomodado, como a luta contra o primeiro chefe, a Lady Swamp. Confinar o jogador em um campo pequeno com espaços de movimentação restrita já é um desafio e tanto, mas fazer os projéteis dela tornarem-se minas terrestres permanentes foi, no mínimo, desnecessário considerando o quão fácil é morrer em Eliosi’s Hunt. Outras coisas como colocar alguns checkpoints em locais de risco e sua barra de vida crescer gradualmente quando você ressurge em vez de encher-se de imediato adicionam mais e mais camadas de frustração ao jogo.


Ao final de cada fase você recebe alguns pontos para customizar Eliosi e seus equipamentos com base nos espólios coletados ao longo da caçada, como mais vida, cargas de corrida e munição para armas especiais. Mas para aprofundar-se em um atributo é preciso investir minimamente nos outros. Esse tipo de graduação na sua customização, por mim, não cabe em um jogo tão focado em ação uma vez que ter um mínimo de equilíbrio entre seus poderes é algo que cabe mais em um RPG do que em um shooter.

Status da Missão

Eliosi’s Hunt é uma tentativa honesta por uma equipe ainda inexperiente de entreter-nos a todo custo, tentando apresentar o máximo possível de coisas para complementar sua jogabilidade base e esconder suas falhas — até fazer proveito delas. O jogo oferece a estarrecedora quantia de 50 Conquistas no Steam, o que é absurdo para algo que pode ser minimamente concluído em uma única tarde. Mas nem nisso ele mantém-se de pé por conta própria, uma vez que todos são nomeados como referências a ícones da cultura nerd e pop, deixando claro que são gordura para uma experiência sem muita carne.

Não posso dizer que Eliosi’s Hunt seja de todo ruim, pois de fato ele é o que é: o título inicial de uma pequena desenvolvedora independente e com isso, dentro dos padrões que eu esperaria para a primeira obra dos irmãos Tiago e Daniel Zaidan a chegar no mercado. Dou-lhes o mérito de terem navegado tão longe com uma jangada tão frágil, pois seu jogo os reflete na cena brasileira e mundial de jogos: Eliosi’s Hunt tem muito o que apreender e suas falhas atuais são erros de amador, mas no que acerta e ousa, mostra um futuro promissor à sua frente.


Prós

  • Ação direta ao ponto;
     
  • Experiência curta e concentrada;
     
  • Conceitos interessantes (checkpoints consumíveis);
     
  • Larga quantia de Conquistas.

Contras

  • Controles e ambiente sem clareza total;
     
  • Design dos desafios a desejar;
     
  • Setores de salto em plataformas pouco otimizados;
     
  • Mira em joypads um tanto travada.

Eliosi’s Hunt — PC/PS4 — Nota: 4.0
Plataforma utilizada para análise: PC

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Alexandre Oliveira escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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