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Análise: Outlast 2 (Multi) é perturbador, mas não assusta

Survival horror aposta na ação e deixa para trás todo o suspense e o terror que o fizeram famoso.

Quando a produtora canadense Red Barrels anunciou o survival horror Outlast 2 (Multi), fiquei entusiasmada em ver a continuidade do primeiro título, bem como alguma possível relação com o DLC Outlast: Whistleblower (Multi). Porém, o que encontrei foi algo muito diferente de todo hype em cima do título e confesso que o resultado me decepcionou.

Continuação ou jogo solo?

A primeira coisa que nos deparamos ao jogar Outlast 2 é uma quase completa inexistência de ligação com Outlast (Multi), de 2013. O que considero uma falha grave, uma vez que o jogo se propõe a ser uma sequência. A ligação com o título anterior só é detectada através de documentos presentes no primeiro jogo, algo que apenas um fã consideraria em pesquisar enquanto os jogadores comuns terão dificuldades em entender o enredo. Simplesmente inviável compreender uma narrativa montada dessa maneira.

Em Outlast 2, jogamos com o câmera Blake Langermann. Ele e a esposa Lynn sofrem um acidente de helicóptero no deserto no Arizona, no EUA, enquanto faziam uma reportagem investigativa sobre o desaparecimento de uma mulher grávida chamada Jane Doe. Perdidos em um vilarejo abandonado e repleto de pessoas enlouquecidas, eles precisam se reencontrar e fugir do local para denunciar os crimes que presenciaram.


Certamente a Red Barrels conseguiu criar uma história mais complexa e profunda, todavia, falhou terrivelmente em transmitir isso ao jogador. A única certeza que temos durante a campanha é de que Blake está alucinando durante todo o jogo, então os eventos que enfrentamos são criações da mente perturbada dele, mas o que nunca fica esclarecido é como e por que isto aconteceu. Explicações estas possíveis de serem encontradas apenas depois de muita pesquisa nos arquivos da Murkoff em Outlast, e na história em quadrinhos Outlast: The Murkoff Account, escrita por JT Petty e ilustrada por The Black Frog, material lançado em 2016 que busca justamente esclarecer a conexão entre Outlast e Outlast 2.

Contudo, não gosto de jogos que diluem a história em produtos além do jogo eletrônico e forçam o jogador a entrar em contato com esse material exterior para poder entender por completo a trama. Um jogo deve ter começo, meio e fim, bem como tornar a narrativa compreensível ao jogador. Isso não significa fazer uma história rasa e carente de profundidade, mas localizar o jogador sobre os eventos que se passam no jogo, senão ao final fica o sentimento que nada fez sentido e você apenas perdeu seu tempo. 


Um bom exemplo de terror psicológico bem estruturado e inteligente é Alan Wake (X360/PC) da Remedy, cuja história intrínseca e complexa não afeta o entendimento do jogador, ao contrário, deixa várias questões e mistérios em aberto, dando fruto a várias teorias sobre os eventos do jogo. Quando Outlast 2 se apresenta como um terror psicológico é esse tipo de enredo que o jogador está buscando, não algo extremamente abstrato e que talvez precise de algumas DLCs para contar o restante da história e fazer a ponte para o primeiro jogo.

Corra que os loucos vêm aí

Outlast 2 conserva a jogabilidade do primeiro título, bem como faz o acréscimo de novas mecânicas e recursos como a câmera com microfone, que permite ao jogador detectar a presença de inimigos próximos e o fato de não haver regeneração de cura do personagem, precisando de curativos para retomar a saúde inicial.

Os gráficos estão ótimos, muito superior ao que foi visto em Outlast, e por conta disso, o sentimento de medo e horror é relembrado enquanto caminhamos por casas abandonadas, minas inundadas e ruas ensanguentadas ou nos escondemos em milharais e nadamos furtivamente pela água. A arte é intensa e realista.


O ato de se esconder dentro de armários, debaixo de camas ou dentro de barris está de volta, porém a utilidade desta jogabilidade é questionável uma vez que o jogo segue uma narrativa linear que não contempla um gameplay no stealth, principal atributo de todo suspense e terror do jogo original. Este foi um dos pontos que mais me decepcionaram.

Quando eu pensava em Outlast, lembrava daquele terror psicológico de não saber o que vai acontecer, onde o inimigo está posicionado e da onde surgirá o próximo ataque, mas em Outlast 2 tudo isso é substituído pela ação. A maioria esmagadora das missões não exige que você se esconda ou pense em estratégias para contornar o inimigo sem que ele o perceba, basta simplesmente sair correndo loucamente pelo cenário e chegar ao próximo alvo. Simples assim.


Os personagens são colocados estrategicamente para ver Blake, então não há qualquer sentido em tentar se esconder, pois os inimigos sempre o encontram ou começam uma missão lhe caçando de imediato. Isso se torna tão maçante ao longo do jogo que aquelas cenas de supostos sustos não lhe impactam em nada, pois você já espera tudo que irá acontecer na próxima porta.

As missões mais próximas do que experimentamos em Outlast foram as fases na escola, nas memórias de Blake, cujo terror e suspense eram presentes durante todo caminho. Todavia, por Outlast 2 optar por uma linearidade na forma de completar missões, todo o impacto acabou diluído, pois o jogador não tem mais opção de escolher o melhor caminho para enganar os inimigos. Nos é tirada toda autonomia do primeiro jogo e quando um inimigo nos detecta, o jogo nos direciona para o único caminho possível para fuga.


Horror gore

É visível que a principal aposta de Outlast 2 foi o horror gore, subgênero do horror voltado violência pesada e explícita com sangue e órgãos mutilados. A violência gráfica é brutal e mórbida. Senti vontade de vomitar algumas vezes e, sem dúvida, este é um dos pontos fortes do jogo, embora, pessoalmente, não gosto desse tipo de conteúdo e considero dispensável esse apelo sensacionalista. Entretanto, fãs do gênero certamente irão gostar do que irão ver em Outlast 2.

A trama também está bem pesada e trabalha temas polêmicos como abuso sexual, suicídio e infanticídio. O que acrescenta uma carga dramática intensa à história e traz cenas fortes de violência e documentos que relatam os tipos de práticas criminosas do vilão Sullivan Knoth, líder da seita chamada Testament of the New Ezekiel, e seus seguidores.


A trilha sonora é bem realizada e auxilia no trabalho de criar tensão no jogador e transmitir o sentimento de terror, pânico e nojo das coisas que acontecem no vilarejo. Alguns chefes possuem música própria e isso facilmente coloca o jogador em alerta sobre o que está para acontecer, o que significa um trabalho bem feito e com objetivo atingido.

Cadê o Walrider?

No final das contas, Outlast 2 chama a atenção por ser perturbador e chocante, mas o aspecto assustador passa longe do novo título da Red Barrels. A correria e a linearidade das missões transformam o survival horror numa experiência frustrante, que unida a história fragmentada contribui para Outlast 2 ser um produto final que deixa muito a desejar e, infelizmente, pareça um jogo incompleto e aleatório, sem semelhanças com o título original.

Prós

  • Gráfico bonito;
  • Jogabilidade fluída;
  • Nova mecânica de nado;
  • Nova mecânica de regeneração;
  • Novo recurso de microfone da câmera;
  • Trilha sonora perturbadora.

Contras

  • Falta de ligação com Outlast;
  • Gameplay linear;
  • História confusa e não explicada;
  • Inexpressividade de terror;
  • Inimigos colocados propositalmente para detectar o protagonista;
  • Mecânica inútil para se esconder ou passar despercebido;
  • Missões são facilmente cumpridas com correria pelo cenário;
  • Sustos banais e que não impactam.
Outlast 2 — PC/PS4/XBO — Nota: 7.0
Versão usada para análise: XBO
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG e game designer pela Universidade Positivo. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no DeviantArt, Wattpad ou Twitter ela aparece.

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