Game Music

Redesvendando Chrono: To Far Away Times é o novo álbum de Yasunori Mitsuda

Compositor de dois dos JRPGS mais marcantes do passado lança novo disco de arranjos inéditos. Escutei o trabalho e esta é minha opinião.


Sempre que abordo Yasunori Mitsuda, lembro que sua música foi fundamental para que pavimentasse meu caminho no meio do videogame, tanto acadêmica quanto profissionalmente. Saber que o autor das trilhas da série Chrono lançou um novo álbum de arranjos de faixas desses games atiçou minha curiosidade, ainda mais com seu histórico de trabalhos semelhantes que conta com The Brink of Time, uma das miscelâneas mais interessantes de game music já gravadas.


A elaboração de To Far Away Times já vinha sendo comentada há alguns anos (tenho notícia da produção deste álbum desde, pelo menos, 2013), coisa que contribuiu para que as expectativas em torno do disco apenas aumentassem. Em seu tracklist, clássicos da trilha de Chrono Trigger e Chrono Cross como Corridors of Time e Radical Dreamers. Tinha tudo para dar certo, no entanto, dói-me falar que To Far Away Times é um LP cambaleante. E enumero meus porquês.

Desvendando as Cicatrizes do Tempo

A faixa de abertura é Time’s Scar, música que acompanha a introdução de Chrono Cross. Logo de início, vejo que é impossível analisar o novo trabalho de Mitsuda sem remeter às versões originais. Em particular, vejo que esta peça funcionou em sua primeira gravação muito graças a sua diversidade de timbres — a formação instrumental da faixa no game conta com duas flautas japonesas (shinobue e shakuhachi), bouzouki, violino, contrabaixo elétrico, violão e um set de percussão que contém um gran cassa. A mistura inusitada desta gama de timbres, como quando ocorre a dobragem do shakuhachi com o violino, é muito bem aproveitada por Mitsuda para criar entidades sonoras distintas.
Em seu novo álbum, o compositor pouco aproveita este elemento do tema, optando por uma formação de rock para executar a peça. O arranjo, inclusive, remete muito a algumas canções do Led Zeppelin: o duo de flautas no início lembra a introdução de Stairway to Heaven e a entrada da banda completa faz referência ao riff de Kashmir, especialmente se atentarmos para a relação rítmica entre a harmonia e a linha de bateria. 

A primeira melodia da seção mais intensa de Time’s Scar ganhou um ritmo mais prolongado e comportado, executado pelas cordas. Uma das grandes diferenças entre este arranjo e sua versão original é o emprego da voz, o que transforma este trabalho em uma canção. Novamente, considero que a escolha foi infeliz, pois a mescla das vozes não traz um material tímbrico tão interessante quanto na gravação encontrada em Cross. A faixa é encerrada por um solo de guitarra que, em alguns momentos, fica em segundo plano na mixagem. Especialmente, quando o intérprete vai para um registro médio de seu instrumento e executa passagens mais ruidosas. 

Ao todo, surpreende-me a escolha do arranjador em remeter a uma estética que dialoga com o hard rock dos anos 1970 para a faixa. Apesar do jogo polirrítmico entre bateria e banda e da reharmonização proposta, muitos dos elementos marcantes que citei de Time’s Scar foram deixados de lado, coisa que tira o brilho desta versão.

No entanto, Radical Dreamers, faixa de encerramento de Cross e que vem a seguir no disco, tem uma proposta que funciona melhor. Primeiramente, a peça original é uma canção também, o que dá mais sentido ao emprego da voz. Curiosamente, a letra cantada foi traduzida para o inglês, arrisco dizer que seja uma estratégia para atingir a audiência ocidental — o fato se repete em outras faixas do álbum. 

O arranjo conta com uma instrumentação densa e variada que é introduzida ao longo da peça, em contraposição à voz e violão da versão de Chrono Cross. A estética da transcriação da obra remete muito a baladas pop e conta com Sarah Alainn como cantora, intérprete que trabalhou na trilha de Xenoblade Chronicles. A voz de Alainn se encaixa bem a o que o arranjo se propõe, seu timbre é mais encorpado se comparado ao da cantora na versão original. Alguns estereótipos de pop à la Alpha FM incomodam. Como exemplo, cito o uso do carrilhão para marcar uma transição em que se dá a entrada do contrabaixo elétrico. 

O emprego das cordas é comedido com sua escrita de notas longas que não se destaca. Excetua-se aqui o solo de violino, cuja composição se encaixa no trabalho e auxilia a introdução da banda completa em uma canção que, pesando seus altos e baixos, funciona dentro do que se propõe a apresentar, mas que está longe de ser um ponto forte do disco.

Novos ventos em cena

Wind Scene, um dos temas de Overworld de Chrono Trigger, é apresentado em um arranjo para piano e cordas. O contraste entre as duas seções da peça se dá principalmente por meio de variações de dinâmica e articulações das cordas friccionadas. A parte do piano permanece muito fiel à escrita original de Mitsuda, enquanto isso, a orquestra oferece uma gama de acompanhamentos que variam de contracantos em tutti à harmonia executada em pizzicato — quando as cordas dos instrumentos são tocadas com os dedos ao invés do arco. 

Em intensidade, o ápice se dá quando a melodia da música se transfere para a orquestra, que a executa em uníssono. Apesar dos recursos que o arranjador emprega, sinto que algumas possibilidades claras de orquestração foram deixadas de lado. A execução do piano pouco se altera em termos de textura e rítmica, o que contribui para que não haja grandes variações no diálogo entre o instrumento e as cordas. Em oposição, o mesmo não ocorre quando nos referimos somente à orquestra. Pode-se dizer que as teclas foram pouco aproveitadas, assim como há uma predominância de momentos de grande densidade nas cordas. Maior parcimônia acerca desses dois elementos na música traria um efeito positivo a esta versão que, embora sua audição não seja desagradável, pouco chama a atenção.

Schala’s Theme traz novamente o grande impasse que pode causar estranheza ao ouvinte: a transformação de peças instrumentais em canções. No caso, o novo arranjo é fiel à discreta e efetiva grade percussiva encontrada na versão de Chrono Trigger. Um tom mais intimista é dado à peça graças à intensidade geral da execução dos instrumentos, que pouco alcançam dinâmicas fortes. Isso fica especialmente evidente na interpretação de sua cantora. A escolha é bem-feita, ainda mais dado o caráter misterioso da personagem à qual a música se associa no game — apesar de aqui termos um álbum feito para apreciação e que não está inserido em um contexto dramático, considero que a referência é benquista. A barreira linguística para o ouvinte ocidental também traz o ar de indagação à tona, visto que não compreendo nada de japonês.

Se Schala’s Theme funciona como canção, o mesmo não posso dizer de Corridors of Time. Curiosamente, ambas as peças foram arranjadas por Mitsuda no álbum, ao contrário das faixas tratadas aqui anteriormente. A impressão é que o compositor busca gerar contraste no álbum entre as duas obras. Em Chrono Trigger, ambas contavam com uma grade rítmica marcante, especialmente pelo timbre sintetizado das moringas. No caso do disco, Corridors of Time possui um acompanhamento percussivo que surge em apenas uma seção do arranjo e que acentua a cabeça dos compassos, remetendo pouco ou nada ao bom swing de sua versão original.

Questiono a própria concepção deste tema como canção, visto que sua melodia tem um caráter instrumental evidente. Suas notas de mais curta duração dificultam a prosódia da cantora em alguns momentos, como no início da frase “did you cross over an eternity?”. Além disso, a formação instrumental utilizada se opõe, a meu ver, à própria interpretação vocal. Destaco o verso que é sucedido por um solo do que me soa como um erhu (instrumento chinês de corda friccionada), o que faz a peça soar como um híbrido de solilóquio introspectivo da Broadway com música pop oriental.





Em algumas faixas instrumentais, o contraste que vejo entre Schala e Corridors surge de forma semelhante. The Frozen Flame foi arranjada para quarteto de cordas e logo é sucedida pelo tema de Marbule, que manteve seu caráter popular já presente em Chrono Cross. Ambas funcionam em seus respectivos espectros. A transição de The Frozen Flame para uma instrumentação clássica é interessante, pois o arranjador mantém alguns aspectos da obra original, como o movimento de intervalos paralelos no acompanhamento em determinados momentos, o que faz prevalecer um vínculo entre ambas. Sinto que a melodia permanece demais numa região aguda e que, novamente, maior variedade poderia ser conferida à transcriação, mas sua audição agrada.

Outra faixa que compartilha dessa instrumentação é The Bend of Time, também presente em Chrono Cross e que originalmente é executada por um violão solo. Enalteço a difícil tarefa do arranjador aqui, que mais trabalha como um tradutor ao transferir a escrita das cordas dedilhadas para as friccionadas. A versão é sutil e é um dos momentos de introspecção do álbum.

Marbule: Mitsuda em sua essência

Marbule é, provavelmente, a faixa mais forte do disco. Uma introdução de acordeon em andamento lento nos faz indagar onde está o dinamismo do tema original. Isso é apresentado não muito tarde, quando a banda que toca a melodia da ilha dos monstros entra com tudo. O arranjo, outro de Mitsuda, traz elementos característicos de sua escrita em Chrono Cross, como a dobragem de flauta e violino que o compositor tanto gosta e que se encaixa bem aqui. A qualidade desta faixa não me surpreende, visto que o trabalho dialoga diretamente com a música celta, objeto de paixão de Mitsuda.

Dentre diversos aspectos, agradou-me muito o solo de violino da música, que me lembrou algumas coisas do Dixie Dregs — banda de jazz fusion integrada pelo guitarrista Steve Morse. A seção de percussão traz intensidade ao arranjo e remete aos melhores momentos do jogo de PSx.
Ao todo, somam-se quatro peças instrumentais e seis canções no álbum, que é encerrado por versões cantadas de Epilogue to Good Friends (aqui intitulada On the Other Side) e To Far Away Times, faixas que se encontram no final de Chrono Trigger. Percebe-se que houve a busca por um equilíbrio neste aspecto, mas questiono aqui se o arranjo das canções não poderia ter mais variedade. Excetuando Schala’s Theme e Time’s Scar, todas as outras peças confiam em uma estética próxima ao pop, seja em sua totalidade, como em Radical Dreamers, ou em passagens prolongadas, como na faixa final. 

Parecer final

A melodia original das peças não contribui para o uso da voz em vários momentos, como já destaquei em Corridors of Time, e aqui também cito a faixa de abertura do álbum e a seção final de To Far Away Times, que remete ao tema de Chrono Trigger. Traduzir uma linha instrumental para a voz é um jogo perigoso para o melhor dos arranjadores e sinto que a fixação pela canção neste álbum retirou o brilho da composição de Mitsuda em diversos momentos — seja pela troca de timbres ou por passagens pouco compatíveis à execução de um cantor.  Uma alternativa jaz na redução do uso da voz dentro das próprias canções, intercalando os versos cantados com melodias executadas instrumentalmente em uma frequência maior do que a encontrada no LP.

To Far Away Times não chega a ser um mau disco, mas é gravemente comprometido por algumas decisões questionáveis de arranjo. Álbum por álbum, ainda fico com o velho The Brink of Time, que, além de contar com boa execução e escrita, é muito mais ousado do que o flerte constante com o pop que se encontra aqui.


Revisão: Jaime Ninice
Luiz Roveran é mestrando em música pela UNICAMP. Busca em sua produção promover a interdisciplinaridade entre os games e outras mídias, como o cinema e a literatura. É um dos fundadores do Pulo Duplo, toca com o Co-Op Players e é ostensivamente são-paulino.

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