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Análise: Afro Samurai 2 Revenge of Kuma — Volume 1 (Multi): sem ritmo e sem alma

O primeiro episódio do novo Afro Samurai desaponta em quase todos os aspectos.

Seja por escolha ou por acaso, nunca tive a oportunidade de jogar nenhum daqueles dez a quinze jogos que sempre aparecem em listas de piores games de todos os tempos. Pensando em lançamentos recentes, também não tive o, aparente, desprazer de jogar Godzilla (PS4), por exemplo. Para vocês terem uma ideia, o pior título que eu joguei esse ano foi The Order: 1886 (PS4), e é óbvio que ele não chega a um nível tão baixo — ainda que tenha seus sérios problemas. Toda essa introdução é para dizer que Afro Samurai 2: Revenge of Kuma — Volume 1 é, com alguma folga, o pior jogo que experimentei nos últimos anos.

Em meio a batidas empolgantes, um ritmo ruim

Mesmo o único aspecto de destaque do título sofre com decisões estranhas e um ritmo ruim. A trilha sonora, que traz uma seleção musical de hip-hop criada originalmente para o jogo, é excelente: existe uma identidade nela, e as faixas poderiam complementar a atmosfera de Afro Samurai e a proposta estética do game. Mas, muitas vezes, parecem acompanhar os momentos errados e, em algumas oportunidades, a música começa e já é cortada por uma cena. O que nos leva a um dos problemas centrais de Afro Samurai 2: o ritmo.

O primeiro Afro Samurai (Multi), de 2009, não é um jogo excepcional e isento de problemas, mas trazia uma experiência divertida, polida e com um ritmo de jogo competente, tudo o que Revenge of Kuma não faz. Vejam, em dado momento me foi apresentado um cenário maior, e a narrativa prometia que eu teria que enfrentar diversos inimigos, mas, a cada pequeno grupo vencido, aparecia uma cena para introduzir os adversários que estão chegando. Além disso, ao vencer o primeiro grupo, uma música com uma batida rápida e empolgante começa, mas tão logo eu dou os primeiros passo em frente, uma cena aparece, acabando com a música e introduzindo mais inimigos. Não existe uma continuidade na ação.

O ritmo do episódio como um todo é ruim: passamos a maior parte do tempo perseguindo o fantasma da irmã de criação do Kuma, e, nesses momentos, apenas andamos por curtos cenários e batalhamos uma ou duas vezes, sem nem poder usar mecânicas centrais da batalha ainda. E, do nada, pintam sequências de QTE (quick time events) com um maior foco na apertação de um único botão rapidamente do que em apertar alternados botões em um determinado ritmo. Pior é quando um personagem que prometia ser um grande chefe e trazer uma boss fight é vencido com um segmento de fuga seguido por QTE.
Estou em direção a uma parede invisível.
Pior ainda é quando esse mesmo personagem pula com um grupo de inimigos em um espaço grande e aberto na sua frente para te vencer, e quando você ganha o controle do Kuma e pensa em ir bater de frente com eles, uma parede invísivel te impede, fazendo com que você siga para uma construção na direção oposta.

Em meio a tretas frenéticas, mais ritmo ruim

Os outros cenários também são recheados de paredes invisíveis, além de um design simplista no pior sentido possível: apenas ande do ponto A ao B em um level com bem pouco de alma visual, porém desprovido dela em qualquer outro aspecto. A forma como a câmera é posicionada também atrapalha a exploração. Aliás, a câmera (e a falta de podermos movimentá-la) também atrapalha nos momentos de batalha.

Neste caso a batalha é o que poderia salvar o jogo, mas ela não funciona muito bem. Atacamos com apenas um botão, podendo aplicar um finalizador depois de alguns hits, e também encher uma barra que faz o espadachim poder finalizar de quatro a cinco inimigos, independente do tipo deles. O primeiro problema é que boa parte do episódio só traz cenários com poucas lutas nas quais ainda não podemos usar o finalizador e nem o especial, sabe-se lá por qual motivo, fazendo com que a ação consista em apenas apertarmos o botão de ataque e o de contra-ataque.
Existe três estilos de ataque: Kuma, Master e Afro.
Ah, o contra-ataque. Contra-atacar é essencial para o flow das lutas em jogos deste tipo. Basta ver como o ritmo da treta em jogos como Batman: Arkham Knight (Multi) e Middle-Earth: Shadow of Mordor (Multi) é fluído e entrega uma experiência gostosa. E mesmo jogos com uma execução pior da mesma ideia ainda o fazem de maneira superior à Afro Samurai 2. O Kuma tem que estar, literalmente, a um passo do inimigo para o contra-ataque funcionar, caso não esteja, ele simplesmente para no meio da batalha com as duas espadas em modo de defesa.

E isso não é o único problema da batalha: a física deixa a desejar. Algumas vezes, cheguei a ver situações estranhas, como quando o Kuma fica em cima de um inimigo (porque veio da parte de cima de uma escada ou barranco) dando espadadas no ar, mas acertando e causando dano. Também não existe uma sensação de que os golpes estão encaixando com força. Eles até fluem bem em alguns momentos, e a ideia de ter três estilos de luta - Kuma, Master, Afro - é interessante. Em alguns momentos é bacana a introdução de inimigos diferentes que devem ser esquivados usando um estilo, e vencidos com outro: trocar de estilo no ar e cair já matando tinha tudo para ser estiloso e divertido.


Mas não é. As trocas entre os estilos não funcionam de maneira fluída; existem só quatro tipos de inimigos; a única (real) batalha contra chefe do jogo é mecanicamente frustrante; e, como já dito lá em cima, na hora em que parece que vai haver um ritmo acelerado de diferentes batalhas, vemos pausas desnecessárias com muita frequência.

O jogo tenta trazer segmentos diferentes, como momentos de plataforma — com desafio pífio e controles travados —, segmentos de QTE — mais focados em apertação de um botão do que em movimentos ritmados —, e até mesmo alguns momentos de fuga. Um destes até traz uma boa ideia: a câmera está fixa atrás dos ombros do inimigo que está nos seguindo, mas a falta de desafio e de sensação de velocidade faz até mesmo uma proposta interessante ser estragada. Isso sem falar que nesses segmentos de fuga o framerate costuma cair bastante, deixando a ação não apenas enfadonha como também lerda.
E é muito fácil evoluir todas as habilidades dos três estilos, menos a última que só estará disponível no episódio 2...

Em meio a uma história de vingança...

A progressão narrativa do jogo também é ruim. Depois de muito tempo perseguindo o fantasma da irmã e relembrando de momentos do passado (o que acontece com uma atuação vocal ruim e diálogos sem graça), finalmente chegamos aos dois cenários com um maior número de inimigos, apenas para encontrar mais personagens desinteressantes e mais diálogos chatos. E já que é um jogo episódico, o esperado seria que acabasse de maneira a deixar o jogador instigado para a próxima parte: o que não aconteceu comigo e dificilmente vai acontecer com alguém.

E, além de tudo isso, ainda existe um aspecto irritante da narrativa do jogo:
Objetivo: Siga em frente para confrontar a realidade de que todas as pessoas que você amou estão mortas, e a memória delas é a única coisa que você possui. 
Nos games, geralmente é legal usar o tempo e as especificidades que só essa mídia possui para poder mostrar uma história, o que é mais interessante do que apenas contar. É aquela história do “não conte, mostre”. Revenge of Kuma subverte esse ditado: “não mostre, conte de uma maneira tosca”.

Esqueça o que esse jogo poderia ser e confronte a dura realidade

Afro Samurai 2: Revenge of Kuma  — Volume 1 não traz uma história bem contruída. Não desenvolve bem o personagem Kuma (o que poderia fazer com que a história do jogo fosse mais interessante), possui uma narrativa também ruim e traz cenas e diálogos sem alma. Também não existe muita alma nos cenários, que nos levam do ponto A ao B, em meio a segmentos desconexos e mal executados. A batalha também é cheia de problemas, e está longe de satisfazer em um mercado com ótimos jogos de ação frenética. A música, que é o único ponto positivo do jogo, perde-se em meio a um compasso ruim e cortes inesperados.


Nem todo o ritmo de um bom Hip-Hop consegue salvar o péssimo ritmo deste jogo.

Prós

  • Trilha sonora original e de alta qualidade

Contras

  • Mesmo a ótima trilha sonora é ceifada pelo ritmo do jogo;
  • Progressão narrativa e roteiro ruins;
  • Levels simples e desinteressantes;
  • Segmentos de QTE e plataforma mal executados e sem graça;
  • Batalha com poucas mecânicas, que ainda assim não agradam;
  • Problemas na física do jogo.
Afro Samurai 2: Revenge of Kuma Volume 1  — PC, PS4  — Nota: 2.0
Versão utilizada para a análise: PS4

Revisão: Jaime Ninice
Capa: Felipe Araújo
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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