Autorado por Buronson e Tetsuo Hara, Hokuto no Ken estreou nas páginas
da Weekly Shonen Jump em 1983 e rapidamente se consolidou como um dos mangás
mais influentes dos anos 1980. A jornada de Kenshiro em um mundo devastado por
uma guerra nuclear deu origem a animes, filmes, OVAs e dezenas de jogos
eletrônicos lançados ao longo de mais de quatro décadas.
Em 2023, a franquia completou 40 anos, celebração que deu início à produção de
uma nova adaptação para TV, cuja primeira temporada chegou ao fim em junho de
2026. Coincidindo com esse retorno e com a estreia de
Kenshiro como personagem convidado
em
Fatal Fury: City of the Wolves, relembre a trajetória de Hokuto no Ken nos videogames.
Parte 1 | Parte 2
Hokuto no Ken: Violence Gekiga Adventure (1986, Enix)
Desenvolvido pela Enix, Hokuto no Ken: Violence Gekiga Adventure é o
primeiro jogo baseado na marca. Lançado em maio de 1986, três meses após o
início do mangá e dois após o do anime, trata-se de uma graphic adventure,
um formato bastante popular para os computadores japoneses da época, sendo
compatível com os PC-8801 e PC-9801 da NEC, além do Fujitsu FM-7 e o Sharop
X1.
A história adapta com alguma liberdade o arco de Southern Cross, colocando
Kenshiro e Bat na missão de infiltrar-se na cidade dominada por Shin para
resgatar sua amada Yuria. A progressão depende da investigação dos cenários,
coleta de itens e interação com personagens, exigindo que o jogador descubra
pistas para avançar na trama. O game foi distribuído em dois disquetes, cada
um cobrindo uma etapa distinta da aventura: a viagem até Southern Cross e os
acontecimentos dentro da cidade em busca de Shin.
Os confrontos, obviamente limitados e relativamente simples devido às
limitações técnicas da época, tratam de introduzir um sistema próprio
inspirado no Hokuto Shinken em que os inimigos só podiam ser derrotados após
a identificação de seus pontos vitais em uma espécie de grade que aparece na
tela sobre a ilustração pixelizada do oponente.
Embora apresente diferenças óbvias na jogabilidade, o sistema de Violence
Gekiga Adventure foi claramente desenvolvido em cima de outro título da Enix
chamado Portopia Renzoku Satsujin Jiken. Assim, Bat exerce um papel
semelhante ao de Yasu naquele jogo, auxiliando Kenshiro de acordo com os
comandos do jogador. O sistema de interação também segue uma lógica parecida
com a versão de Famicom de Portopia: em vez de digitar comandos livremente,
como acontecia na edição original para computadores, as ações são
selecionadas por números no teclado, tornando a navegação mais rápida e
prática.
Hokuto no Ken (1987, SEGA)
Hokuto no Ken foi lançado para o SEGA Mark III (o Master System
japonês) em julho de 1987, tornando-se a primeira adaptação da série pela
empresa. Desenvolvido como um beat 'em up de rolagem lateral inspirado em
Kung-Fu Master, o jogo não tem para onde fugir e, novamente, coloca o
jogador no controle de Kenshiro em sua jornada para resgatar Yuria, mas
agora indo mais além e chegando até o clímax da história em que ele precisa
derrotar Raoh.
A campanha é dividida em seis fases que adaptam livremente diferentes
momentos do mangá, passando por cenários como Southern Cross, a prisão de
Cassandra e o confronto contra Souther, culminando no embate final contra
Raoh. A estrutura desses níveis é sempre a mesma: na primeira metade,
Kenshiro avança em progressão lateral, enfrentando ondas incessantes de
inimigos com socos e chutes, além de minibosses mais resistentes. Na segunda
metade ocorre o confronto contra o chefe da fase, apresentado com sprites
maiores e que sempre precisa ser derrotado por algum um golpe especial do
Hokuto Shinken.
Meses após seu lançamento no Japão, o jogo foi completamente reformulado
para o mercado ocidental sob o título Black Belt. Nessa versão,
praticamente todos os elementos ligados a Hokuto no Ken foram substituídos.
Assim, Kenshiro tornou-se o carateca Riki, da mesma forma que personagens e
cenários receberam novas aparências. O único aspecto estético mantido acabou
sendo a violência gráfica, uma vez que os inimigos ainda explodiam quando
eram derrotados. Por fim, Hokuto no Ken também ficou marcado por ter sido
programado por Yuji Naka, anos antes da concepção de Sonic.
Hokuto no Ken (1986-1993, Toei)
Entre 1986 e 1993, a Toei, a mesma responsável pela adaptação em anime,
desenvolveu, para os consoles da Nintendo, sete jogos baseados na marca —
coincidentemente ou não, o mesmo número de estrelas da constelação. Ao longo
desse período, a série experimentou diferentes gêneros, dos beat 'em ups aos
RPGs e jogos de luta, acompanhando algumas das tendências do mercado da
época, mas com resultados bastante variados em termos de qualidade e
recepção.
Hokuto no Ken (1986)
Lançado para o Famicom, Hokuto no Ken marcou a estreia da franquia nos
consoles da Nintendo. Assim como o jogo antecessor, trata-se de um beat 'em
up com progressão lateral no qual Kenshiro enfrenta seus oponentes
tradicionais, como Shin, Souther e Raoh.
As fases exigem encontrar o caminho correto por meio de portas espalhadas
pelos cenários, enquanto um sistema de evolução permite fortalecer Kenshiro
ao coletar estrelas obtidas de determinados inimigos, aumentando sua
velocidade e poder de ataque. Apesar de tentar se desvencilhar um pouco do
óbvio, o jogo ficou conhecido pela recepção relativamente negativa da
comunidade de fãs, que frequentemente critica seus gráficos, trilha sonora,
jogabilidade, detecção de colisão e diversos problemas técnicos.
Hokuto no Ken 2: Seikimatsu Kyūseishu Densetsu (1987)
Também foi projetada para o Famicom, esta sequência é baseada na segunda
fase da história da série e adapta o arco da Capital Imperial. Como foi
desenvolvido enquanto o mangá ainda estava em publicação e o anime nem
sequer havia chegado nesse trecho, a narrativa é limitada apenas ao primeiro
arco dessa nova etapa.
A jogabilidade mantém a fórmula beat 'em up do antecessor e os cenários
continuam explorando caminhos alternativos por meio de portas, mas abandonam
a estrutura labiríntica do primeiro jogo em favor de uma progressão mais
direta. Apesar das melhorias gráficas e técnicas, a recepção também
permaneceu apenas morna, com o jogo sendo considerado apenas uma evolução
modesta, mas ainda inferior a muitos outros títulos disponíveis para o
Famicom na época. Em 1989, o jogo foi lançado nos Estados Unidos pela Taxan
sob o título Fist of the North Star, recebendo alterações visuais,
ajustes de dificuldade e a remoção de algumas cenas, mas preservando a
história original.
Hokuto no Ken 3: Shin Seiki Sōzō: Seiken Retsuden (1989)
O terceiro jogo da Toei representa uma mudança radical ao abrir mão do beat
‘em up ao assumir a forma de um RPG tradicional, — com exploração dos
cenários, conversas com NPCs, encontros aleatórios e formação de party — que
se preocupa em recontar toda a história do início até a conclusão do arco da
Terra de Asura, da segunda etapa do mangá — ainda que promovendo algumas
mudanças pontuais na narrativa.
Hokuto no Ken 4: Shichisei Hakenden: Hokuto Shinken no Kanatae (1991)
Ainda demarcando presença no Famicom, o quarto título manteve a abordagem de
RPG de seu antecessor, mas apresentou uma história inédita ambientada após
os acontecimentos do mangá. Em vez de controlar Kenshiro, o jogador assume o
papel de um novo protagonista original cuja missão é tornar-se o próximo
sucessor do Hokuto Shinken. Embora a aventura introduza diversos personagens
originais, figuras conhecidas da série, como o próprio Kenshiro, também
fazem participações ao longo da campanha.
Hokuto no Ken 5: Tenma Ryūsei Den: Ai Zesshō (1992)
Trata-se do primeiro jogo da franquia no console de 16 bits da Nintendo, o
Super Famicom, embora mantenha o formato de RPG adotado nos títulos
anteriores. A história se passa em um universo alternativo, apresentando um
protagonista inédito que enfrenta o Imperador Demônio, enquanto a segunda
metade da aventura coloca o jogador no controle de seu filho, dando
continuidade ao conflito. Além de um elenco composto majoritariamente por
personagens originais, o jogo também traz participações de nomes clássicos
da série, como Kenshiro, Rei e Raoh.
Hokuto no Ken 6 Gekitō Denshōken: Haō no Michi (1992)
O sexto título marcou a estreia da franquia no gênero de luta, em voga
naquele período. O jogo oferece oito personagens selecionáveis, incluindo
Kenshiro, Rei, Souther, Raoh, Falco e Kaioh, cada um com golpes especiais
ativados sob determinadas condições, além de modos para um jogador, versus e
confrontos livres. Apesar do potencial da proposta, a recepção da comunidade
é bastante negativa, com críticas voltadas à animação limitada, à
jogabilidade pouco refinada, ao número reduzido de golpes e à apresentação
técnica abaixo do esperado, especialmente se comparada à versão do próprio
Street Fighter presente no Super Famicom.
Hokuto no Ken 7 Seiken Retsuden: Denshōsha no Michi (1993)
É o último jogo da franquia no Super Famicom, dando continuidade ao gênero
implementado no antecessor. O elenco foi reformulado, substituindo
personagens da segunda como Kaioh, Black Yasha e Falco por Shin, Shu e
Juuza, enquanto Heart e King Fang ficaram restritos aos confrontos
controlados pela CPU. Além do modo história protagonizado por Kenshiro, o
jogo oferece modos de batalha e versus para dois jogadores, com golpes
especiais ativados por uma barra de energia. Assim como seu antecessor, o
título recebeu uma recepção negativa, principalmente por seu baixo
desempenho técnico, animações pouco fluidas e inteligência artificial
considerada desproporcionalmente difícil.
Hokuto no Ken: Seikimatsu Kyūseishu Densetsu (1989, SEGA)
Lançado pela SEGA em 1989 para o Mega Drive,
Hokuto no Ken Seikimatsu Kyūseishu Densetsu é um beat 'em up de
rolagem lateral que funciona como uma espécie de sucessor do jogo lançado
anteriormente para o Mark III. Baseado na segunda fase da série, o título
acompanha Kenshiro em sua jornada contra o Império Celestial e os guerreiros
da Terra de Asura. A campanha é dividida em quatro capítulos, alternando
fases de ação, exploração de masmorras e duelos contra chefes, além de
incluir um mapa que permite selecionar diferentes rotas de progressão.
Apesar da variedade de estágios, o jogo recebeu uma recepção negativa,
principalmente por sua jogabilidade repetitiva, detecção de colisão
problemática, dificuldade desequilibrada e apresentação técnica considerada
abaixo do esperado para o Mega Drive japonês.
Em 1990, o título foi adaptado para o mercado ocidental com o nome
Last Battle, eliminando todas as referências a Hokuto no Ken,
alterando os nomes dos personagens, reduzindo a violência gráfica e
modificando o visual de diversos inimigos, embora a estrutura da história
tenha permanecido praticamente intacta, com apenas alguns nomes trocados.
Posteriormente, Last Battle também ganhou ports para Amiga, Commodore 64 e
Atari ST, exclusivas da Europa, embora essas versões apresentassem menos
fases do que a edição original para Mega Drive.
Fist of the North Star: 10 Big Brawls for the King of Universe (1989, Toei)
Desenvolvido para o Game Boy, Hokuto no Ken: Seizetsu Jūban Shōbu é o
primeiro jogo de luta um contra um da franquia (antes mesmo dos da Toei para
o Super Famicom), reunindo personagens de todas as fases do mangá, que havia
se encerrado no ano anterior. O modo principal permite escolher entre 11
lutadores para enfrentar uma sequência de combates, utilizando golpes
físicos e projéteis ativados pelo carregamento de uma barra de aura. O jogo
também oferece modos versus e em equipes para dois jogadores, acessíveis por
meio do cabo Link do Game Boy, além de um sistema de experiência que
fortalece os personagens ao longo da campanha.
Embora um dos jogos mais competentes da franquia até então, o título ainda
recebeu críticas pelo desequilíbrio entre os personagens e pela inteligência
artificial inconsistente. Em 1990, também foi lançado nos Estados Unidos com
o título
Fist of the North Star: 10 Big Brawls for the King of Universe,
praticamente sem alterações em relação à versão japonesa, com exceção de uma
tela de título diferente.
Hokuto no Ken (1995, Banpresto)
Hokuto no Ken — a falta de preocupação com o nome dos jogos naquela
época era nítida e, atualmente, preocupante para quem está atrás de
informações a respeito de cada um nos dias de hoje — foi lançado para o SEGA
Saturn no fim de 1995 e marcou o retorno da franquia aos videogames com uma
proposta bastante diferente dos títulos anteriores.
Em vez de adaptar diretamente o mangá, o jogo apresenta uma história inédita
ambientada após seu desfecho, na qual Kenshiro parte para resgatar Lin e Lui
após o surgimento de uma nova escola marcial, a Hokuto Mumyō Ken. A
narrativa também reimagina o universo da série ao trazer de volta
personagens que haviam morrido no material original, como Ryuken e Toki. Uma
versão para PlayStation foi lançada em agosto de 1996, com pequenas
alterações de conteúdo.
A jogabilidade resgata o formato de graphic adventure, com foco na narrativa
e em cenas animadas nas quais Kenshiro percorre diferentes localidades,
conversa com personagens e enfrenta inimigos em combates baseados em menus,
nos quais o jogador escolhe técnicas ofensivas e defensivas enquanto
administra sua aura de combate. Além do modo história, o jogo também inclui
um modo versus para um ou dois jogadores, permitindo utilizar até dez
personagens desbloqueáveis.
Sem nunca ter recebido um lançamento ocidental, o título se destaca pela
quantidade de animações inéditas produzidas especialmente para ele e por
expandir o universo de Hokuto no Ken com novos personagens e estilos de
luta, funcionando quase como uma sequência original.
Typing Ougi Hokuto no Ken Gekiuchi (1999 – 2003, SSI Tristar)
Trata-se de uma adaptação de finalidade curiosa: é um software de treino
ludificado voltado ao ensino de digitação, algo popular naquela época. O
produto acompanha a história do anime desde o início da jornada de Kenshiro
até seu primeiro confronto contra Raoh, distribuindo a campanha em sete
fases nas quais o jogador derrota inimigos digitando corretamente as letras
exibidas na tela. Durante os combates contra chefes, uma barra especial
permite executar técnicas do Hokuto Shinken para finalizar os adversários.
Apesar da proposta educativa, Gekiuchi ficou conhecido entre a comunidade de
fãs por manter o visual inspirado no anime, mas retratar a violência com um
nível exagerado por vezes até superior ao do mangá, com mortes extremamente
gráficas e explosões de sangue. O aparente sucesso deu origem a uma série de
quatro jogos: um segundo título que revisava e expandia o original, seguido
por duas sequências inéditas.
Confira a segunda parte da reportagem
Parte 2
Revisão: Johnnie Brian




























