Análise: Linelith concentra tudo o que tem na essência pura e bem-feita de seus puzzles

Bons enigmas e clima agradável bastam para fazer a experiência valer a pena.

em 14/07/2026

Esta análise será curta, pois o próprio objeto analisado, Linelith, é um jogo de puzzles que preza pela brevidade, tendo sido feito para oferecer uma deleitável experiência de colocar a cabeça para funcionar por uma hora e meia, talvez duas.

Um pequeno aprendizado por vez

Há um segundo motivo para não nos estendermos demais nesta review: Linelith ensina seus puzzles organicamente, dando pequenos passos para gradualmente ensinar a pessoa que joga a ver os enigmas e o mundo sob outras perspectivas. A expansão gradual da percepção é uma parte central do design e funciona como pequenas surpresas que dão alma à experiência diante dos puzzles. Em resumo: é importante evitar spoiler.

Digo pequenas surpresas para que não sejam esperadas reviravoltas ou revoluções profundas de gameplay. É apenas o bastante para valorizar os momentos de súbito entendimento de algo que, antes despercebido, passa a ser óbvio, mostrando como a engenhosidade pode ser sutil sem perder seu valor.



Um puzzler destilado em sua essência

Linelith é exatamente o que você vê nas imagens e no trailer que acompanham estas palavras, mas com mais camadas do que percebemos à primeira vista. É claro que estou sendo vago de propósito, mas dá para explicar a premissa básica: formar linhas que atravessam as formas dispostas pelos cenários.

Em seu nível mais básico, a ideia se parece com o começo de The Witness, sem pretender se aprofundar tanto quanto o jogo que Jonathan Blow lançou em 2016. Longe disso, a coisa toda é bastante minimalista, até a interface: temos um contador de 132 puzzles e cada um que solucionamos aumenta o número do zero, em direção a esse máximo. Simples assim.

É tão direto ao ponto que eu disse ao meu filho, que me observava: “aposto que, quando completar tudo, vai aparecer apenas um ‘obrigado por jogar’”. E foi exatamente isso que aconteceu.



Linelith não tem uma história nem se preocupa em construir um contexto interno. Apenas usamos o direcional para controlar uma pedra com pernas e o mouse para desenhar as linhas — em inglês, “line” é linha e “-lith” é o sufixo “lito”, que significa “pedra” (como em “monólito”). Raciocinamos calmamente ao som de música agradável, pixel art básica e cores suaves para combinar com o ambiente relaxante, contemplando trajetórias no nosso próprio ritmo.

Ainda que muitos dos desafios tenham várias soluções possíveis, é claro que há certas regras para traçarmos nossas linhas e precisamos entendê-las para saber onde começar, onde terminar e quais requisitos devem ser cumpridos entre esses pontos A e B. Como já disse, isso tudo é muito orgânico e simples, sem precisar de tutoriais explícitos nem apelar para lógicas mirabolantes.



Fica o gosto de quero mais

Talvez o ponto fraco seja justamente a falta de aprofundamento. Não me entenda mal; Linelith é um jogo completo, inteligente, redondinho e muito satisfatório. É por isso mesmo que ele deixa a impressão de “quero mais”, não apenas no sentido de mais conteúdo, tempo e puzzles, mas de desdobramentos de game design.

Que outras ideias caberiam ali? Quais surpresas mais ele poderia nos oferecer? Até onde nos levaria, caso seu objetivo principal desse o braço da concisão a torcer e cedesse espaço para mais experimentação e ambição? Assim como Leap Year, outro jogo curto de puzzles, que teve a oportunidade de receber uma expansão que dobrou a brincadeira, uma extensão semelhante combinaria muito bem com Linelith e o enriqueceria como um todo.



Um pouco de contexto

Por fim, há um subtexto por trás da ideia: criado pelo desenvolvedor solo Patrick Traynor (que também criou o vertiginoso puzzler Patrick’s Parabox), Linelith é parte do CosmOS9 Bundle, um conjunto de jogos feitos por diferentes pessoas para um console fictício. A descrição oficial resume bem:
“CosmOS 9 é uma coletânea de 9 jogos de quebra-cabeça descobertos em um console de videogame misterioso — talvez de origem alienígena — encontrado à deriva fora do Sistema Solar. Os jogos foram aprimorados e adaptados para computadores modernos por um grupo de desenvolvedores experientes do gênero.

Os jogos são relativamente curtos, com durações que variam de 30 a 90 minutos cada.”
Apesar do nome bundle, os jogos são vendidos separadamente e custam entre 3 e 4 dólares. Linelith é o único deles que joguei e, se considerarmos as reviews de Steam, é o mais bem-sucedido do grupo, por uma enorme margem.



O que é ótimo dura pouco — com ênfase no “ótimo”

É preciso menos de duas horas para completar os 132 puzzles de Linelith e, se a impressão final é a de que devia haver mais, vejo nisso uma prova de sua qualidade intuitiva, agradável e engenhosa. O jogo foi feito para ser uma experiência breve, mas poderia ser enriquecido com outros desdobramentos de suas boas ideias. Por enquanto, o que temos é bom e vale a pena ser saboreado pelos apreciadores de puzzles.

Prós

  • Puzzles instigantes e práticos, sem enrolação;
  • O design segue um fluxo orgânico de aprendizado, sem precisar de tutoriais explícitos;
  • A simplicidade estética faz seu papel de ser um adendo agradável à experiência de resolver problemas.

Contras

  • A própria qualidade da experiência como um todo é um atestado de que ela deveria ser levada a maiores desdobramentos e surpresas.
Linelith — PC — Nota: 8.0
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo redator
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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