Desde então, cada vez mais entradas nesse mini-gênero conquistaram os corações do público: por exemplo, no ano passado, Blue Prince sequestrou horas e horas de quem se dedicou a caçar a Sala 46, e ainda mais em busca da verdade completa a respeito da propriedade de Mount Holly. The Roottrees are Dead, cujas inspirações em alguns dos jogos citados por Ashley são imediatamente óbvias, é outra expressão de um interesse por quebra-cabeças mais procedimentais.
Remake de um sucesso imediato na plataforma itch.io que substitui imagens geradas por IA pela arte original de Henning Ludvigsen, o game acaba de receber uma versão em português do Brasil e uma precificação mais justa para a América Latina; logo, para nós, deste canto do globo, é mais fácil desmascarar os Roottrees do que nunca. Vamos começar?
Catuca pai, mãe, filha…
O ano é 1998, na Pensilvânia, Estados Unidos. Um acidente de avião tira a vida do CEO da Corporação Roottree, de sua esposa e de três filhas, as populares modelos Irmãs Roottree. Como resultado, uma genealogia completa da família, a fim de identificar quem tem direito à enorme herança por eles deixada, deve ser conduzida. Para tanto, você, profissional do ramo, é contratado(a) por uma mulher misteriosa, que promete uma grande quantia pelo serviço.
O maior aliado nessa investigação é uma peça de tecnologia de ponta, novíssima: um computador de mesa com Internet discada (o detalhe é tanto que, assim como naquela época, temos de conectá-lo manualmente à rede). Somado a eventuais informações fornecidas pouco a pouco pela cliente, temos todos os materiais para descobrir o nome, profissão e uma foto de cada parente de sangue; também podemos ir atrás de seus cônjuges, mas essa parte é opcional.Assim como em Obra Dinn, base confessa de Roottrees — junto de Her Story, que empresta a dificuldade que o uso de um PC defasado fornece —, a força bruta é desencorajada pelo fato de que um parente só é confirmado quando adicionamos três entradas corretas à árvore genealógica. São ambas boas escolhas de design, que seguem servindo bem a um mistério deste tipo ao controlar o rumo da história.
O texto de cada nova informação, quando não é rico em detalhes, sempre acaba desembocando em alguma grande descoberta. Os mais propensos a gerar um “momento eureca” vêm com uma lupa ao lado, numerada de acordo com a quantidade de novas pistas que esta consegue gerar por si só; isso, contudo, só vale para a mídia física, não para páginas da Internet.
Um elemento de design importante para tanto é a ferramenta de destacar texto (que, por outro lado, pode acabar complicando um eventual porte para outra plataforma): assim como em qualquer documento de nossos computadores reais, podemos passar o mouse por uma palavra e procurá-la imediatamente no serviço de pesquisa SpiderSearch ou nos arquivos de jornais e revistas. O clássico atalho Ctrl+C/Ctrl+V também funciona, o que é bem intuitivo.
Outro aspecto que torna o game mais acessível e menos frustrante é o generoso sistema de dicas. Ao conversarmos com um patinho de borracha, podemos ser direcionados a certas provas, caso necessário. A ajuda começa em termos vagos (“você não viu um nome X no texto Y? Que tal procurar mais a respeito?”) e, conforme pedimos por mais detalhes, obtemos a resposta completa do enigma atual (“procure por X no local de pesquisa Z”). A experiência é bem customizável e amigável a iniciantes no gênero.O único ponto contra é que, nos “finalmentes” da investigação, algumas pistas podem ser bem inflexíveis, pois o jogo espera que estejamos pensando em certas coisas — às vezes, detalhes bem pequenos. Embora o patinho não deixe que esses obstáculos impeçam ninguém de concluir a história, a frustração por não ter pensado naquela coisa específica não vai embora.
Também vale a pena mencionar que o título conta com um sistema próprio de anotações, no qual podemos criar abas e digitar informações que julgamos importantes. Devo dizer que, da minha parte, preferi o meio analógico, com lápis e papel, o que não invalida o fato dessa função ser muito bem-vinda.
Eu também sou da família, também quero catucar
Finalizada a campanha principal, temos acesso ao DLC gratuito Roottreemania: quando o público descobriu que todo Roottree, não importa se nasceu fora do casamento, tem direito a uma parte do dinheiro da família por meio de um fundo fiduciário, possíveis herdeiros secretos começaram a aparecer de todo buraco (inclusive, um brasileiro). Mais uma vez, somos contratados para descobrir quem diz a verdade e quem está mentindo.
A diferença é que, aqui, precisamos confirmar o nome e sobrenome de todos os envolvidos separadamente (no jogo base, com a exceção de alguns xarás, descobrir um nome costuma tornar possível identificar alguém de imediato). Além disso, como uma grande parte da investigação é focada nos cinco affairs de um certo homem, também precisamos descobrir a ordem destes.Todas as observações feitas na última seção se aplicam a Roottreemania, porém um ponto em especial precisa ser destacado: a dificuldade é bem maior, bem como a necessidade de atenção a detalhes, conforme o próprio game destaca. Certa feita, quando eu estava completamente perdida, fiz o patinho de borracha entregar meu próximo passo de bandeja e acabei pensando: “OK, de que cartola é que eu tinha de ter tirado esse coelho?!”. No fim das contas, era de uma lista gigante de nomes. O processo esperado de mim fez sentido em retrospecto; o problema foi chegar lá.
Para fechar este segmento, um elogio final, que vale para ambas as metades: a arte original deste remake é de encher os olhos, feita em um estilo realista que evoca pintores estadunidenses da primeira metade do século XX, como Norman Rockwell e J.C. Leyendecker. Com certeza, faz muito mais pela atmosfera de época do que as imagens de IA da primeira build, o que também ajuda a provar que ainda vale muito a pena contratar artistas humanos.
Please come to Brazil
Tendo dito tudo isso, por qual motivo eu estou aqui, trazendo uma análise de um game do ano passado? Bem, é simples: em meados de março, a versão oficial em português do Brasil, trazida a nós por Isabela Pedrosa e Marcus V. Santos, foi lançada no Steam e trouxe os galhos tortos da árvore genealógica Roottree a uma audiência que entende muito bem de barraco em família.
O trabalho não envolve só a tradução do texto, mas a adaptação para que as dicas façam sentido na nossa língua: por exemplo, letras de música foram reescritas para rimar e algumas informações receberam mudanças para seguir servindo às mesmas funções originais, como podemos ver abaixo (falo em termos vagos em um esforço para não estragar a surpresa).
Como falante do inglês, quando recebo um jogo localizado, meu primeiro instinto é procurar por sinais claros de que uma tradução foi feita (expressões traduzidas muito literalmente, falsos cognatos como “to assume” virando “assumir”, construções gramaticais que quase não vemos no português, entre outras pequenas denúncias). Por aqui, nenhum exemplo óbvio vem à mente, o que indica um ótimo trabalho da dupla de responsáveis.O único problema relacionado à mudança de idioma que realmente encontrei foi que, às vezes (uma vez na campanha principal, várias em Roottreemania), alguns termos que eram obviamente importantes não geraram resultado algum no sistema de busca. Isso aconteceu porque o time esqueceu de programá-los em português, fazendo com que só os equivalentes em inglês pudessem fazer progredir a investigação. Somados a algumas poucas caixas de texto que ficaram na língua original (como o botão para alternar entre fotos disponíveis para alguns personagens), vale uma revisão extra.
“Todo mundo morreu!... E acabou!”
The Roottrees are Dead, assim como os gigantes à imagem dos quais se modela, é imperdível para os detetives aspirantes de plantão que buscam um bom mistério para desbravar. O título entrega uma experiência enxuta, amigável a pessoas de todos os níveis de habilidade, e agora também em português brasileiro.Prós
- Game design intuitivo, centrado no uso de um computador, já natural à audiência;
- Sistema de dicas robusto;
- Belíssima arte;
- O texto da localização para o português é excelente.
Contras
- As dicas mais para o final de ambas as campanhas são opacas demais;
- Falhas pontuais na implementação da localização, especialmente em Roottreemania.
The Roottrees are Dead — PC — Nota: 8.0
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pelo Evil Trout









