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Análise: Her Story (PC/iOS) e a autossatisfação do jogador

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A década de 1990 foi um período bem louco para o desenvolvimento de videogames. O game design enquanto teoria estava engatinhando e não se sabia bem até onde se queria/podia chegar. Em meio a um mar de ideias que ainda estavam sendo experimentadas, surgiram alguns loucos achando que seria boa ideia tornar o jogo realista usando FMVs (os full motion videos). O ponto é que a indústria não era do tamanho que tem atualmente e era difícil achar bons atores, roteiristas e equipamentos para fazer um trabalho de qualidade.

As pessoas que trabalhavam nesse tipo de produto eram oriundas dos B-movies, aquele pessoal que não consegue bons papéis e topa qualquer coisa. Curiosidade: uma das atrizes de Cruis'n USA (N64) era atriz pornô profissional em começo de carreira. No fim, o único jogo de sucesso usando FMV foi Pepsiman (PS1) (e isso não está aberto a discussões).
Segundo melhor jogo da história com FMs. Até este ano, era o primeiro
Vinte anos depois, em meio a uma indústria mais madura, surge uma geração de pessoas influenciadas pelas ideias fracassadas da época, ou até ideias que se perderam no tempo. No caso dos FMVs, surgiu Roundabout (Multi), que usa o recurso como piada de si mesmo. O novo Guitar Hero também vai trazer FMVs de volta, aparentemente (pelo menos ao meu ver), em tom de humor também.

Her Story não está neste grupo. Ele é um trabalho independente de Sam Barlow (que trabalhou em Silent Hill: Shattered Memories (Multi), e está na ativa desde 1999) e sua proposta não é fazer humor com uma coletânea de vídeos. Na verdade, o objetivo aqui é contar uma história de uma forma original.

O que é Her Story

Her Story começa com uma tela de computador antiga e um software com alguns vídeos e a palavra “MURDER” em um buscador. Você clica em buscar e alguns vídeos aparecem para você, com o depoimento de uma mulher em vários momentos. Todos os vídeos encontrados contêm a palavra “MURDER” em seu texto, deixando claro que a busca acima trará videos com a palavra buscada.
Embora as reclamações afirmando que Her Story não é um jogo tenham surgido desde o começo, o fato é que seu game design é brilhante. A estética ambientativa da reflexão da tela dá realismo à trama. À medida em que você vai descobrindo pontos relevantes da história, a trilha sonora te indica que você está no caminho certo. A própria tela inicial orientando os jogadores da forma correta de utilizar o terminal é uma prática que nos ensina como jogar sem precisar de tutoriais explícitos, algo que certamente estragaria a experiência se fosse executada de forma parcial.

É difícil falar da história de Her Story sem entrar em spoilers que estragariam a experiência do leitor, então vou me reservar à liberdade de não falar sobre ela, limitando-me aqui ao brilhantismo com a qual ela é contada e o impacto que ela causou na Internet. Procurar palavras óbvias que acabariam com a trama vai resultar provavelmente em uma piada na qual o sentido da palavra procurada é diferente do que você esperava, ou simplesmente não vai te levar a nada. A própria história não tem uma resposta final direta sobre o que está acontecendo e, por causa disso, ela resultou em centenas de fóruns dedicados a discutir o que de fato é a história dela.

O impacto disso tudo não seria imenso sem a brilhante atuação de Viva Seifert. Se na década de 1990 não havia acesso a atores e material de qualidade, este não é o caso aqui. O jogo certamente não teria o mesmo resultado sem uma atriz de qualidade e uma direção cinematográfica de peso. Mais uma vez, reservo-me aqui o direito de não dar exemplos, porque todos eles podem revelar a história contada.

“E quando eu estou satisfeito?”

Esta pergunta, em uma tradução livre, é o título de uma das threads mais comentadas no Reddit. Em determinado momento, alguém te pergunta se você já acabou de ver o que queria, e o jogo termina quando você responde que sim. Entretanto, a pergunta não aparece necessariamente no momento em que você está satisfeito com o que viu, e mesmo que ela apareça, isso não significa que você de fato está contente com tudo que viu. Mesmo que você veja todos os vídeos, você pode não terminar satisfeito. Inclusive, pare para pensar por um instante: faz sentido um jogo te dizer quando você está satisfeito dele? Satisfação é algo tão pessoal que, fora do ambiente comentado, a pergunta do subtítulo não faria sentido.

E é por isso que eu amei Her Story. Ele traz ao universo dos videogames uma quebra de paradigmas inovadora, na qual o jogo termina apenas ao sentirmos que estamos satisfeitos com o quanto evoluímos. Sem querer abrir mão das experiências lineares que amo, como Mega Man, espero que novos jogos sejam influenciados pela proposta que Her Story trouxe para o nosso cenário. Inclusive, eu ainda estou nos fóruns da Internet porque não estou satisfeito com o término, quero ler e debater sobre o jogo, e conhecer suas teorias, sentimento que apenas Lost e Hotline Miami 2 (Multi) tiveram comigo recentemente.

Além disso, é um daqueles jogos que provam que uma boa história não necessariamente seria melhor contada por um filme. A interação e a ludonarrativa são fatores fundamentais para a plena experiência de Her Story. É o tipo de entretenimento que dá certo apenas porque é um jogo, e isso me deixa muito feliz. É um dos melhores jogos de 2015 e, torço eu, para que seja bastante influente nos próximos anos.

Prós

  • Atuação e direção cinematográfica de qualidade;
  • Bom uso de FMV;
  • Game design inteligente;
  • História que gera buzz.

Contras

  • Procure no buscador do jogo que talvez ele te responda. Eu não.

Her Story —  PC/iOS — Nota: 9.0

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Felipe Araujo


Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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