Uma coincidência curiosa entre as principais franquias japonesas de terror é que elas parecem consolidar sua forma mais emblemática sempre no segundo jogo. Isso aconteceu tanto com Resident Evil 2 quanto Silent Hill 2, que, recentemente, receberam remakes completos a fim de revitalizar a experiência original. Agora, chegou a vez de Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake. Desenvolvido pelo Team Ninja da Koei Tecmo, trata-se da segunda recriação do título — a primeira foi lançada em 2010 nos consoles Wii do Japão e da Europa — e, embora se mostre como um título competente, a produção infelizmente não consegue alcançar o mesmo patamar dos remakes de seus pares.
Um conto sobre duas irmãs
Enquanto Silent Hill segue por um caminho mais psicológico e Resident Evil abraça um survival horror de viés biológico, Fatal Frame se destaca como um representante legítimo da relação japonesa com sua mitologia espiritual. Assim, a premissa da série parte da utilização da Camera Obscura, uma espécie de câmera fotográfica capaz de não apenas capturar a imagem de espíritos e fantasmas, como também exorcizá-los, caso se mostrem hostis.
Assim, Fatal Frame II: Crimson Butterfly acompanha as irmãs gêmeas Mio Amakura e Mayu Amakura, que acabam se perdendo em uma floresta e, guiadas por uma borboleta misteriosa, acabam adentrando uma vila abandonada escondida nas montanhas. O local, que atende pelo nome de Minakami, parece um povoado abandonado e preso no tempo em que os seus antigos habitantes vagam por suas ruelas e construções em ruínas na forma de espíritos.
Através de diários e outros documentos espalhados, a dupla descobre que aquele lugar foi palco de um ritual conhecido como o Sacrifício Carmesim, que envolvia o portal para o além e era conduzido, no passado, com o objetivo de evitar a consolidação de um grande mal.
Enquanto vagam pelo local, as gêmeas se mostram suscetíveis a certas influências que as tornam erráticas, especialmente Mayu, que, por vezes, assume a dianteira como se estivesse sendo chamada para algum lugar, se afastando da irmã, que vai estar constantemente em seu encalço durante esse pesadelo.
Considerando que essa relação fraternal é bastante importante para o próprio ritual e, por consequência, para o enredo do game, o remake deu bastante atenção à maneira com que elas podem interagir, sendo que o jogador ganhou um comando que permite que uma segure a mão da outra e, com isso, consiga recuperar sua força de vontade, representado por um medidor secundário que coexiste com o de vida e pode ser utilizado em ataques especiais durante o combate.
Em contrapartida, caso ele fique zerado, Mio, a principal personagem controlada pelo jogador, cai no chão fica impossibilitada de se mexer até que uma fotografia seja bem tirada do espírito a atacando e, com isso, consiga reestabelecer seu medidor de força de vontade.
Considerando que o maior atributo de Fatal Frame II: Crimson Butterfly era a exploração pelo vilarejo Minakami e a atmosfera sobrenatural que aquele lugar exala, o remake fez um trabalho muito bom na reconstrução de todos os ambientes daquele lugar, inclusive adicionando algumas novidades, como as duplas de bonecas gêmeas pontualmente escondidas e que precisam ser fotografadas em conjunto, em um único quadro, para render pontos espirituais adicionais que podem ser trocados nas lamparinas de save.
Essas estações, além de permitirem o salvamento automático do progresso, também contam com uma espécie de lojinha em que é possível comprar amuletos que, quando equipados, concedem certas vantagens para Mayu, bem como itens de cura e filtros para o modo fotografia que chegou a ser incluído no remake. Ironicamente, trata-se de um recurso consideravelmente limitado. Mesmo com esses filtros visuais desbloqueáveis, ele parece bastante sucinto perto de outras opções no mercado.
Isso é uma pena porque, enquanto Minakami é toda arquitetada no intuito de afligir o jogador, há alguns locais bem bonitos de se vislumbrar e com certeza são bem instagramáveis, considerando que essa acaba sendo a finalidade primária desse recurso nos videogames.
Graficamente, é interessante também como o remake de Fatal Frame não investiu muito pesado nesse aspecto, uma vez que a geração anterior seria capaz de reproduzi-los de uma forma plena e sem muitas perdas de qualidade. Só não dá para afirmar com toda a certeza que as versões de PlayStation 4 ou Xbox One poderiam reproduzir o jogo sem problema devido à discrepância de processamento. Nesse aspecto, o remake roda muito melhor do que o port de Maiden of Black Water, por exemplo.
Mais do que rodar, é bacana ver o nível de detalhe do Team Ninja durante essa reconstrução das ruínas de Minakami, já que há vários pequenos detalhes que acabam fazendo a diferença para tornar aqueles locais críveis, como folhas voando nos ambientes abertos, livros que caem das estantes quando as garotas passam por eles e esse tipo de coisa.
É um trabalho muito eficaz de construção atmosférica que, por vezes, até faz com que o jogador se distraia do objetivo para ficar prestando atenção nas minúcias — algo que deve até fazer parte já da lógica de design do título, uma vez que ficar muito tempo em um único ambiente é um dos gatilhos para fazer com que algum espírito hostil apareça diante as heroínas.
Por fim, é importante ressaltar que o progresso pode render finais distintos para a trama, sendo que, o remake, embora tenha deixado de fora as conclusões presentes na versão de Wii (e o esquecível modo "mansão assombrada"), ainda trouxe um novo desfecho exclusivo, mas nada realmente substancial.
Um verdadeiro remake, mas com sabor leve de port
Quando tive a oportunidade de jogar a remasterização de Fatal Frame: Maiden of the Black Water, uma das ponderações que fiz foi que uma eventual aceitação positiva poderia levar a novos ports — algo que aconteceu com Fatal Frame: Mask of the Lunar Eclipse — ou, “quem sabe, verdadeiros remakes que se aproveitem da capacidade tecnológica das plataformas modernas”.
Enfim, chegamos, então, a Crimson Butterfly Remake, que conseguiu encontrar um meio termo bem confortável entre a revitalização da experiência e a fidelidade ao original, no sentido de que oferece em uma experiência que chega a ser fiel a ponto de continuar bem familiar aos veteranos, que vão conseguir se situar dentro do conhecimento prévio que já tinham do título, porém algumas diferenças pontuais são capazes de trazer uma percepção de novidade ao conjunto.
Na prática, isso significa aplicar vários dos modelos de gameplay dos últimos títulos — sendo que o último inédito tem mais de dez anos — à estrutura do segundo Fatal Frame. A questão da câmera, por exemplo, é um deles, já que há o abandono da câmera fixa em prol de uma perspectiva que acompanha as personagens em tela e ainda permite o ajuste de ângulo por parte do jogador.
Outra adição ao remake foi o esforço dos desenvolvedores em transformar a Camera Obscura em um verdadeiro aparato fotográfico, sendo que, depois de alguns upgrades, nem todos realmente úteis, é possível manejar o equipamento com maior precisão e ao gosto da audiência, como é o caso do foco manual, zoom, etc.
Os filtros, inclusive, assumem um papel importante também nos quebra-cabeças, já que cada um conta com uma função diferente. O Paraceptual, por exemplo, é capaz de identificar registros espirituais que indicam o caminho a ser seguido. O filtro de Exposição, por sua vez, revela elementos ocultos no cenário, enquanto o Radiante é capaz de exorcizar mobília e passagens bloqueadas que estão carregadas de forças sobrenaturais negativas.
Esses filtros também têm seu valor nos combates e trazem alguns atributos especiais. Com a utilização de certa quantidade de força de vontade, essas lentes não gastam filme e colaboram com ataques especiais capazes de atordoar o inimigo ou de efetuar potentes disparos carregados.
Em contrapartida, as adições do zoom e do foco manual, apesar de apresentarem suas utilidades, não parecem tão importantes ou cruciais de se dominar quanto os filtros. O zoom aumenta drasticamente o alcance da Câmera e permite investidas à longa distância que normalmente não seriam possíveis sem os upgrades. A questão é que boa parte do jogo se dá em ambientes fechados, o que faz com que esse tipo de ataque sorrateiro não seja tão essencial assim.
O foco manual, por sua vez, permite um domínio maior nesse atributo do equipamento, já que quando os fantasmas estão nítidos, o dano provocado é maior. No entanto, considerando o quão minucioso é esse tipo de ajuste, no calor do momento, acaba sendo mais proveitoso confiar no serviço da sua versão automática que já vem inclusa e não exige nenhum upgrade para funcionar.
Mesmo com todas essas adições, o combate, embora conte com seu dinamismo, é carregado de problemas. O maior deles envolve a forma com que, dadas algumas condições bem fáceis de ocorrer, o espírito pode entrar em uma espécie de torpor. Nesse estado, o desafio aumenta consideravelmente não por tornar seus ataques e movimentações mais complexos, mas por aumentar sua defesa e fazê-lo recuperar vida, transformando-os apenas em esponjas de dano.
Na prática, é só uma chatice adicional para lidar em um sistema que, por vezes, acaba se mostrando bem mais repetitivo e enfadonho do que deveria. Aos poucos, o jogador vai ganhando alguns novos recursos capazes de contornar esse problema, porém não muda o fato de que isso não aumenta o desafio de uma forma que pareça orgânica e empolgante — ou afligente, considerando a natureza de uma produção de horror como os Fatal Frame —, só é tedioso e cansativo.
Para complementar, a movimentação é truncadíssima, como qualquer título de terror que se preze, mas completamente intencional no ato de limitar as ações do próprio jogador como uma forma de incitar o medo através desse atributo. Qualquer pessoa que tenha jogado Silent Hill F e teve a audácia de chamar o combate de frustrante ou travado não aguentaria cinco minutos de Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake.
Essas inclusões todas, apesar de colaborarem com a experiência geral do game, são quase todas reproduzidas, de alguma forma, dos últimos lançamentos supracitados da série. É claro que Maiden of the Black Water e Mask of the Lunar Eclipse são evoluções naturais do Crimson Butterfly original, no entanto, é impossível não pensar que esses dois títulos ainda são produtos de mais de uma década atrás e que, por mais que este remake conte com esse desenvolvimento, o esperado era que ele ainda aprimorasse esses elementos que já eram conhecidos desde os idos de 2010.
Não são questões capitais, que prejudiquem o pacote geral do novo (velho) título, contudo, ainda é um atestado de que jogaram bastante seguro durante a sua produção, sem se arriscar com ideias ou mudanças mais ousadas do que a adição de alguns dos finais. Eles só trabalharam em cima de onde há margem clara para mudança ou melhorias, porém sem necessariamente abrir espaço para realmente dar um passo à frente na série como um todo e nos permitir vislumbrar as possibilidades de um título realmente inédito.
Bonita borboleta, mas poderia ter alcançado voos mais altos
Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake é uma reconstrução bastante eficiente de um clássico. Jogando seguro na sua abordagem, trata-se de uma produção bastante competente e que realmente consegue ser convidativa tanto para novatos que estão conhecendo a marca pela primeira vez — e, aí, terão acesso logo de cara ao mais emblemático de seus títulos — quanto para os jogadores veteranos que se sentirão tranquilos por ver que Minakami não mudou muito desde a sua última estadia, apesar de haver elementos inéditos o suficiente para fazê-los se sentir imerso como se fosse uma experiência quase nova.
Reforça-se que ele não chega a ser um remake completamente disruptivo como os de Silent Hill 2 e os de Resident Evil — muito porque o peso dessas duas no imaginário supera muito o de Fatal Frame —, no entanto, é uma iniciativa bem-vinda cuja execução, embora não seja sublime, ainda se mostrou bem competente. Agora, basta ver se esse desempenho vai ser suficiente para conseguir fazer com que a franquia consiga justificar a produção de um jogo inédito, né?
Prós
- Reconstrução atmosférica de Minakami muito bem executada;
- Ambientes detalhados, com pequenos elementos dinâmicos que reforçam a imersão;
- Atmosfera sobrenatural forte, mantendo a identidade da série;
- Fidelidade ao jogo original, mantendo estrutura e narrativa familiares para veteranos;
- Novas mecânicas e pequenas inclusões em relação ao original trazem sentimento de frescor para o remake.
Contras
- Remake conservador, sem grandes inovações ou avanços significativos para a série;
- Combate tedioso, com inimigos que se transformam em esponjas de dano quando entram em torpor;
- Alguns upgrades da câmera obscura pouco úteis, como zoom e foco manual em muitas situações;
- Movimentação propositalmente truncada, o que pode gerar frustração em certos momentos.
Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake — PC/PS5/XSX/Switch 2 — Nota: 7.5Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Análise produzida com cópia digital cedida pela Koei Tecmo
Revisão: Thomaz Farias

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