Assassin's Creed: uma aula de ficção histórica e turismo virtual parte 2 - O Renascimento Italiano

Acompanhe a ascensão de Ezio Auditore e descubra como o segundo título da franquia aperfeiçoou tudo na fórmula da ficção histórica.

em 15/02/2026
Se em 2007 a Ubisoft apresentou um game audacioso como vimos na parte 1 de nossa viagem pela saga Assassin’s Creed, em 2009 ela entregou uma obra-prima. Assassin's Creed II foi uma resposta direta a todas as críticas do primeiro título. O diretor Patrice Désilets entendeu que, para o público se importar com a história, ele precisava primeiro se importar com o homem que a viveria.


A saga de Desmond continua

Após os eventos do primeiro game, no presente a urgência aumenta. Agora como prisioneiro, Desmond Miles, com a ajuda de Lucy Stillman, escapa da Abstergo para se juntar a uma célula moderna de assassinos. 

A introdução do Animus 2.0 traz uma nova camada narrativa brilhante: o Efeito Sangramento (Bleeding Effect) agora serve como treinamento, com Desmond absorvendo as habilidades de seus ancestrais. Através dessa nova ferramenta, o jogador sente que cada evolução de Ezio é uma para Desmond no presente. O objetivo no presente passa a ser criar um assassino moderno em tempo recorde para impedir o fim do mundo.

O impacto visual: cores e mármore

Inicialmente, a transição visual é o primeiro grande choque para quem vem do jogo anterior. A Ubisoft abandonou os filtros monocromáticos (azul, dourado e cinza) em favor de uma paleta vibrante que reflete o otimismo artístico do século XV.

Florença: a cidade é representada em tons terrosos e quentes. O jogador pode ainda contemplar a imponência da Catedral de Santa Maria del Fiore e o belíssimo Palazzo Medici. Diferente de Masyaf, a exploração agora é vertical, densa e projetada para valorizar o exibicionismo arquitetônico das famílias nobres.

Veneza: a cidade muda totalmente a percepção do público: o parkour agora passa por canais, gôndolas e pontes. Visitar a Basílica de São Marcos, atravessar o Grande Canal e o Palácio Ducal transformam o game em um verdadeiro catálogo de viagem.
 

O povo como cenário ativo

A multidão passou de obstáculo para grupos com os quais o jogador pode interagir — contratando cortesãs para distrair guardas ou ladrões para criar tumultos. A vida cotidiana agora tem classes sociais claras, e o "homem comum" está vivendo a efervescência de uma era de descobertas.

A Interação com o Mundo

Se Altair era uma lâmina solitária, Ezio é praticamente um exército de um homem só, equipado com o que havia de mais avançado (e secreto) no século XV. Para interagir com o mundo, ele conta com um amplo sistema de recursos e invenções, tornando-se um versátil predador urbano em constante evolução.

A maior sacada histórica da Ubisoft nesta sequência certamente foi a amizade entre Ezio e um jovem Leonardo da Vinci. O inventor funciona como o engenheiro e suporte técnico dos assassinos. Realizando a decodificação e tradução do Codex de Altair — recuperado por Ezio ao longo do título —, ele revela diagramas antigos e tecnologias revolucionárias.

O parkour se adapta: em Florença e Veneza, a verticalidade dos cenários ganha mais agilidade com a arquitetura entregando mais pontos de escalada. Ezio aprende o pulo com impulso, permitindo escalar locais antes impossíveis para Altair. O cenário, agora com o uso de gôndolas em Veneza e as vigas decorativas das catedrais, mostra que o assassino tem total domínio do ambiente, transformando a cidade em sua maior aliada.

Instinto de sobrevivência: a Visão de Águia de Ezio é mais refinada. Enquanto para Altair era um instinto predatório, para Ezio a Visão de Águia é a ferramenta de um detetive. Ela permite rastrear alvos e identificar pistas ocultas misteriosamente deixadas nas fachadas dos monumentos.

O arsenal da Renascença: a Lâmina Oculta é melhorada por Da Vinci e não exige mais o sacrifício do dedo anelar — mesmo que Ezio prontamente estivesse disposto a fazê-lo. Melhorias que se expandem para a Lâmina Dupla, permitindo execuções simultâneas, envenenamento de alvos e a Pistola Oculta, que marca o fim da era das espadas. Com o auxílio do inventor, Ezio consegue se adaptar a um mundo onde a tecnologia começa a superar a força bruta, como seria visto na sequência, Assassin’s Creed: Brotherhood.

Stealth social: assim como as demais mecânicas, o disfarce de erudito de Altair também é ampliado. Com um traje, à primeira vista, mais espalhafatoso — é bem verdade —, Ezio consegue se misturar à nobreza, contrata cortesãs para seduzir e distrair guardas, ladrões para criar o caos nas ruas e mercenários para apoio quando o combate é inevitável. Se Altair passava despercebido por parecer inofensivo, Ezio passa despercebido porque sabe como fazer o mundo olhar para o lado oposto.

O Salto da Fé: o símbolo de lealdade ao Credo ganha uma nova dimensão com as invenções de Leonardo. O ponto alto da interação com o brilhante inventor é o uso de uma de suas mais impressionantes invenções reais. Baseado nos estudos de Da Vinci sobre o voo dos pássaros, a missão em Veneza em que utilizamos uma versão funcional de seu ornitóptero (máquina voadora), impulsionada por vapor para alcançar voo, entrega um dos momentos mais memoráveis de toda a franquia.

A economia e Monteriggioni

Pela primeira vez, o dinheiro (Florim) passa a ter importância e agora o jogador passa a integrar a sociedade de forma ativa. Ao assumir o controle de Monteriggioni, é introduzido um sistema de gerenciamento no qual enquanto Ezio serve narrativamente para recuperar a cidade, investindo na reforma de bancos, ferrarias, artesãos e igrejas, o sistema serve como mecânica para melhorar equipamentos e reformar a base da irmandade.

Podendo comprar novas armaduras, tingir as roupas e colecionar quadros de mestres como Botticelli para refletir a busca pela excelência e a exibição de status através da arte e do poder financeiro do espírito renascentista.

O combate de um mestre em construção

Diferente da postura defensiva e técnica de Altaïr em 1191, o combate em AC2 é sobre oportunismo. Ezio pode desarmar inimigos e usar suas próprias armas contra eles, lançar areia nos olhos ou usar bombas de fumaça para desaparecer. Ele se movimenta mais, é mais agressivo e, eventualmente, menos discreto. A brutalidade das Cruzadas deu lugar à elegância da esgrima italiana.

O Contexto Geopolítico

Enquanto na Terra Santa o conflito era entre exércitos e religiões, na Itália o tabuleiro é movido por famílias. O jogador se vê no centro de uma rede de conspirações onde a linha entre política e crime é inexistente.

O game recria com fidelidade a Conspiração dos Pazzi (1478). O ataque brutal na Catedral de Florença durante a missa de Páscoa é um evento histórico ambientado com maestria no game para integrar-se à narrativa, e é o ponto de virada em que Ezio percebe que os Templários buscam o controle das cidades-estado europeias através do caos civil, causado por eles para que surjam depois como os grandes salvadores.

Aqui ainda temos algo que falta atualmente na franquia e quase na indústria como um todo: o grande antagonista não é um mestre militar, mas o homem que se tornaria o Papa Alexandre VI, até então conhecido apenas como "O Espanhol" Rodrigo Borgia.  A presença da família Borgia traz o tema da corrupção religiosa ao ápice. No jogo, a Igreja Católica é mostrada como uma fachada para o poder Templário, transformando Roma no centro de uma guerra por influência espiritual e política.

Os alvos de Ezio

A jornada de Ezio é pontuada por nomes que a história real registrou com infâmia. A lista, que começa apenas como retaliação, se desdobra durante tumultos reais que abalaram a Itália.

Ato I: A Traição em Florença

Uberto Alberti:

No jogo: o "amigo" da família que condena o pai e os irmãos de Ezio à forca para proteger sua própria posição. Sua morte é o batismo de sangue de Ezio. 
Na história: baseado em Alberto degli Alberti. O personagem representa os magistrados florentinos que mudaram de lado durante as tensões entre os Médici e seus rivais, servindo como o rosto da traição.

Vieri de' Pazzi:

No jogo: o jovem nobre arrogante que personifica a rivalidade das famílias Auditore e Pazzi e, posteriormente, Pazzi e Medici. Morreu pelas mãos de Ezio em San Gimignano. 
Na história: membro da poderosa família Pazzi. Sua morte no jogo reflete a queda de sua linhagem após o fracasso de suas conspirações contra os Médici.

Ato II: A conspiração dos Pazzi

Este é o momento em que a fidelidade histórica alcança seu ápice: o plano para assassinar Lorenzo de' Medici em plena missa de Páscoa ocorreu exatamente como mostrado.

Francesco de' Pazzi:

No jogo: após o ataque na Catedral falhar, Francesco é caçado por Ezio e pendurado nas janelas do Palazzo Vecchio como mensagem de libertação para o povo e de destino para seus inimigos. 
Na história: em 26 de abril de 1478, Francesco realmente atacou Giuliano de' Medici. Após o fracasso da conspiração, a multidão furiosa o capturou e ele foi realmente enforcado na fachada do Palazzo Vecchio.

Bernardo Baroncelli e Stefano da Bagnone: 

No jogo: alvos que Ezio caça em vilas e mercados. 
Na história: foram conspiradores reais. Baroncelli fugiu para Constantinopla, Porém foi extraditado e executado em Florença. Bagnone era um padre envolvido no atentado.

Ato III: o domínio de Veneza e o punho de roma

Emilio Barbarigo: 
No jogo: o mercador que controla o comércio de Veneza através do medo. Sua morte liberta o distrito mercantil para os aliados de Ezio. 
Na história: a família Barbarigo foi uma das mais influentes de Veneza.

Rodrigo Borgia: 

No jogo: o Grão-Mestre Templário que Ezio caça há décadas. O confronto final ocorreu dentro do Vaticano, em uma luta mano a mano com Rodrigo já como Papa Alexandre VI. 
Na História: Rodrigo Borgia tornou-se o Papa em 1492. A obra é brilhante ao não matá-lo no final de AC II, respeitando o fato de que Rodrigo morreu apenas em 1503.

Além da lista

Nem todos os alvos de Ezio eram templários. Muitas vezes, o assassino precisou intervir em figuras que a história real registrou por motivos muito mais complexos do que uma simples conspiração.

Girolamo Savonarola:

No jogo: Um monge fanático que aproveita o vácuo de poder em Florença para controlar a mente da população usando a Maçã do Éden. Sua morte é um ato de misericórdia de Ezio para poupá-lo de morrer queimado pela população revoltada. 
Na história: Foi o líder político de Florença entre 1494 e 1498, conhecido por queimar obras de arte e livros. Ele foi realmente excomungado e executado em praça pública, exatamente no local e data mostrados no jogo.

Ludovico e Checco Orsi:

No jogo: Mercenários contratados para sitiar a cidade de Forlì e sequestrar os filhos de Catarina Sforza. São a face pragmática e brutal da guerra por contrato.
Na história: Foram conspiradores reais que assassinaram o marido de Catarina Sforza, Girolamo Riario. A Ubisoft utiliza a ferocidade de Catarina e o braço de Ezio para dar um fim definitivo aos irmãos que aterrorizaram a região da Romanha.

Marco Barbarigo:

No jogo: O Doge de Veneza que serve de alvo para a primeira demonstração pública da Pistola Oculta de Ezio durante o Carnaval.
Na história: Foi o 73º Doge de Veneza, governando por apenas nove meses até sua morte súbita em 1486. O jogo preenche esse curto mandato com a narrativa de que sua ascensão foi um golpe templário interrompido.

O legado de Ezio

Diferente de Altaïr, Ezio não termina o jogo com todas as respostas, mas com uma revelação que amplia a escala tanto da narrativa quanto do alcance do Credo até então. Ao entrar na Cripta do Vaticano, o título deixa de ser uma ficção histórica sobre a Itália para se tornar um épico sobre a origem da humanidade.

A mensagem de Minerva para Ezio revela-se ser, na verdade, através dele para Desmond. A partir dali, Ezio aceita seu papel como aquele que carrega a mensagem sem entendê-la completamente. Essa humildade filosófica marca a transição de um homem movido pelo ódio para um mentor preocupado com o futuro.

O legado de Assassin's Creed II foi provar que o turismo virtual podia ser profundo, emocional e mecanicamente rico. Ezio viveu o Renascimento e permitiu que nós o vivêssemos também.

De vingador a mentor

Ao final de 1499, Ezio Auditore já não é mais o jovem que buscava apenas o sangue daqueles que traíram seu pai. Ele se tornou o Profeta, o elo entre o passado ancestral e o futuro de Desmond. Mas a guerra estava longe de terminar. A queda de Rodrigo Borgia em Roma foi apenas o primeiro dominó; a família Borgia ainda tinha garras profundas na Itália, lideradas pelo implacável Cesare Borgia.
O próximo capítulo: Roma e a Ascensão da Irmandade. Deixaremos as vilas da Toscana para trás rumo à Cidade Eterna. Na próxima parte da nossa série, veremos como a Ubisoft elevou a escala do jogo em Assassin’s Creed: Brotherhood. Nos encontramos na parte 3: a Roma renascentista.


Revisão: Thomaz Farias
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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