Nascido em 8 de outubro de 1970, Tetsuya Nomura é hoje uma das figuras mais marcantes do desenvolvimento de jogos japoneses. Seu talento como designer ganhou projeção mundial a partir de trabalhos em títulos como Final Fantasy VII e Final Fantasy X, além de ser o principal responsável pela criação da série Kingdom Hearts. Conhecido por seu estilo ousado, visual marcante e personagens de traços inconfundíveis, Nomura conquistou espaço e relevância ao longo de décadas, e sua trajetória ajuda a entender parte importante da evolução estética da Square Enix e da própria indústria.
Desenhando
Antes de se alçar diretor e produtor, Tetsuya Nomura construiu sua reputação dentro da Square como designer de personagens. Seu primeiro grande destaque veio em Final Fantasy VII, no qual foi responsável pelos visuais de protagonistas como Cloud Strife, Tifa Lockhart e Sephiroth. O traço anguloso, os cabelos estilizados e o uso marcante de acessórios e silhuetas fortes ajudaram a definir uma identidade visual que se tornaria referência não apenas para a franquia, mas para o RPG japonês como um todo.
Em Final Fantasy VIII, Nomura refinou ainda mais sua abordagem, apostando em um visual mais contemporâneo e realista para Squall Leonhart e o restante do elenco. Já em Final Fantasy X, seu trabalho apresentou um equilíbrio entre fantasia e elementos tribais futuristas, visível principalmente no figurino de Tidus e Yuna. Essa capacidade de misturar influências modernas com estética fantástica se tornou uma de suas principais assinaturas.
Foi, no entanto, com Kingdom Hearts que seu estilo atingiu um novo patamar de reconhecimento. Ao unir personagens originais com ícones da Disney e da própria Square, Nomura precisou adaptar seu design para dialogar com universos distintos sem perder identidade. O resultado foi uma direção visual coesa, com Sora se tornando um dos protagonistas mais reconhecíveis dos anos 2000.
Ao longo dos anos, seu trabalho também marcou títulos como The World Ends With You, Crisis Core: Final Fantasy VII e contribuições em Parasite Eve. Em todos eles, é possível perceber a mesma preocupação com silhuetas fortes, contrastes visuais e personagens que comunicam personalidade antes mesmo da primeira linha de diálogo, uma característica que consolidou Nomura como um dos designers mais influentes da Square Enix.
Projetando
No início dos anos 2000, Tetsuya Nomura deu um passo decisivo ao assumir um papel mais ativo na concepção de projetos dentro da Square. A ideia que daria origem a Kingdom Hearts nasceu de uma conversa improvável sobre a possibilidade de unir personagens da Disney a elementos de Final Fantasy. Nomura enxergou ali a oportunidade de criar algo que fosse além de um crossover comercial: um universo próprio, com mitologia, temas existenciais e um protagonista original capaz de sustentar a narrativa ao longo dos anos.
Como diretor, ele projetou não apenas personagens, mas toda a estrutura emocional da série. Sora, Riku e Kairi foram concebidos para representar amizade, identidade e perda, temas que viriam a ser centrais na franquia. A mistura entre mundos clássicos da Disney e figuras como Cloud e Sephiroth exigiu equilíbrio criativo, e foi justamente essa capacidade de harmonizar universos distintos que consolidou Nomura como um idealizador ambicioso, disposto a arriscar.
Essa ambição, no entanto, também marcou um dos capítulos mais delicados de sua carreira: Final Fantasy Versus XIII. Anunciado como uma produção mais sombrio e maduro dentro da Fabula Nova Crystallis, o jogo refletia uma visão mais introspectiva e cinematográfica do diretor. Durante anos, trailers e conceitos apresentaram um mundo denso, urbano e trágico, despertando enorme expectativa entre os fãs.
Com o passar do tempo, problemas de desenvolvimento e mudanças internas na empresa culminaram na reformulação do projeto, que acabou se transformando em Final Fantasy XV sob outra direção. Embora elementos da ideia original tenham sobrevivido, a transição simbolizou a perda de um projeto que carregava fortemente a identidade criativa de Nomura. Entre o sucesso duradouro de Kingdom Hearts e a frustração de um sonho não concluído como idealizado, “projetando” representa justamente essa dualidade: a coragem de imaginar grande, mesmo quando o resultado não segue exatamente o plano inicial.
Dirigindo
Ao assumir a direção de Final Fantasy VII Remake, Tetsuya Nomura voltou ao universo que ajudou a definir nos anos 1990, porém agora com a responsabilidade de reinterpretá-lo para uma nova geração. O jogo não se limitou a atualizar gráficos: a narrativa foi expandida, personagens ganharam novas camadas emocionais e a estrutura clássica foi reorganizada em capítulos. A proposta ousada dividiu opiniões, contudo, reforçou uma característica recorrente em sua carreira, a disposição de observar o passado e entrar em contato com ele.
A continuidade em Final Fantasy VII Rebirth consolidou essa visão mais ambiciosa. A história passou a explorar linhas temporais, destino e metanarrativa de forma mais explícita, ampliando o escopo da trilogia. Apesar de compartilhar a direção com outros nomes da equipe, a marca estilística de Nomura permanece perceptível nas decisões dramáticas e na forma como os personagens são conduzidos em momentos-chave.
Paralelamente, ele também esteve envolvido em Kingdom Hearts III, um projeto aguardado por mais de uma década. Conciliar duas produções de grande porte exigiu divisão de responsabilidades e coordenação criativa, algo que evidencia sua posição dentro da Square Enix não apenas como criador, mas como figura central em franquias estratégicas. Kingdom Hearts III encerrou um arco narrativo importante, ao mesmo tempo em que deixou portas abertas para o futuro.
Agora, com Kingdom Hearts IV em desenvolvimento, mesmo após a entrada de uma nova roteirista na equipe, Nomura segue supervisionando os rumos da série, enquanto a conclusão do projeto de Final Fantasy VII avança em paralelo. Dividido entre universos que ajudou a construir e reconstruir, essa é a fase em que sua atuação vai além da criação estética: trata-se de coordenar equipes, sustentar visões de longo prazo e manter coesas duas das franquias mais importantes da empresa.
Revisão: Thomaz Farias

