Análise: Crisol: Theater of Idols é um chuvoso e perturbador ar fresco para o gênero de ação e terror em primeira pessoa

Mergulhando no folclore e iconografia da Semana Santa espanhola, Crisol chega para se firmar como uma das grandes surpresas do ano.

em 10/02/2026
O estreante Vermilla Studios entrega um FPS single-player focado em narrativa, exploração e resolução de puzzles, com campanha que gira em torno de 15 horas. A experiência é totalmente offline e aposta em progressão linear com exploração opcional, priorizando atmosfera e tensão constante em vez de sistemas competitivos ou cooperativos.


Fazendo jus ao gênero

Fortemente inspirado em colossos como BioShock, Dishonored e Resident Evil, Crisol: Theater of Idols consegue se estabelecer como uma das joias do ano, destacando-se por sua narrativa, design e criatividade, tendo executado corretamente tudo o que suas referências têm de bom.

Para onde foi todo mundo? Bingo?

Ao abrirmos os olhos com o protagonista Gabriel em Tormentosa, o silêncio de uma ilha povoada apenas por carroças abandonadas e carcaças de animais imediatamente levanta o questionamento: “Onde está todo mundo?”. A resposta vem instantes depois com a revelação de nossos inimigos que nos perturbarão durante toda a campanha: as estátuas vivas. 

A coesão visual é o ponto forte aqui; a iconografia e a arquitetura religiosa estão em perfeita harmonia. Diferente dos grandes títulos recentes que acabam perdendo o foco, Crisol usa a divisão por distritos de forma inteligente. Isso não apenas otimiza o carregamento técnico, mas permite que cada área tenha uma identidade visual própria sem quebrar a unidade da ilha. Você sempre sente que está no mesmo lugar, apenas em partes com visuais diferentes devido às suas funções.



Pedra, madeira, água e vidro

Embora as estátuas comuns não variem tanto em modelo — o que se justifica narrativamente por serem ícones padronizados da ilha — o jogo brilha nos inimigos de elite. Eles quebram a monotonia com conceitos visuais completamente distintos, indo de construções de pedra e criaturas de vidro a ameaças aquáticas que mudam completamente a nossa forma de nos movimentarmos pelo cenário.

Para sustentar essa imersão, o HUD é minimalista e inteligente: apenas a barra de vida é fixa, deixando o cenário brilhar. Elementos de inventário só surgem quando estritamente necessários, mantendo a tela limpa.

O som do silêncio

O som é a cereja no bolo. O uso recorrente da chuva é fenomenal: o ruído muda de textura dependendo se você está em campo aberto, dentro de uma caverna ou em um ambiente interno, criando uma camada de realismo sonoro que prende o jogador em Tormentosa.

Ao longo das 15 horas de campanha, cada som de engrenagem, gota d’água, o bater das pernas de madeira dos inimigos em um corredor à frente ou em um andar diferente — seja de madeira ou pedra — reforça que nada naquele lugar está em paz. Um destaque que deve ser citado são as músicas ambiente. Só quem gosta de cinema de terror sabe o quanto uma música infantil ou instrumental pode soar assustadora no contexto certo.

¡Detrás de ti, Gabriel!

O grande foco de Crisol está no enfrentamento dos inimigos, exploração do cenário e resolução de puzzles. A inspiração nos títulos recentes de Resident Evil por escolhas de design e puzzles é evidente. Em muitos momentos, me senti jogando uma versão em primeira pessoa de Resident Evil 4 Remake, por conta da movimentação lenta, mas às vezes cambaleante, das estátuas que me remeteram aos Ganados — e o fato de ter jogado todo o jogo em espanhol (há também uma excelente versão em inglês) ajudou nessa impressão.

Em conversa anterior com David Carrasco, CEO do estúdio, fica claro que a lentidão é proposital. Um exemplo desse design inteligente está na ergonomia considerada para jogar no PC: como o personagem não pula, a recarga é feita na barra de espaço. O que parece estranho em um primeiro momento torna-se instintivo no calor do combate, facilitando o fluxo constante de sacrifício de sangue.
Assim como suas referências, Crisol consegue elevar o protagonista gradualmente em habilidade e ferramentas sem torná-lo uma divindade em nenhum momento.

Lento para contemplar

Quando joguei o game anteriormente em uma exibição privada, o peso dos inimigos e a velocidade do jogo já haviam me chamado a atenção por serem lentos sem serem chatos. Houve um refino para a versão final, pequeno e preciso, colocando o título da Vermilla tranquilamente como um dos mais divertidos do gênero que já tive a oportunidade de jogar em meus 30 anos.
O sistema de mapas também dialoga com suas referências ao não estar na tela. Temos de consultá-lo em um menu e, à medida que avançamos, os locais já acessados ficam em azul ou vermelho se ainda há algo de interessante ali, bem como as portas que podem ou ainda não ser abertas vão sendo sinalizadas. A progressão segue uma estrutura linear com momentos de exploração mais aberta, incentivando revisitar áreas e procurar segredos. Essa abordagem equilibra direção narrativa clara com liberdade suficiente para recompensar jogadores curiosos.

Ninguém vence um cara paciente

A curva de dificuldade é bastante variável. Este é um jogo que recompensa a exploração; portanto, para mim, que costumo andar por cada canto, naturalmente os inimigos mais avançados não eram tão difíceis, com exceção da Vidriera — esta, quando chega, não há quem não acredite no Deus Sol.

O uso do sangue como munição e vida é genial. Toda vez que você precisar recarregar, deve considerar se tem vida suficiente, seringas de sangue para se curar ou se, próxima à sua localização, haverá alguma fonte de sangue para se recuperar. Isso torna os inimigos, mesmo que em alguns momentos previsíveis após seguidas horas de jogo, sempre perigosos. Ainda que possamos aparar alguns ataques com nossa lâmina, o bater das pernas de madeira dificulta termos a total noção da quantidade deles no ambiente, ainda porque nem todos se movem de imediato. Crisol executa muito bem quase tudo o que propõe.

O diabo está nos detalhes

O grande problema que enfrentei foi em relação ao sistema de salvamento. Temos dois: automático e manual. Antes de encerrar uma sessão, eu ia até o ponto de save manual, fazia upgrades, salvava e encerrava para continuar outro dia. O problema é que o jogo desconsidera o manual e sempre traz o jogador de volta ao último save automático, o que foi frustrante em diversos momentos.

No aspecto técnico, a experiência foi bastante estável durante toda a campanha. Não enfrentei quedas graves de desempenho nem travamentos, e os tempos de carregamento foram curtos o suficiente para não quebrar a imersão. O jogo demonstra um nível de polimento surpreendente para um estúdio estreante, mesmo com pequenos problemas pontuais, como inimigos travados em alguns obstáculos e o Gabriel “esquecer” de andar em velocidade normal após atravessar uma parede estreita. Não tive crashes ou nada que tivesse me feito reiniciar o jogo.

Contexto e propósito

A história me prendeu de um jeito que nem BioShock — uma de suas claras inspirações — conseguiu, o que foi uma surpresa enorme para mim, já que a estrutura narrativa é bastante parecida, mas com identidade própria. Gabriel, o protagonista, às vezes faz comentários fora de tom, mas quando lembramos que ele se move por uma crença cega e fanática, tudo passa a fazer sentido.

Um dos pecados do jogo talvez seja a falta de NPCs aliados interessantes ou com quem nos importamos de verdade. Como nos comunicamos majoritariamente via rádio, não conseguimos estabelecer relação com os “amigos”. Ainda assim, mesmo sendo um ponto negativo, isso faz sentido dentro do plano geral da história.

Já com os vilões há um trabalho visivelmente mais elaborado. Todos os alvos que enfrentamos são pessoas ruins, seja por natureza ou por circunstâncias que os levaram a isso. Todas as “caçadas” explicam a história de cada um deles e como afetaram pessoas ao redor, sem tentar humanizar o vilão — algo que infelizmente tem se tornado padrão.

Lá e de volta outra vez

O enredo utiliza o tradicional vai e vem pelos cenários sem se tornar totalmente previsível, entregando grandes momentos de fuga e ação e um final que escala organicamente do tenso para o épico, digno de se levantar da cadeira e aplaudir.

Tormentosa, situada no fictício mundo de Hispania, é uma representação muito criativa do folclore espanhol. Um dos momentos que mais me marcou foi após afiar a faca em um amolador preso na traseira de uma moto — referência direta aos afiladores da região da Galiza, homens que circulavam pelas vilas prestando serviço às comunidades afiando ferramentas.

Considerando que a grande inspiração para a ambientação, mecânicas e inimigos foi a Semana Santa espanhola, as escolhas visuais foram muito acertadas: as estátuas reais possuem pinturas realistas para dar a impressão de estarem vivas, conceito que Crisol utiliza ao seu favor para suas criaturas.

À esquerda, a perseguidora Dolores e à direita, a imagem realista de Maria na Semana Santa.

Legado e o veredito

Crisol: Theater of Idols é um jogo que fala sobre fanatismo, autossacrifício, até onde você está disposto a ir pelo que acredita ser o certo e se é capaz de questionar suas certezas.

Passei 15 horas prazerosas e instigantes em Tormentosa, mais que suficientes para perceber que tenho em mãos uma das grandes surpresas do ano. A presença de legendas em português torna a experiência acessível ao público brasileiro, e a interface limpa contribui para uma leitura clara das informações essenciais durante a jogatina.

Crisol: Theater of Idols integra uma nova leva de jogos em que prevalece a criatividade e se torna uma recomendação fácil para fãs de BioShock, Resident Evil e experiências atmosféricas. Jogadores que buscam ação frenética podem estranhar o ritmo, mas quem valoriza tensão, identidade e direção artística encontrará aqui uma das surpresas mais interessantes do ano.

Prós

  • Ambientação imersiva e perturbadoramente bela inspirada na iconografia da Semana Santa espanhola;
  • Puzzles inteligentes e bem integrados à exploração;
  • Mecânica de sangue como vida e munição cria tensão constante;
  • Direção artística primorosa;
  • Vilões com desenvolvimento narrativo consistente.

Contras

  • Save manual não é priorizado gerando frustração com a obrigatoriedade de refazer deslocamentos e repetir ações;
  • Falta de NPCs carismáticos;
  • Pequenos bugs pontuais.
Crisol: Theater of Idols — PC/PS5/XSX — Nota: 8.5

Revisão: Beatriz Castro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Blumhouse Games

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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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