Análise: The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon — Retornando a Calvard, mas agora sob três perspectivas

O novo RPG da Falcom aprofunda as conexões do arco de Calvard com o macro da série Trails, embora volte a sofrer com problemas de ritmo.

em 23/01/2026
The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon é o capítulo mais recente da extensa franquia de RPGs da Nihon Falcom. Atuando como o terceiro jogo do arco de Calvard, a obra dá continuidade direta aos eventos de Trails through Daybreak e Trails through Daybreak II, ao mesmo tempo em que aprofunda de maneira significativa os laços com os demais períodos da saga Trails.

Três protagonistas

Trails beyond the Horizon inicia sua narrativa poucos meses após o desfecho de Trails through Daybreak II. A abertura introduz o Spriggan Van Arkride (protagonista dos capítulos anteriores) e aliados de sua agência em um exercício de treinamento em realidade aumentada promovido pela Marduk Company. No decorrer da simulação, o grupo acaba cruzando o caminho de outros dois esquadrões, cada um liderado por figuras já consagradas da franquia.

Enquanto o exercício se desenrola, a segunda etapa do Projeto Startaker é oficialmente ativada. A iniciativa visa colocar um satélite de comunicações em órbita para, em um futuro próximo, viabilizar voos espaciais tripulados. Naturalmente, a revelação atrai os olhares de diversas facções de Calvard e do próprio continente de Zemuria, que passam a agir nos bastidores. Com a conclusão do treinamento, os três grupos seguem rumos distintos. 

A partir do segundo ato, a trama se fragmenta em três arcos paralelos: Van Arkride investiga uma sequência de desaparecimentos locais e um dispositivo que remete aos Gênesis; Rean Schwarzer (protagonista da saga Cold Steel e Reverie) busca desvendar as reais intenções por trás do Projeto Startaker; e Kevin Graham (vindo da trilogia Sky) empenha-se em uma caçada pessoal a um herege.

Infelizmente, a exemplo do que ocorre em Trails through Daybreak II, a obra apresenta graves problemas de ritmo, sobretudo na rota de Van, que é consideravelmente mais longa que as outras. Embora o elenco continue excelente e muitas das interações funcionem de forma orgânica, diversos dos trechos protagonizados pelo Spriggan transmitem a sensação de que foram criados apenas para inflar o tempo de jogo, sem acrescentar elementos substanciais ao enredo principal.

Um exemplo claro disso está em momentos nos quais o jogador precisa percorrer diversos pontos de um mesmo distrito apenas para que os personagens façam comentários sobre o local. Embora essas observações triviais sejam (em outras circunstâncias) importantes para dar vida aos indivíduos, considerando a urgência dos problemas investigados, além do fato de que já foram investidas mais de 50 horas em cada um dos dois títulos anteriores para estabelecer esses sujeitos como um grupo, muitos desses trechos acabam soando forçados. A ausência de legendas em português apenas agrava esse cenário.

Vale ressaltar ainda que Trails beyond the Horizon não apenas resgata veteranos da franquia, como também revisita organizações e eventos de capítulos passados, além de estabelecer ganchos cruciais para o futuro da saga. Embora a obra ofereça um glossário em tempo real para consulta de termos usados durante os diálogos, ter finalizado Trails through Daybreak I e II é um requisito indispensável. Somado a isso, possuir familiaridade com os arcos de Cold Steel, Reverie e Sky é altamente recomendável para a plena compreensão do enredo.


Uma exploração familiar

A jogabilidade de Trails beyond the Horizon mantém-se fiel às mecânicas consolidadas em Daybreak e sua sequência. Nesse sentido, a República de Calvard é apresentada através de ambientes amplos explorados em terceira pessoa, com o deslocamento otimizado pelo recurso de viagem rápida. Além disso, os objetivos das missões, tanto das principais quanto das secundárias, aparecem sinalizados no mapa.

As quests opcionais seguem como um dos grandes destaques da experiência e, assim como nos dois títulos anteriores, muitas dessas atividades permitem ao jogador escolher diferentes abordagens para lidar com uma situação específica, resultando em consequências e desfechos distintos para os NPCs envolvidos. Mesmo permanecendo bastante simples em termos mecânicos, essas missões contribuem de forma significativa para a construção de Calvard.

Outro elemento que retorna são os minijogos. Aqui, há atividades totalmente opcionais, como pesca e basquete, e outras integradas à campanha principal ou a missões secundárias, como hackear sistemas com um robô para desbloquear dispositivos ou baús, ou perseguir alvos específicos utilizando pontos do cenário para se esconder. Mais uma vez, essas mecânicas seguem pouco refinadas e praticamente desprovidas de desafio; contudo, elas cumprem o papel de conferir um pouquinho de diversidade à jornada, que, em sua maior parte, é pautada por extensos diálogos.

Em termos visuais, o título apresenta uma leve evolução em relação aos dois jogos Daybreak, mas ainda fica um passo atrás do padrão adotado em Trails in the Sky 1st Chapter, lançado no final do ano passado. Vale lembrar que, embora Trails beyond the Horizon tenha chegado ao Ocidente apenas neste mês, ele já estava disponível no Japão desde 2024, fator que, talvez, ajude a explicar a superioridade gráfica do remake de Trails in the Sky.


Evolução pontual

O sistema de combate de Trails beyond the Horizon também mantém a base introduzida em Trails through Daybreak e refinada em Daybreak II, combinando batalhas por turnos com segmentos de ação em tempo real. Os inimigos continuam visíveis durante a exploração dos cenários e podem ser enfrentados diretamente em campo, permitindo ao jogador utilizar ataques padrão e esquivas, além de uma investida carregada capaz de atordoar os adversários antes da transição para as lutas em turnos.

Assim como nos títulos anteriores, essa camada de ação funciona mais como um meio de obter vantagem estratégica do que como uma experiência realmente envolvente por si só. Embora elementos como o uso de Arts básicas e o SCLM Charge — uma espécie de contra-ataque executado por um segundo personagem após uma esquiva perfeita — tornem os confrontos em campo mais dinâmicos, a repetição de poucos comandos ainda limita o apelo dessas batalhas ao longo de um jogo de duração tão extensa.

A principal novidade de Beyond the Horizon está na introdução do sistema ZOC e da mecânica de despertar, ambas com barras de carga próprias. Nas lutas em campo, o ZOC desacelera o tempo para os oponentes, enquanto o despertar aumenta consideravelmente o dano causado por um período limitado, tornando mais viável eliminar monstros poderosos diretamente durante a exploração.

Já nos combates por turno, o posicionamento dos personagens permanece fundamental. Assim como nos jogos anteriores, as batalhas podem ser iniciadas manualmente ou de forma reativa quando os inimigos conseguem desestabilizar o grupo durante a navegação. Aqui, o jogador pode mover seus aliados dentro de uma área delimitada, explorar fraquezas, causar atordoamentos e ativar ataques em conjunto com aliados próximos.

Nesse modo de luta, também é possível ativar o ZOC, que concede um turno extra ao personagem em troca do consumo da barra de Boost. Outra mecânica inédita é a BLTZ, que permite que combatentes fora do grupo ativo participem de ataques em cadeia ou aumentem a eficácia de Arts (magias) e Crafts (habilidades) do herói em campo.

No geral, embora os acréscimos sejam pontuais, eles contribuem para enriquecer um sistema de combate que já funcionava muito bem, especialmente em sua vertente por turnos. Somados ao robusto sistema de Orbments, que permite modificar proficiências, afinidades, Arts e efeitos passivos, os elementos de combate garantem um alto grau de personalização, recompensando jogadores dispostos a explorar a fundo todas as possibilidades estratégicas oferecidas pelo jogo.

Grinding de cara nova

O conteúdo conhecido em Daybreak II como Märchen Garten retorna em Trails beyond the Horizon sob o nome de Grim Garten. Embora sua estrutura espelhe a do título anterior, funcionando como uma grande masmorra composta por vários andares e áreas com objetivos específicos, a experiência agora é apresentada sob uma estética roguelike, permitindo ao jogador escolher rotas distintas e acumular bônus temporários antes de enfrentar o chefe da região.

Infelizmente, tanto os cenários quanto as mecânicas dos andares são praticamente idênticos aos de seu antecessor, o que ajuda a tornar essa atividade repetitiva e cansativa depois de pouco tempo. Apesar disso, o esforço dedicado aqui é recompensado com tesouros permanentes e úteis para a campanha principal, além de alguns trajes especiais.

Embora seja teoricamente opcional, ignorar este modo tende a deixar o grupo com níveis e equipamentos defasados. Como os trechos obrigatórios da trama priorizam diálogos em vez de batalhas, e os saltos de dificuldade entre capítulos são consideráveis, o jogador dificilmente manterá forças adequadas apenas enfrentando os oponentes do caminho principal.

É importante destacar ainda que, apesar das divisões de personagens impostas pela narrativa, o Grim Garten oferece grande liberdade na formação de equipes, algo especialmente relevante nesta entrada, considerando o tamanho gigantesco do elenco. Como apenas os combatentes ativos nas incursões recebem experiência, o modo incentiva a experimentação e o uso de diferentes formações, ainda que, no fundo, fique claro que esse sistema funciona como uma máscara para uma exigência pesada de grinding.

Agradável e importante para a série

The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon se apoia em uma estrutura sólida e familiar, muito semelhante à de seus dois antecessores, aprofundando de forma significativa suas conexões com os demais capítulos da série Trails. Embora sua narrativa sofra com problemas consideráveis de ritmo, a experiência é sustentada por um elenco carismático e por um sistema de combate robusto.


Prós

  • Elenco carismático e numeroso, integrado a uma trama que aprofunda de forma significativa as conexões com o universo mais amplo da série Trails;
  • Combate por turnos dinâmico e altamente personalizável, enriquecido pelas diversas camadas de customização oferecidas pelo sistema de Orbments;
  • Missões secundárias continuam relevantes, adicionando novas camadas de contexto ao mundo do jogo;
  • As novas mecânicas de ZOC e despertar dão novo frescor aos combates em campo;
  • Apesar de suas limitações, o Grim Garten oferece recompensas expressivas e uma boa liberdade na formação de equipes, aproveitando bem o elenco gigantesco do jogo.

Contras

  • Problemas consideráveis de ritmo narrativo, especialmente nos arcos protagonizados por Van, que apresentam inúmeros trechos destinados apenas a estender artificialmente a duração da campanha;
  • Grim Garten reaproveita excessivamente cenários e mecânicas de Daybreak II e, por funcionar, na prática, como conteúdo obrigatório para manter o nível adequado na campanha, torna-se cansativo com relativa rapidez;
  • Embora mais envolvente que nos antecessores, o sistema de combate em tempo real ainda é limitado e repetitivo para um jogo de duração tão extensa;
  • Ausência de legendas em português.
The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon — PC/PS4/PS5/Switch/Switch 2 — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Heloísa D’Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America
OpenCritic
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Lucas Oliveira
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