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Análise: The Legend of Heroes: Trails through Daybreak é um ótimo lembrete da força da franquia de RPGs

A décima-primeira entrada na série inicia um novo arco com algumas novas ideias e se mostra um dos melhores Kisekis.

The Legend of Heroes: Trails through Daybreak
é o décimo-primeiro jogo da franquia Kiseki, uma série de RPGs desenvolvidos pela Nihon Falcom com uma narrativa interconectada. Com o novo lançamento, entramos em um novo arco, com novos personagens e um ponto curiosamente bom de entrada apesar das tendências da série de dependência de jogos anteriores.

Um reino de múltiplas facções

Em Trails through Daybreak, acompanhamos a história de Van Arkride, um jovem rapaz de 24 anos que presta serviços como um Spriggan. O termo nada mais significa do que alguém que pode fazer tarefas variadas para a população, assim como os Bracers de Trails in the Sky, mas sem as mesmas limitações.

Capaz de realizar missões para qualquer tipo de gente, um Spriggan vive à margem da sociedade e pode, a princípio, parecer um mercenário capaz de fazer negócios escusos. Na prática, não é exatamente assim, sendo mais uma questão de fazer missões que os Bracers e os policiais não poderiam assumir por algum motivo.

Quando estava projetando o país de Calvard, a equipe da Falcom queria deixar mais claro como a região é marcada pela confluência de várias facções. Temos indivíduos que encarnam a lei e a ordem, como os Bracers e os policiais mais certinhos; mafiosos como a Heiyue; e até mesmo os membros da “Sociedade”, com sua tendência a espalhar o caos por onde passam.

No meio de todas essas ideologias e pontos de vista, temos Van, que é o tipo de pessoa que consegue se dar bem com qualquer um. Não apenas isso, mas vemos ao longo da campanha como as suas ações durante as missões podem ser moralmente questionáveis e abrir margem para várias opções de ação.

Em comparação com outros jogos da franquia, Daybreak opta por oferecer uma espécie de sistema de alinhamento chamado LGC. A ideia é que Van pode tomar decisões variadas ao fim de cada missão que levam a resoluções estritamente certinhas do ponto de vista moral (Law), ambíguas (Gray) ou com uma conotação potencialmente criminosa (Chaos).

Ao contrário de títulos com sistemas similares, não temos aqui grandes mudanças no roteiro principal de acordo com as nossas escolhas, exceto pela definição de alianças em um dos capítulos finais. O foco aqui é dar um pouco de maleabilidade para a resolução das quests secundárias e demonstrar na prática a amplitude da bússola moral de Van.

Em termos da história de forma geral, tudo começa quando Van é contratado por Agnés Claudel para procurar por uma herança de família. O que ele não podia esperar é que isso era apenas o pontapé inicial para uma jornada muito mais complexa e que levaria o personagem a se abrir para muitos aliados.

Na prática, a trama ainda tem vários clichês e algumas reviravoltas forçadas que acabam enfraquecendo um pouco o desenvolvimento da história. Porém, mesmo com tudo isso, existe uma jornada genuína de crescimento dos personagens, com especial ênfase no próprio Van e na forma como ele cria laços genuínos com pessoas de grupos sociais muito distintos.

Para quem não conhece a fundo a narrativa dos jogos anteriores, felizmente Daybreak é menos dependente das inúmeras subtramas de seus antecessores. Há vários personagens e elementos que já foram abordados no passado, mas sinto que é um dos pontos mais tranquilos de começar a jogar por se concentrar mais nos novos personagens, com breves pinceladas das suas backstories, e no presente de Calvard.

Entre a ação e os comandos de turno

A série The Legend of Heroes sempre foi composta por RPGs de turno, separando-se de outras produções da Falcom, que muitas vezes exploram sistemas de ação em jogos como Ys, Sorcerian, Xanadu, Zwei e Gurumin. Porém, Trails through Daybreak introduz um paradigma um pouco diferente, combinando trechos de ação com o combate em turnos.

A ideia é que exploramos as áreas em tempo real e podemos atacar os inimigos diretamente, mas em vez disso levar diretamente para o combate em turnos, onde podemos continuar atacando. Os inimigos também seguem certos padrões de ataque em intervalos determinados, sendo possível desviar dos golpes. Se esse movimento de esquiva for feito na hora exata em que o inimigo nos atingiria, fazemos uma esquiva perfeita que enche por completo a barra de especial, que também aumenta por meio de ataques.

No combate de ação, nossos ataques vão aos poucos enchendo a barra de Stun do inimigo, deixando-o atordoado quando ela chega ao seu valor máximo. Com um monstro nessas condições, ganhamos bônus se ativarmos os Shards, ou seja, se alterarmos para o modo de turnos. Atordoados, os inimigos demoram um pouco mais para chegar aos seus turnos, e todas as criaturas que farão parte do combate receberão dano junto.

Da mesma forma, se o personagem controlado diretamente pelo jogador for atingido por um golpe poderoso de um inimigo ou estiver no limiar de esvaziar sua vida, o grupo será forçado a participar do combate em turnos com desvantagem. Ser atingido faz com que os turnos dos inimigos cheguem mais rapidamente e impede o jogador de fugir/voltar para o modo de ação.

Ficar intercalando entre os dois modos é, assim, uma forma muito interessante de obter vantagens específicas, e vale a pena dominar os sistemas. Porém, se preferir, o jogador também pode intercalar os modos a qualquer momento (exceto após ser atingido pelo inimigo ou nas lutas contra chefes e inimigos de eventos), ignorando assim as vantagens de atordoamento.

Estratégias e conquistas

O sistema de combate em turnos em Trails through Daybreak é bastante elaborado e traz alguns ajustes em relação aos jogos anteriores. Os turnos são individuais e definidos pela agilidade dos personagens, sendo possível acompanhar a ordem pela linha do tempo no canto superior direito da tela. Enquanto os antecessores utilizavam uma única linha para melhor organização, Daybreak divide aliados e inimigos em suas próprias áreas e indica quem será o próximo com a palavra NEXT.

Além da ordem importar para o bom planejamento do combate, um ponto recorrente na série desde o primeiro Trails são os bônus associados aos turnos. Por conta disso, valia a pena tentar ajustar a ordem das ações tendo em vista o ganho de benefícios melhores. A técnica especial S-Break, que pode ser usada a qualquer momento no combate, ajudava o jogador a “roubar” esses turnos.

Agora a coisa já não é tão simples, já que não podemos simplesmente assumir o benefício do próximo turno usando o S-Break. Para impedir que um inimigo ganhe um golpe crítico, por exemplo, passa a ser necessário atordoá-lo ou derrotá-lo por completo. Embora seja uma mudança que pode parecer pequena para algumas pessoas, na prática temos uma perda significativa no microgerenciamento.

Outro fator fundamental no combate são as Arts, a versão de magia do mundo de Trails. Todos os personagens podem usá-las dependendo do Orbment equipado, dando ao jogador a liberdade para focar em habilidades de dano, cura ou suporte, tentar diversificar os poderes de cada aliado ou dedicar tudo em uma área só.

Em comparação com outros jogos da série, a customização dos Orbments agora traz apenas efeitos secundários e a definição de quais técnicas poderão ser usadas envolve escolher Drivers de afinidade elemental para o personagem. Junto a isso, é possível instalar Arts extras em Plugins, ajustando as habilidades disponíveis de acordo com as necessidades do jogador.

Também temos os Crafts, que são habilidades especiais que consomem uma energia ganha toda vez que um personagem faz um ataque básico ou toma dano. Esses poderes variam de acordo com cada indivíduo e é possível conservar energia para usar habilidades ainda mais poderosas, chamadas de S-Break.

Além de ataques comuns, itens, Arts e Crafts, Daybreak adiciona uma mecânica de Boost. A ideia é que temos uma energia acumulada no canto esquerdo da tela, que pode ser usada para melhorar os atributos dos nossos personagens. Os benefícios variam de acordo com a Holo equipada, que é uma espécie de parceira IA, sendo possível alterar os benefícios ao mudar quem está usando qual Holo.

Em vez do S-Break consumir todos os pontos de EP, agora é necessário usar 2 pontos de Boost e 100 de EP. Em contrapartida, o uso da técnica aumenta a quantidade máxima de Boost que podemos ter durante aquela partida, aumentando as nossas oportunidades de fortalecer aliados.

Outro fator a se levar em consideração é a proximidade dos aliados, que podem dar sequência a nossos ataques e fortalecer Arts e Crafts como uma versão mais básica dos Links de Cold Steel. De forma geral, os sistemas novos são mais equilibrados que os dos cinco jogos anteriores, mas vale destacar que o desafio da experiência como um todo é geralmente bem baixo até nos níveis mais elevados de dificuldade.

Aspectos técnicos

Daybreak foi meu primeiro título da série no PlayStation 5. De forma geral, a experiência foi muito tranquila, com os elementos de cena carregando rapidamente, uma boa resolução e taxa de quadros que em nenhum momento me incomodou. Apesar disso, senti um pouco de estranheza nas animações, especialmente em alguns momentos nos cabelos dos personagens durante alguns diálogos, dando a sensação de que os personagens estavam sendo spawnados novamente na cena quando eles voltavam a ser mostrados.

Felizmente, no campo do roteiro, não notei nenhum grande problema. A série Trails conta apenas com tradução para o inglês e algumas línguas asiáticas em outras versões, e é notória por sua altíssima quantidade de texto, então foi impressionante passar pela experiência sem grandes equívocos.

Uma ótima nova entrada

The Legend of Heroes: Trails through Daybreak introduz um novo arco para a franquia em uma abordagem centrada principalmente na figura de seu protagonista, o spriggan Van Arkride. O título se mostra um ótimo RPG que explora os interesses conflitantes de múltiplas facções em coexistência em Calvard e introduz um novo sistema que deixa a experiência mais próxima de um híbrido de ação e turno. É facilmente um dos melhores jogos da franquia e uma ótima forma de dar um pontapé inicial para o arco de Calvard.

Prós

  • Combinação instigante de sistemas simples de ação e combate em turnos cheio de elementos estratégicos que incentiva o bom uso de timing na transição;
  • Ao centrar a trama em Van Arkride e seus aliados e oferecer o sistema de alinhamento LCG, consegue formar um argumento bem-amarrado e explorar as múltiplas facetas morais da sociedade de Calvard;
  • Boas opções de customização através dos ajustes de Orbment, Holos, Drivers e Plugins;
  • Tradução para o inglês com pouquíssimos e praticamente imperceptíveis erros.

Contras

  • A mudança da timeline de batalha remove um fator estratégico importante do combate;
  • Os clichês e algumas reviravoltas mal-executadas enfraquecem o desenvolvimento da trama em certos momentos;
  • Pequenos erros de animação em algumas cenas de diálogo.

The Legend of Heroes: Trails through Daybreak — PC/PS4/PS5/Switch — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS5

Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
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