Lançado originalmente em 1997 para PC, Outlaws é um daqueles títulos que se tornou cult ao longo dos anos. Desenvolvido pela LucasArts, estúdio conhecido por aventuras como The Secret of Monkey Island e Grim Fandango, o jogo abraça o faroeste clássico com autenticidade cinematográfica, marca registrada dos títulos do estúdio de George Lucas, e apresenta uma ousadia surpreendente para um FPS do final dos anos 1990.
Em 2025, o título retorna em uma competente remasterização desenvolvida pela Nightdive Studios, que já demonstrou experiência em projetos como Star Wars: Dark Forces Remaster, Shadow Man Remastered e Forsaken Remastered. Em Outlaws + Handful of Missions: Remaster, temos a oportunidade de revisitar uma aventura que, mesmo não sendo tão conhecida, faz jus ao status de clássico.
Uma legítima história de faroeste em forma de videogame
No centro da história de Outlaws assumimos o papel de James Anderson, um ex-xerife que vê sua família ser atacada por uma gangue liderada por Bob Graham, um magnata disposto a dominar o setor de ferrovias no Oeste Americano. Após o ataque à sua fazenda, que resulta na morte da esposa e no sequestro da filha, Anderson inicia uma jornada pessoal em busca de justiça.
Forçado a voltar a empunhar um revólver, ele parte em uma trajetória de vingança e resgate, enfrentando pistoleiros, emboscadas e vilarejos abandonados que remetem aos clássicos de Sergio Leone.
A trama é apresentada por cutscenes em estilo de desenho animado, reforçando o tom clássico que diferencia Outlaws de outros shooters da época. O roteiro traz personagens marcantes, com destaque para Anderson, em uma narrativa envolvente que, como na época do lançamento original no Brasil, conta com dublagem em português, produzida pela Brasoft na época, tornando a apresentação ainda mais impactante.
Outlaws oferece um gameplay rápido para a época, com mapas amplos e repletos de segredos, seguindo a dinâmica comum de títulos como Doom, Quake e Hexen. Embora mantenha o ritmo acelerado típico dos FPS dos anos 1990, o jogo apresenta elementos que o tornaram singular no gênero.
Um dos destaques é o sistema de mira com zoom no rifle, recurso raro em 1997 e que antecipou mecânicas que se tornariam padrão em anos posteriores. As fases incluem ambientes como fazendas e vilas cheias de detalhes, incentivando a exploração. O arsenal típico de western — dinamites, garrafas, o revólver clássico — e os duelos contra chefes, cada um com personalidade própria, ajudam a reforçar a identidade do jogo.
Na época, o título também oferecia multiplayer competitivo via rede local ou online, aumentando sua longevidade e fortalecendo a comunidade que o manteve vivo por muitos anos.
Outro ponto marcante é sua trilha sonora orquestrada, composta por Clint Bajakian. Inspirada em Ennio Morricone, ela captura com precisão a aura melancólica, heroica e árida do Velho Oeste. Muitos fãs a consideram uma das melhores trilhas já produzidas pela LucasArts e um dos grandes destaques da década.
Visualmente, Outlaws segue o padrão dos FPS com sprites 2D em ambientes 3D, mas sua direção de arte singular permite que o jogo ainda impressione. Cenários como minas, cidades fantasmas e fortes militares são construídos com atenção ao detalhe, reforçando a sensação de estar em uma aventura de western clássico.
Outlaws não foi um sucesso comercial, mas conquistou uma base fiel de jogadores que manteve o título vivo por meio de mods, patches e comunidades dedicadas — pelo menos até agora.
Renovação, restauração e reflexão
Ao revisitar Outlaws em sua versão remasterizada, percebe-se claramente o valor da obra da LucasArts. Sua combinação de narrativa cinematográfica, atmosfera de faroeste e mecânicas inovadoras criou uma experiência única, que influenciou futuros shooters ambientados no estilo western.
Nesta nova versão, há suporte para resoluções de até 4K a 60 fps, jogabilidade online aprimorada e compatibilidade com controles modernos, seja no teclado e mouse ou em gamepads. Quem não teve contato com a versão original de 1997 e está acostumado à jogabilidade atual dos FPS deve se adaptar naturalmente à experiência oferecida pela remasterização.
Ao jogar com controle, os menus de seleção de armas e os atalhos foram ajustados — e alguns até criados — para tornar a jogabilidade mais intuitiva e fluida, sem comprometer a essência do jogo. Para mim, que conheci a versão original quando criança, com controles bastante peculiares para a época, jogar a remasterização com a fluidez de um título moderno foi uma experiência agradável.
A remasterização inclui, além do jogo principal, a expansão Handful of Missions, composta por missões adicionais que não se conectam diretamente à história principal, mas ampliam a experiência geral. Na época, o pacote trouxe cinco fases extras para o modo single player, novos mapas para o multiplayer e algumas correções pontuais no jogo base.
De modo geral, Outlaws + Handful of Missions: Remaster é um projeto bem-vindo, especialmente por resgatar uma obra que representa uma época em que os jogos de PC tinham uma identidade própria e bem definida. Hoje, o título retorna ao PC e chega também aos consoles, ampliando seu alcance e oferecendo a uma nova geração a chance de experimentar um pedaço da história dos videogames.
Contudo, Outlaws segue sendo um jogo de nicho. Apesar da apresentação marcante, sua jogabilidade permanece datada, baseada em exploração de cenários labirínticos, procura por chaves e descoberta de segredos — um estilo que pode não agradar a jogadores acostumados a experiências mais dinâmicas e robustas dos jogos atuais. A falta de um sistema de salvamento automático, algo bem comum hoje em dia, também faz falta.
Ainda assim, Outlaws permanece um clássico. Não tão celebrado quanto outros títulos de sua época, mas digno desse status. Seu retorno é positivo, mas tende a ser mais apreciado por quem o jogou no passado, por entusiastas do gênero e por quem gosta de revisitar obras antigas em busca de pérolas esquecidas e de uma compreensão mais profunda sobre como eram os videogames de cerca de 30 anos atrás.
Cavalgando no túnel do tempo
Revisitar Outlaws em sua versão remasterizada é reencontrar uma das experiências mais autênticas já produzidas no gênero FPS dos anos 1990. A combinação de atmosfera cinematográfica, trilha sonora marcante, ambientação competente e uma abordagem de western pouco explorada no período faz do jogo uma obra que permanece relevante, mesmo com suas limitações.
Outlaws + Handful of Missions: Remaster preserva a identidade do original enquanto adiciona melhorias técnicas e de jogabilidade que tornam a jornada mais acessível ao público atual. Embora suas mecânicas datadas possam afastar jogadores acostumados a shooters modernos, Outlaws segue como um marco importante da LucasArts e uma peça valiosa para quem aprecia a história dos videogames — especialmente do PC gaming clássico.
Prós
- Atmosfera de faroeste extremamente bem construída;
- Trilha sonora orquestrada de altíssimo nível, inspirada em Ennio Morricone;
- Direção de arte única, que ainda impressiona;
- Narrativa envolvente apresentada por cutscenes em estilo animado;
- Níveis amplos e cheios de segredos que incentivam exploração;
- Remasterização competente com suporte a 4K, 60 fps e controles modernos;
- Inclusão da expansão Handful of Missions, ampliando o conteúdo.
Contras
- Dinâmica de jogabilidade considerada datada para os padrões atuais;
- Estrutura baseada em chaves e backtracking pode ser cansativa para jogadores mais jovens;
- Combate menos impactante quando comparado a shooters contemporâneos;
- O público-alvo tende a ser mais nichado, especialmente entusiastas de jogos clássicos.
Outlaws + Handful of Missions: Remaster — PC/PS5/PS4/XSX/XBO/Switch — Nota: 7.5Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Atari









