Blast from the Past

Castlevania: Bloodlines (Mega Drive): 30 anos do retorno do Príncipe das Trevas no Mega Drive

Relembre o embate contra Drácula em um dos melhores jogos dos 16 bits.

Durante quase toda a vida do Master System e o início do ciclo do Mega Drive, a Sega teve que sustentar praticamente sozinha a biblioteca de jogos desses consoles. Apesar de contar com o apoio de algumas desenvolvedoras japonesas, como Taito, Sunsoft e Namco, a produtora sofria com o acordo de exclusividade que a Nintendo mantinha com as third parties, uma situação que perdurou até 1992 devido ao potencial de monopólio desse contrato.


Com as portas abertas e o grande sucesso de seu console 16 bits no ocidente, o Mega Drive começou a receber títulos de outras desenvolvedoras que eram mais fechadas com a Nintendo, entre eles a Konami. Castlevania: Bloodlines foi lançado em 1994 e, além de adicionar mais um capítulo ao eterno embate contra Drácula, adicionou vários elementos importantes para a trama maior da franquia.

O eterno ódio dos homens

No seu lançamento, Bloodlines era o título cronologicamente mais próximo da franquia com os tempos contemporâneos, já que seu enredo se passa em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, período marcado pelo assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando na Bósnia, em 1914. Em Castlevania, esse evento é atribuído a Elizabeth Bartley, personagem inspirada em Erzsébet Báthory, uma serial killer húngara. E como curiosidade, o nome da personagem no jogo era para ser o mesmo da figura histórica, mas a localização do japonês エリザベート・バートリー (Erizabēto Bātorī) acabou virando o nome que temos no título ocidental. 

Bartley, que supostamente morreu 300 anos antes dos eventos de Bloodlines, afirma ser sobrinha de Drácula e deseja o seu retorno. Como Drácula é uma representação do ódio humano, a Primeira Guerra Mundial foi o evento ideal para a condessa atingir seu objetivo de ressuscitar seu tio, utilizando as almas daqueles que morreram no evento para esse fim.

Com o clã Belmont desaparecido após Richter Belmont, coube aos Morris, uma linhagem remanescente, a enfrentar as trevas caso elas ressurgissem, utilizando o chicote Vampire Killer. A consequência é que a arma suga a energia vital de quem não é um Belmont, como supostamente ocorreu com Quincy Morris ao enfrentar Drácula em 1897.

Com o retorno precoce do Drácula mais uma vez, resta ao filho de Quincy, John Morris, empunhar o Vampire Killer. Contudo, ele não está sozinho na missão, pois conta com a companhia de outro descendente dos Belmont, Eric Lecarde, equipado com a poderosa Alucard Spear e busca vingança contra Elizabeth, que vampirizou sua noiva. Juntos, eles precisam parar o caos que assola o mundo.

A batalha de John e Eric contra Drácula tornou-se uma das mais importantes para a cronologia de Castlevania, conectando o passado com o futuro da franquia e fazendo referência direta a eventos reais. Em jogos posteriores, essa reinterpretação histórica como contexto para os jogos foi mais explorada e, mesmo que a narrativa não seja exatamente o foco dos jogos, serviu como um pano de fundo interessante para a série.

Uma aventura opressora

Ao iniciar a campanha, temos dois personagens para escolher. John Morris é mais fiel ao estilo dos caçadores de vampiros anteriores, mas traz de volta algumas habilidades como atacar com o chicote na diagonal ou para baixo (apenas enquanto pula), além de poder se pendurar em tetos para atingir locais mais distantes. Já Eric Lecarde pode atacar em qualquer direção no chão, tem um alcance de ataque maior, consegue girar a lança e realizar um super pulo, que conta com invencibilidade temporária.

Além das armas principais, a água benta, o machado e o bumerangue fazem parte do arsenal de armas secundárias, que precisam de joias como munição para serem utilizadas, ao contrário dos corações dos títulos anteriores. Também é possível encontrar itens supremos que aumentam o poder dos heróis e lhes conferem uma habilidade devastadora, sendo um dragão de água teleguiado para John e esferas destrutivas que se espalham pela tela para Eric.

A estrutura das fases é mais semelhante à dos jogos de NES, com uma progressão mais linear e mais próxima ao estilo clássico da franquia. Alguns níveis até apresentam caminhos alternativos que exploram as habilidades de cada personagem, mas são mais raros. Em compensação, Bloodlines foca bastante na ação, com diversos inimigos e armadilhas criativas que testam as habilidades do jogador.

A quantidade de chefes também é bem maior, apresentando diversos inimigos mais poderosos durante um único nível. A fase de Roma, por exemplo, apresenta três subchefes diferentes antes do confronto contra um enorme golem no final, que precisa ter seu corpo destruído para atingir o ponto vital. As lutas são extremamente divertidas e desafiadoras, apresentando adversários nunca vistos na série.

O blast processing do lado azul

Castlevania: Bloodlines explora os limites do hardware do Mega Drive de maneiras inovadoras. Além de vários inimigos construídos com múltiplos sprites, especialmente os chefes, algumas armadilhas utilizam efeitos pouco comuns na biblioteca do console. As águas da Grécia, apresentando uma simulação de reflexo nas águas dançantes, assim como o efeito de espelhos distorcendo o campo de visão do jogador na quinta fase, estão entre os usos técnicos mais criativos do console.

Embora seja um jogo bastante colorido, chegando a contrastar com a capacidade limitada de cores do console, a violência foi intensificada. Zumbis que se despedaçam no chão, harpias que perdem a cabeça e esguicham sangue, e uma fonte de água que se transforma em sangue são alguns exemplos que tinham sido pouco explorados no ambiente gótico de Castlevania até então.

A música recebeu um toque especial, feita sob medida para o YM2612, o chip de som do Mega Drive. Castlevania: Bloodlines é o primeiro jogo da série com trilha sonora liderada por Michiru Yamane, lendária compositora que participou de diversos jogos da Konami anteriormente, mas que teve seu nome consolidado entre as grandes artistas com seu trabalho em Symphony of the Night. No console de 16 bits, ela usou o puro sintetizador FM para trazer melodias góticas e de ação em um estilo orquestral, algo que poucos conseguiram fazer no videogame.

Reincarnated Soul (Stage 1)

The Siking Old Sanctuary (Stage 2)

Iron-Blue Intention (Stage 4)

O passo para um futuro decisivo

Castlevania: Bloodlines recebeu uma sequência direta 18 anos depois, no Nintendo DS, intitulada Castlevania: Portrait of Ruin. Combinando o estilo metroidvania com o estilo clássico, o jogo narra a história de Jonathan Morris, filho de John, que, com a ajuda da jovem prodígio da magia Charlotte Aulin, deve enfrentar o retorno do castelo de Drácula que, mais uma vez, ressurge antes do tempo — sem o envolvimento direto do conde, inclusive. Além de reintroduzir alguns personagens do jogo original, é o último confronto contra o vampiro até a batalha final de 1999, com o retorno de um Belmont.

Sendo um dos melhores jogos da vasta biblioteca do console, Castlevania: Bloodlines foi lançado na onda da popularidade do Mega Drive, mas conseguiu não apenas ter sua própria identidade, como também ser uma peça importante para o legado da franquia. É sempre lamentável que a franquia esteja inativa, mas sempre será prazeroso combater a noite mais uma vez.

Revisão: Heloísa D’Assumpção Ballaminut

Estudante de enfermagem de 24 anos, está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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