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Análise: El Paso, Elsewhere (Multi) é uma dolorosa expressão artística sobre deixar ir

Vampiros, lobisomens, bruxas e a sua ex são as principais ameaças neste shooter inspirado em Max Payne.

Fazer um projeto baseado em algo que amamos demanda muita coragem e ousadia. Xalavier Nelson Jr., diretor de El Paso, Elsewhere, sabia disso quando decidiu juntar a equipe da Strange Scaffold e fazer um jogo inspirado em sua série favorita: Max Payne.

Para atingir o objetivo criativo que ele tinha, a ideia não poderia ser uma cópia direta do detetive carrancudo, estragaria o legado de algo que ele apreciava. Os desenvolvedores resolveram lapidar o projeto até se tornar algo de que eles se orgulhariam. O resultado é uma viagem introspectiva sobre o amor, a perda, relações tóxicas, e os perigos de namorar a versão feminina do Drácula.

Em um motel no Texas



A primeira interação que você tem com o protagonista, James Savage, é uma súplica sobre acreditar. Ele precisa acreditar que vai conseguir voltar ao carro e impedir a sua ex, Draculae, de destruir o mundo. Ele precisa que você acredite, para que ele possa também. A cena é um momento rápido de ligação emocional que só se fortalece ao longo dos 50 capítulos de El Paso, Elsewhere.

A história base é simples: entrar no hotel, resgatar as pessoas do local e impedir Draculae de abrir um portal para o desconhecido e destruir o mundo como conhecemos. Essa premissa seria básica de qualquer filme sobre monstros dos anos 1980. O trunfo da narrativa aqui é ligar o protagonista diretamente à vilã por meio de um passado romântico. A cada fase vencida descobrimos mais sobre o passado de James, Draculae e como a relações dos dois se desenrolou ao ponto que o jogo começa.

Com bases bem sólidas de gameplay frenética com cutscenes melancólicas e introspectivas, El Paso é um campo fértil para alucinações artísticas e experimentações de design que tornam a experiência uma viagem louca, mas extremamente tocante sobre o que nos torna humanos, sendo monstros ou não.

Realidade, realismo e representação da realidade



André Bazin, famoso teórico de cinema conhecido pelos seus trabalhos sobre o realismo, destacava que ao longo da história as técnicas artísticas caminharam em direção ao realismo, representando a realidade dentro de um contexto. Essa teoria tem diferentes aplicações para o cinema, a fotografia, a pintura, etc. Nos jogos digitais, vemos uma crescente constante entre as tecnologias disponíveis e a fidelidade à realidade nos projetos contemporâneos, podendo citar Alan Wake 2 (Multi) como um dos mais recentes.

Em uma entrevista para a Kotaku, o diretor de El Paso fala sobre a pressão para que os estúdios cada vez mais se aproximem da fidelidade visual com a realidade, mas para ele, é um conceito problemático, já que quanto mais realista um jogo é, mais exige de componentes tecnológicos, recursos humanos e orçamento, o que não está sempre disponível para as equipes menores de desenvolvedores.




A solução para esses times, como os da Strange Scaffold, é encontrar uma forma de representar o mundo dentro dessas limitações. Assim como as pinturas rupestres pré-históricas que vemos em sítios arqueológicos, que não são as mais fiéis à realidade objetiva, mas representam subjetivamente, um momento, sentimental ou atividade inerente ao ser humano, e isso, é arte.

Aqui, Xalavier e sua equipe encontram no gráfico retrô, que lembra a era PS1, uma forma de tornar o desenvolvimento saudável para a equipe sem ferir o orçamento, mas é no design que os artistas brilham. Como o hotel no jogo enfrenta uma realidade que se altera constantemente, devido ao ritual de Draculae, cada fase é um espaço em branco para que a criatividade se expanda, seja em visuais, estilos ou jogabilidade.

Existem cenários que vão desde um simples corredor de hotel, passando por castelos de lendas arturianas, até tumbas do Antigo Egito, tudo bem estilizado para dar o toque da loucura desse metaverso infinito, mas também, entregar uma experiência visual que salta aos olhos, mesmo não sendo tão fiel graficamente.

Max Payne encontra Wong Kar Wai



A gameplay é o elemento mais forte de Max Payne dentro de El Paso. O clássico bullet time com pulos acrobáticos em câmera lenta enquanto dispara duas pistolas contra seus inimigos não tem erro: é divertido e dinâmico, uma verdadeira carta de amor ao jogo da Remedy. Mas ao se distanciar de Payne, vemos aonde a desenvolvedora estava indo em termos de narrativa. Confrontar um ex-amor, vindo de um relacionamento que não teve uma conclusão, dentro do contexto de apocalipse iminente, torna a jornada emocional de James uma montanha russa.

É possível traçar paralelos entre a obra da Remedy e o trabalho do cineasta de Hong Kong, Wong Kar Wai, dentro de El Paso. Wai tem uma marca característica em seus trabalhos por evocar o sentimento de solidão no contexto urbano contemporâneo, abordando relações, por vezes um tanto quanto complexas e disfuncionais, como o Policial Qiwu e a criminosa de peruca loira em Amores Expressos, de 1994. 




Em El Paso, vemos a dicotomia de Draculae, entre aquela que você ama, e aquela que vai destruir o mundo. Para o protagonista, existe uma dificuldade em encontrar sentido nessa separação. Apesar de ela ser a maior ameaça à sua existência no momento, ele ainda a ama. O game usa diversos recortes em áudios, como memórias, para construir a relação dos dois. 

A narrativa é engrandecida devido ao elenco impecável de dublagem, com o próprio Xalavier na voz de James e a atriz Emme Montgomery como Draculae. Cada monólogo do protagonista, ou devaneio com a vampira, implica em cenas memoráveis com falas que transbordam a melancolia dos personagens de Kar Wai, com o tom noir dos jogos de Payne.




Quanto mais o elevador desce no hotel, em direção à origem do ritual, e também à Draculae, vemos a deterioração do estado mental de James, enquanto o niilismo, sentimento de que a vida ou a existência em si não tem propósito, o consome com memórias de dias bons, todos relacionados à Draculae. Conforme as memórias voltam, retorna também o reconhecimento que existiam dias bons, longe da sua parceira; é uma descida ao inferno, mas também à redenção, de encontrar esperança depois do fim de um grande amor.

Anjos, lobisomens, vampiros e Hip Hop



A jogabilidade tem um loop simples: matar monstros em slow motion, salvar reféns. A solução que a equipe encontra para não tornar a experiência entediante é a adição de alguns elementos-chave que fazem toda a diferença para o jogador. Toda a trilha original do jogo é composta por RJ Lake e transita entre o hip hop, o pop e até o punk. As letras também foram escritas por Xalavier, diretor do jogo, e são um ótimo embalo para a chacina de monstros.

Cada fase aumenta exponencialmente a ameaça, começando apenas com vampiros mumificados, introduzindo gradualmente o jogador a lobisomens, anjos, bruxas, monstros gigantes de carne e até um faraó vampírico do Antigo Egito. Como a dificuldade pode ser completamente personalizada no menu, o jogo tem uma gameplay envolvente que agrada desde aos fãs de experiências hardcores, até àqueles que não tem a mira mais afiada e preferem só curtir a história.

O passado nunca vai voltar, resta apenas, seguir em frente



El Paso, Elsewhere é uma viagem melancólica sobre relacionamentos modernos, quando eles dão errados e como nos apegamos a uma vida que não existe mais. É sobre enfrentar os demônios (literalmente) e encontrar uma forma de fazer as cicatrizes irem embora. É também um videogame, e não se esquece disso em nenhum momento, com monstros, muitos tiros e um arsenal de armas para destruir qualquer ameaça em seu caminho, com muito estilo e slow motion.

Uma pena que o game não tenha tradução para o portugês, pois é curioso que, toda vez que você morre no jogo, uma grande tela com “You Keep Going” aparece em destaque. A frase “você segue em frente” é um atestado de recomeçar do checkpoint e tentar de novo, mas também é geralmente dita para aqueles que perderam um grande amor. No contexto do jogo, faz todo sentido, mas para fora dele, é um lembrete para todos que ficaram no passado: você continua seguindo em frente. 



Prós

  • Uma grande jornada emocional com uma narrativa bem escrita sobre seguir em frente e deixar o passado para trás;
  • Gameplay frenética com muito bullet time e diversidade de arsenal;
  • Chefes e minichefes, além da diversidade dos monstros, constroem uma ótima gama de ameaças;
  • Trilha sonora original que embala cada tiroteio com primor;
  • Elenco de dublagem é a alma da história, Xalavier e Emme entregam uma das melhores performances de 2023;
  • Cutscenes que esbanjam cinematografia e técnicas de storytelling visual.

Contras

  • Sem tradução para o português;
  • Os gráficos retrôs podem desagradar aos mais aficionados por fidelidade visual.
El Paso, Elsewhere — PC//XSX/XBO — Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
Análise publicada com cópia digital adquirida pelo redator

Redator publicitário em tempo integral e amante de games nas horas vagas. Provavelmente aprendi a segurar um controle mais rápido do que uma mamadeira. Cresci com os maiores clássicos da Big N como Zelda, Mario e Pokémon. Hoje aproveito os pequenos momentos de descanso da vida corrida para me perder em Hyrule, em uma Tóquio pós-apocalíptica ou em um mundo de encanadores e cogumelos.
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