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Análise: Atelier Sophie 2: The Alchemist of the Mysterious Dream (Multi) é mais uma excelente entrada da franquia de RPGs da Gust

A sequência de Atelier Sophie mostra bem a evolução da empresa, mas peca na sua finalização.

Atelier Sophie 2: The Alchemist of the Mysterious Dream
é o mais novo jogo da franquia Atelier, uma série de RPGs cujos lançamentos principais têm sido praticamente anuais desde o seu primeiro jogo, Atelier Marie (PS). Mesmo com alguns elementos similares de história e gameplay, cada título consegue ser uma entrada única e fascinante que merece atenção.
 
Como parte das comemorações de 25 anos da série, a Gust decidiu retornar ao universo da subsérie Mysterious (Sophie, Firis e Lydie & Suelle). Em uma escolha atípica para a franquia, temos o retorno da jovem Sophie em uma história praticamente independente que ocorre durante a jornada da personagem após os eventos do primeiro jogo.

Devo confessar inicialmente que minha relação com a trilogia Mysterious não é boa. Na minha opinião, os jogos originais são obras que não conseguem atingir o seu potencial. Mesmo no relançamento DX, minha experiência foi marcada por bugs e sistemas mais complexos do que o necessário. Apesar disso, Atelier Sophie 2 já se mostrou uma evolução muito significativa desde o início e, apesar de ter algumas ressalvas, considero o título um excelente exemplo do que a franquia tem a oferecer.

Explorando um mundo dos sonhos


Tudo começa em um determinado momento quando Sophie e Plachta estão em uma jornada pelo mundo. Após saírem de sua cidade natal, Kirchen Bell, a jovem alquimista e sua amiga acabam encontrando uma misteriosa árvore que havia aparecido nos sonhos de Plachta. De repente, as duas personagens são sugadas por um vórtice.
 
Quando Sophie acorda, ela está em outro mundo, chamado Erde Wiege, e Plachta desapareceu. Agora, ela terá que fazer o possível para encontrá-la enquanto descobre mais detalhes sobre a natureza desse mundo e seus habitantes. Curiosamente, lá ela encontra outra alquimista chamada Plachta que também se parece bastante com a sua amiga.
As garotas se unem a outras pessoas da cidade para realizar as buscas e também ajudar a população local. Além das duas alquimistas, a equipe principal é composta pela comerciante Alette, pelos guarda-costas Olias e Diebold e por outra alquimista chamada Ramizel, que se tornou uma figura central para o lugar. Outras pessoas importantes incluem os NPCs Kati e Gnome, que gerenciam o bar local, e Pirka, cuja loja é responsável pela duplicação e reestocagem de itens, e a deusa que criou o mundo, Elvira.
 
Erde Wiege é um mundo de sonhos para o qual as pessoas são atraídas por conta de seus desejos. Por conta disso, cada uma delas tem uma ambição que acabou as levando para esse lugar desvinculado do tempo do mundo real. No geral, pode-se dizer que os personagens são bem carismáticos e, como usual da franquia, a trama tende a ter longos momentos de slice of life.
Mesmo com a busca por Plachta e as especificidades de Erde Wiege, são os relacionamentos interpessoais e as backstories dos personagens que movimentam boa parte da narrativa. Também gostaria de destacar que a obra tem algumas referências a personagens, eventos e lugares não apenas de Atelier Sophie, como também de Firis e Lydie & Suelle. Isso ajuda a valorizar a experiência de quem já aproveitou os outros jogos, mas, por serem pequenas referências, não atrapalham a história para quem não teve essa oportunidade ainda.
 
Para quem gostaria de saber mais sobre os eventos de Atelier Sophie, o jogo conta com uma apresentação curta dos detalhes mais relevantes da narrativa como elemento opcional do menu inicial. Ele é sucinto e bem satisfatório e a narrativa principal consegue não depender tanto de conhecimentos prévios por se passar em outro mundo.

Um puzzle alquímico baseado em elos elementais

Um elemento fundamental de Atelier é a alquimia, elemento que definiu a série desde sua criação, apesar de ter tido sua relevância reduzida na trilogia Iris do PS2. Cada trilogia utiliza representações diferentes desse sistema que é uma forma complexa e detalhada de síntese de itens. Com Sophie 2 sendo um retorno à saga Mysterious, temos aqui uma nova evolução para o Panel Synthesis.
 
Esse sistema de alquimia é representado como se fosse um puzzle no estilo match-3. Cada ingrediente possui determinados elementos que devem ser posicionados em um tabuleiro para poder desbloquear atributos dos itens. O conceito é simples, mas obter as melhores possibilidades de uma síntese pode ser bem complexo e demandar conhecimentos mais avançados.

Em particular, vale destacar o uso de catalisadores. Com eles, é possível ampliar o tamanho do tabuleiro e até mesmo mudar a lógica da síntese, por exemplo, fazendo com que elementos adjacentes sejam coloridos da mesma cor do último a ser posicionado.

De modo geral, trata-se de um sistema intuitivo que vai demonstrando a sua complexidade aos poucos. Conforme realiza determinadas ações, o jogador irá liberar novas receitas que ganham cada vez mais complexidade tanto pelos itens exigidos quanto para o posicionamento de elementos no caldeirão.
 
O jogo também conta com um sistema de duas alquimistas (Sophie e Plachta), sendo algumas receitas exclusivas de cada personagem. Na prática, isso acaba sendo uma forma de restrição do jogo, forçando o jogador a aumentar o Alchemy Lv. de ambas para avançar por certos pontos da trama.

Uma jornada pelos melhores ingredientes

Para poder criar os melhores itens, é essencial ter bons materiais e essa necessidade é uma motivação para explorar as áreas do jogo. Inicialmente, Sophie pode usar apenas o seu báculo e suas mãos para pegar o que encontra pelo caminho. Porém, objetos como vara de pescar, foice e martelo também precisam ser criados para poder obter alguns materiais específicos.
 
Além da coleta básica, esses artefatos também permitem acessar o chamado Major Gathering. Eles funcionam como uma espécie de minigame que é ativado em pontos de coleta que brilham mais do que o normal. Neles, é possível escolher um único material e o resultado do minigame (que muda de acordo com o artefato equipado) adiciona novos elementos, melhora qualidade/quantidade dos materiais obtidos, entre outras vantagens que podem fazer uma grande diferença na síntese.

Outro elemento importante da exploração são os climas. Cada região de Erde Wiege tem um clima fixo padrão, porém, o jogador irá liberar pedras elementais ao longo do tempo. Com elas, será possível fazer chuva ou sol, chamar trovões e neve ou elevar certas plataformas com vento, além de serem um elemento de puzzle que afeta o progresso, liberando/bloqueando certas áreas do mapa, os inimigos e materiais encontrados nas áreas mudam.
 
Por fim, vale a pena destacar que existe um sistema de landmarks. Basicamente, os personagens da equipe ganham AP (pontos de habilidade) quando encontram um dos pontos relevantes do mapa pela primeira vez. Esses pontos podem ser usados para desbloquear vantagens passivas e habilidades ativas, também sendo obtidos com o ganho de níveis.

Todos esses elementos ajudam a valorizar a exploração, oferecendo recompensas para o jogador. O sistema de climas em particular é bem interessante e afeta também o combate com alguns chefes, fornecendo buffs e debuffs.

Enfrentando escudos em um pesadelo

Em termos do combate, Atelier Sophie 2 conta com um sistema baseado em turnos em que é possível usar três personagens na frente e outros três como reserva. Curiosamente, o jogo inclusive prioriza uma formação que mantenha um personagem na reserva mesmo quando não há três aliados ativos para que o jogador possa explorar o sistema de invocar da reserva.
 
Para trocar de um personagem para outro, é necessário gastar TP. Esses pontos são obtidos durante a batalha ao defender, atingir fraquezas dos inimigos e realizar algumas outras ações. A troca pode ser feita como uma forma de ataque ou de defesa, sendo bastante vantajoso utilizar esse sistema.

Como forma de "ataque", tanto o personagem que está saindo quanto o que está entrando usam habilidades ativas no mesmo turno. Há ainda uma vantagem especial de que o segundo ataque causará dano ignorando as defesas dos inimigos. Vale a pena destacar que também é possível usar itens e golpes de buff/cura ao invés de ataques.

Já como defesa, é possível usar TP para proteger um aliado de um golpe inimigo. O novo personagem entra em posição de guarda, tendo o dano reduzido. Além disso, são ativados os efeitos do talismã equipado, que pode aumentar a sua defesa, o número de ataques básicos, a resistência a determinado elemento, entre outros atributos, sendo possível até mesmo refletir alguns ataques. Vale destacar que esses efeitos também são ativados quando um aliado ativo usa o comando de guarda.
 
Conforme o jogador troca de personagem, são obtidos pontos DG, que, ao contrário do TP, são carregados de uma batalha para outra. Ao atingir a marca de 100%, é possível utilizar golpes especiais de parceria entre dois aliados. Esses poderes são obtidos em certos eventos no ateliê, existindo múltiplas combinações.
Outra funcionalidade especial de Sophie 2 é a mecânica de auras. A partir de certo ponto do jogo, inimigos podem invocar esse poder no início do combate, que é um grande escudo que reduz significativamente o dano recebido.
 
Existem tipos diferentes dessa mecânica, associados a poderes elementais ou a conceitos mais amplos como "ataques físicos/mágicos". De forma geral, cada tipo tem uma fraqueza específica, que vale a pena explorar para destruir o escudo o mais rápido possível. Ao contrário, usar determinados golpes para os quais aquela aura tem resistência levará a um golpe de reação do oponente. Em particular no combate contra os chefes, dar mais turnos para o inimigo pode ser fatal.
Há também alguns golpes específicos que reduzem aura e é possível explorar debuffs e efeitos especiais como paralisia até mesmo contra os chefes mais poderosos. O resultado é um jogo cujo combate é muito rico em estratégias, aproveitando uma variedade de efeitos obtidos em alquimia para a produção de itens e equipamentos.

Também gostaria de destacar que a transição de batalha do jogo é muito fluida. Ao encostar em um inimigo, o jogo muda para a configuração dos turnos como se fosse apenas uma mudança de interface e posicionamento de câmera. Inclusive, os inimigos são dispostos em grupos e seus outros aliados também estão visíveis na área.

Porém, gostaria também de frisar o ponto mais negativo do jogo. A sua reta final é uma grande enrolação em que é necessário enfrentar vários chefes acima do nível máximo do jogador (que é limitado ao 50). Incapaz de utilizar grinding a seu favor, o jogador tem apenas duas opções: obter uma boa build ou reduzir a dificuldade para o seu nível mais baixo, Easy. Apesar de ser tradicional da série ter formas de aproveitar a alquimia para não ter que ficar lutando por níveis, a reta final acaba sendo uma barreira mais artificial do que todo o resto do jogo.

Mais um grande acerto da Gust

Atelier Sophie 2: The Alchemist of the Mysterious Dream é uma excelente adição para uma franquia de RPGs de alta qualidade. Apesar da reta final acabar enfraquecendo um pouco a experiência ao se delongar mais do que deveria e dificultar o progresso, ele mostra de forma clara a grande habilidade da desenvolvedora Gust e qualquer fã de RPGs deveria dar uma oportunidade ao jogo.

Prós

  • Sistema de auras valoriza o planejamento estratégico de ataques no combate;
  • Um dos sistemas de alquimia mais ricos e complexos da franquia inteira;
  • Exploração é valorizada com o sistema de climas, a coleta e os landmarks;
  • Personagens carismáticos e história com conexões simples, porém interessantes com os outros jogos da trilogia;
  • Transição fluida do campo para as batalhas.

Contras

  • Reta final do jogo é uma grande enrolação;
  • Limite baixo de nível, especialmente levando em conta a força dos chefes finais.
Atelier Sophie 2: The Alchemist of the Mysterious Dream - PC/PS4/Switch - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela Koei Tecmo America


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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