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Análise: Nobody Saves the World (Multi) tem metamorfoses e humor em um charmoso RPG de ação

Transforme-se em criaturas peculiares para superar os desafios de um universo pitoresco.


O mundo de Nobody Saves the World foi tomado por uma força corrompida e o único que pode resolver a bagunça é um Zé-ninguém sem nome que, por acaso, encontra uma varinha mágica que lhe permite assumir diferentes formas. O novo jogo da produtora indie Drinkbox (de Guacamelee!) é um RPG de ação acessível e colorido que tem como maior destaque a customização: é possível misturar habilidades e ataques das transformações. Suas ideias não são muito originais, mas o andamento ágil, o mapa vasto e o combate empolgante tornam a experiência bem agradável.

Um Ninguém tentando salvar o mundo

Um poder maligno chamado Calamidade surgiu e espalhou o caos: inúmeros monstros apareceram, um estranho fungo corrompeu a flora e certos locais tiveram sua topografia completamente distorcida. Resolver isso não seria problema para Nostramagus, o feiticeiro mais poderoso do reino, mas ele desapareceu misteriosamente. No meio dessa bagunça surge Ninguém, um homem com amnésia que acaba encontrando a varinha mágica de Nostramagus. De posse deste artefato, o anônimo decide enfrentar a Calamidade ao mesmo tempo em que procura recuperar suas memórias.


Ninguém é completamente indefeso e seus tapas mal conseguem espantar besouros inofensivos. Por sorte, com o poder da varinha mágica, ele pode se transfigurar em inúmeras outras formas, que é a mecânica principal de Nobody Saves the World. Cada transformação tem características distintas: o rato consegue se esgueirar em túneis estreitos, o cavaleiro tem boa defesa e ataque, a caçadora atinge inimigos de longe com flechas, o cavalo tem boa mobilidade e atropela grupos de monstros, e assim por diante.

Podemos alternar livremente entre as transformações e novas opções são liberadas com o decorrer da jornada, o que expande as possibilidades de combate e exploração. Partes com água, por exemplo, só podem ser atravessadas pela tartaruga ou pela sereia. Alguns inimigos contam com barreiras que só podem ser destruídas por ataques de tipos específicos, nos forçando a trocar de personagem para conseguir derrotá-los. Sendo assim, para avançar, é essencial mudar de forma com frequência.


Um recurso interessante de Nobody Saves the World é a customização: podemos misturar as habilidades e os ataques das formas já desbloqueadas. Essa opção permite criar algumas combinações curiosas, como um ovo que atira flechas venenosas ou uma lesma que lança lágrimas paralisantes. Para liberar novas habilidades, é necessário completar missões diversas. Algumas delas são bem simples, como derrotar inimigos com um ataque específico, já outras têm condições mais complicadas, como usar uma característica passiva de outra forma para infligir estados negativos.

Usando transmutações curiosas para enfrentar o caos

Em Nobody Saves the World, na maior parte do tempo, enfrentamos inimigos no combate em tempo real. O conceito é muito simples: basta apertar botões para desferir ataques contra grupos de monstros. Particularmente, achei bastante divertido customizar as formas e usar diferentes golpes para derrotar grupos de monstros, principalmente por causa das mecânicas descomplicadas. Além disso, as missões exclusivas de cada transformação me incentivaram constantemente a experimentar, por mais que o grind exigido por essas tarefas tenha se tornado um pouco cansativo mais para o final do jogo.


A diversidade e a criatividade das diferentes transformações também são destaques em Nobody Saves the World. Algumas delas são bem tradicionais, como o cavaleiro e a arqueira, mas o jogo não tem medo de ser maluco e oferece algumas opções curiosas. A forma de zumbi, por exemplo, infecta os inimigos e os transforma em aliados mortos-vivos. O ilusionista ataca com cartas e é capaz de tirar coelhos da cartola, que agem sozinhos e golpeiam monstros distantes. O fantasma não é forte, mas sua aura assustadora amedronta oponentes, que saem correndo. Há uma boa variedade de formas para controlar, e as opções de customização oferecem muitas possibilidades.

No começo as batalhas até podem parecer um simples apertar de botões, porém existem vários detalhes que demandam atenção. Muitos inimigos contam com uma barreira que os protege completamente de dano, e para quebrá-las precisamos utilizar algum tipo de ataque específico. Por causa disso, precisamos trocar de forma ou escolher técnicas de acordo com a situação. Além disso, certos oponentes são mais perigosos que outros, e quando vários tipos diferentes atacam juntos a dificuldade aumenta consideravelmente.


Há um bom balanceamento de dificuldade, no entanto o combate fica banal com certa frequência. Em muitas ocasiões, basta segurar o botão de ataque para dizimar facilmente grupos de monstros. Em alguns calabouços, inclusive, aparecem grandes quantidades de inimigos que não exigem estratégia alguma para serem derrotados — chegou um momento que cansei da repetitividade deles e simplesmente os ignorei e avancei. É também nesses momentos em que o caos visual atrapalha: quando há muitos elementos na tela, é difícil entender o que está acontecendo. Felizmente esses problemas são pontuais e comprometem pouco a experiência.

O carisma e a variedade de um mundo exótico

Fora o combate, Nobody Saves the World conta com um universo pitoresco a ser explorado. O mapa tem vários segredos e conteúdo opcional, e muitas das situações envolvem utilizar as transformações de jeitos diferentes. Em uma missão, por exemplo, precisamos usar cinco formas para poder burlar a limitação de comprar um único item por pessoa em uma loja. Para liberar uma das últimas transmutações, precisamos encontrar ninhos espalhados pelo mundo para chocar a forma de ovo. Me diverti bastante vasculhando cada cenário e muitas vezes me esqueci completamente da missão principal.


Há também desafios atrelados à técnica, como uma arena em que precisamos derrotar inimigos com barreiras dentro de um limite de tempo ou um minigame de tiro ao alvo com a arqueira. Além de destreza, é necessário também criatividade: boa parte das versões avançadas desses desafios só podem ser vencidas ao customizar as formas com as habilidades corretas.

O mundo do jogo conta também com vários calabouços que, infelizmente, se revelam um dos pontos fracos do jogo. Estes locais não passam de simples salas com inimigos com caminhos lineares, bastando chegar ao final para completá-los. Certas masmorras têm portas trancadas que exigem chaves ou derrotar uma quantidade específica de oponentes para serem abertas, mas isso pouco contribui para deixá-las interessantes. A partir da metade da aventura aparecem calabouços com efeitos especiais, como um castelo em que todo dano é sempre de 9999 ou uma caverna em que a cura também afeta os inimigos, o que ajuda a trazer um pouquinho de variedade.


Fora isso, Nobody Saves the World cativa com sua atmosfera bem humorada e extravagante. Tudo é bem colorido e pitoresco, e a direção de arte é no mínimo peculiar: os personagens têm reações bastante exageradas e alguns deles contam com visual bem exótico. As formas do protagonista seguem a mesma regra da maluquice, com uma sereia nada convencional, uma lesma fofinha e até mesmo um marombeiro que ataca com uma barra de supino. O texto está completamente em português e a adaptação é repleta de frases divertidas.

Uma jornada peculiar e envolvente

Nobody Saves the World é uma criativa e exagerada interpretação dos RPGs de ação. O maior destaque é a variedade de transformações bizarras com habilidades e características diferentes, e as opções de customização abrem várias possibilidades na hora de enfrentar os desafios. Além disso, o mundo vibrante, bem humorado e repleto de conteúdo nos instiga a experimentar constantemente.

Mesmo assim, alguns detalhes incomodam, como os calabouços nada criativos, superficialidade de alguns combates e os momentos de repetição. No entanto, a atmosfera carismática e colorida, em conjunto com as mecânicas ágeis, atenuam os problemas. No fim, Nobody Saves the World é uma experiência leve e divertida.

Prós

  • Muitas formas diferentes, em conjunto com opções de customização, trazem variedade ao combate;
  • Mundo vasto e repleto de segredos e conteúdo opcional para explorar;
  • Atmosfera colorida e bem-humorada.

Contras

  • Os calabouços têm mapas e progressão desinteressantes;
  • Alguns combates são banais e não exigem estratégia alguma;
  • A necessidade de grind para liberar conteúdo deixa alguns momentos meio repetitivos.
Nobody Saves the World — PC/XBO/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pelo DrinkBox Studios

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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