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Análise: Guacamelee! 2 (PC/PS4) — maior, mais maluco e mais difícil

A continuação do metroidvania com elementos de luta livre refina os conceitos de seu predecessor em uma aventura bem humorada.


O luchador Juan está de volta em Guacamelee! 2, sequência do colorido metroidvania com temática mexicana. Desta vez, o herói precisa ir para uma dimensão paralela a fim de impedir que o Mexiverso seja destruído. O combate repleto de movimentos corpo a corpo e a troca de dimensões estão de volta em uma aventura repleta de momentos intensos que exigem muita destreza. A desenvolvedora Drinkbox Studios se concentrou em desenvolver mais os elementos característicos da franquia, sendo o resultado uma aventura sólida — e, também, bem louca.

Uma linha do tempo sombria

Depois dos acontecimentos do primeiro jogo, Juan se aposentou da vida de luchador e agora tem uma vida tranquila com sua família. Mas a paz acaba quando estranhos buracos negros aparecem pelo mundo: o Mexiverso está em perigo e as várias realidades estão se misturando. Sendo assim, Juan precisa ir para outra dimensão e vestir a máscara de luchador para tentar impedir os planos do maligno Salvador, que procura um artefato extremamente poderoso.

Guacamelee! 2 segue a estrutura já estabelecida no anterior, ou seja, é um título de ação e plataforma com características do subgênero metroidvania. Juan e seus amigos exploram a “linha do tempo sombria” e seus mapas imensos e repletos de segredos, sendo que algumas áreas só podem ser acessadas após adquirir habilidades específicas.


Algumas mecânicas fazem com que Guacamelee! se diferencie de outros jogos do gênero. A primeira delas é a troca de dimensões: os heróis conseguem alternar entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Essa habilidade é essencial para avançar, pois alguns obstáculos e inimigos só se encontram em um dos dois planos. O combate corpo a corpo flexível e repleto de movimentos de agarrão é a outra característica marcante de Guacamelee!.

Resolvendo puzzles de plataforma

Em um primeiro momento, Guacamelee! 2 pode parecer uma sequência conservadora por ter poucas novidades significativas em relação ao primeiro. O novo jogo introduz um movimento de locomoção para a forma humana, algumas novas habilidades para a transformação de galinha e multiplayer cooperativo para até quatro jogadores. Há, também, a possibilidade de adquirir habilidades passivas ao realizar tarefas de mestres espalhados pelo jogo — são melhorias como diminuir custo dos golpes especiais, aumentar o dinheiro recebido e fortalecer a resistência contra investidas inimigas.

As maiores mudanças em Guacamelee! 2 estão na estrutura da aventura, resultando em uma experiência familiar e bem diferente ao mesmo tempo.


Ao contrário de outros metroidvanias, Guacamelee! 2 é bem linear, com várias áreas interconectadas que lembram pequenas fases e puzzles individuais. Existem, sim, alguns trechos opcionais e tesouros escondidos, mas na maior parte do tempo só há um caminho para seguir. As situações abusam das habilidades dos heróis com momentos em que precisamos utilizar golpes na ordem certa para alcançar plataforma, trechos em que é necessário trocar rapidamente de dimensões para evitar perigos e partes que exigem habilidade e reflexos rápidos.

Os melhores momentos do jogo são as salas opcionais, pois elas apresentam desafios mais complicados e criativos. Em uma delas, por exemplo, as paredes estão repletas de espinhos e precisamos trocar de dimensão constantemente para controlar a direção do vento para conseguir chegar no final. Outro local exigia mudar para a forma de galinha no meio do ar, em momentos específicos, para alcançar plataformas. Uma terceira sala tinha espinhos no caminho de saltos, exigindo o uso constante da esquiva aérea. Esses desafios ficam mais complexos conforme obtemos mais habilidades e é muito recompensador conseguir resolvê-los. As áreas adicionais, que só podem ser acessadas no final da jornada, em especial, são bastante complicadas e me fez lembrar o gênero masocore — levei mais de meia hora em algumas delas.


Gostei bastante da criatividade e variedade das salas de desafio, porém algumas delas contam com a presença desagradável de tentativa e erro. Em muitos momentos, não há momento hábil para reagir aos obstáculos que aparecem no meio do caminho, nos forçando a decorar os passos enquanto tentamos de novo e de novo. Por sorte, o reinício após morrer é rápido, mas não deixa de incomodar.

Muitos sopapos na vida de luchador

O combate alterna com os momentos de plataforma e é bem divertido: os heróis têm a disposição vários diferentes golpes e a montagem de combos é bem flexível. É possível, por exemplo, lançar um inimigo no ar com um gancho, depois acertá-lo com uma cabeçada e, por fim, agarrá-lo com um pilão. Dessa vez, a forma de galinha também tem movimentos de luta e participa mais ativamente dos combates.

As batalhas são rápidas e frenéticas, com grande variedade de inimigos que exigem estratégias diferentes. Alguns monstros, por exemplo, têm barreiras coloridas e só levam dano depois que acertamos o ataque especial correspondente — a aura vermelha exige um gancho, a verde é quebrada com a barrigada, e assim por diante. Já algumas criaturas só podem ser atingidas em momentos específicos, como depois de uma esquiva. A sequência conta com uma quantidade bem maior de inimigos, o que deixa o combate bem interessante.


A combinação de diferentes inimigos e condições faz com que os confrontos sejam muito intensos, exigindo atenção constante. Algumas arenas de combate também apresentam aspectos de puzzle com a presença de inimigos que precisam ser derrotados em ordem específica ou então com algum elemento do cenário atrapalhando a luta (buracos, espinhos, lava). Alguns chefes também exigem passos específicos para deixá-los vulneráveis.

Guacamelee! 2 não é um jogo com combate difícil, pelo contrário: na maior parte do tempo, é bem tranquilo detonar os inimigos. Por me considerar veterano, decidi jogar no modo Difícil e, mesmo assim, só tive dificuldade real em algumas arenas — nessa modalidade, apareceram situações com inimigos que matam com dois golpes. Mesmo assim, montar combos estilosos e dar cabo de muitos oponentes simultaneamente é muito divertido, mesmo na dificuldade normal.


Loucura em um universo com inspirações mexicanas

Assim como no primeiro jogo, a aventura para salvar o Mexiverso conta com visual impactante repleto de ângulos e cores, remetendo bastante à cultura mexicana. Um detalhe muito legal é o Mundo dos Mortos: padrões intrincados, caveiras felizes e luzes fazem com que essa dimensão, às vezes, passe mais alegria do que o mundo dos vivos. A música complementa sensação de “México moderno” com composições que misturam elementos tradicionais, como cornetas, e recursos eletrônicos.

Em um primeiro momento, o visual pode parecer intocado em relação ao primeiro, porém rapidamente dá para perceber que os gráficos estão mais elaborados com a presença de efeitos de luz, sombras dinâmicas e borrões durante certos movimentos. O resultado é um mundo mais bonito, por mais que o tema das áreas seja um pouco conservador.


E, claro, não seria Guacamelee! se não fosse maluco. A sequência continua com a ambientação bem humorada recheada de referências, memes, vilões caricatos e mais — é um jogo que não se leva a sério. Pelo caminho, Juan encontra poderes extremamente úteis (como a habilidade de piscar mil vezes em um segundo) e adquire aliados poderosos (o Papa sagrado das Galinhas Illuminati, claro). O universo pode estar acabando, mas nada impede que todo mundo faça piada das situações.

O jogo conta com ótima localização para o português, incluindo referências da nossa cultura, sendo um exemplo um momento em que Juan começa a bater num fusquinha e o dono diz "esse amassado não vai sair com o martelinho de ouro!". Me diverti bastante, também, identificando as inúmeras referências — reconheci coisas de Celeste, Lovers in a Dangerous Spacetime, God of War e mais.


Uma sequência de respeito

Um extenso mundo colorido e muito humor resumem Guacamelee! 2. A sequência não traz mudanças drásticas, porém a aventura oferece uma experiência bem distinta por se concentrar em trechos contidos de exploração que usam as habilidades de maneira criativa. O combate continua flexível e divertido, e a adição de novos inimigos exige novas estratégias. Essas novidades resultam em uma aventura mais intensa e repleta de momentos difíceis, atrapalhada somente por alguns momentos de tentativa e erro. E, claro, a presença de texto divertido, memes e muitas referências deixam a experiência bem agradável. Guacamelee! 2 se concentra em refinar os melhores aspectos do antecessor e é justamente isso que o torna excelente.

Prós

  • Combate ágil e flexível;
  • Muitas sessões de plataforma que utilizam os movimentos de maneira interessante;
  • Visual agradável repleto de elementos angulados e muita cor;
  • Ambientação bem humorada e com texto divertido.

Contras

  • Poucas novidades significativas em relação ao primeiro título;
  • Muitos momentos de tentativa e erro.
Guacamelee! 2 — PC/PS4 — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
Análise produzida com cópia digital cedida pela Drinkbox Games
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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