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Análise: Lemnis Gate (Multi) mistura estratégia e tiro de uma forma atemporal, única e divertida

Repleto de boas qualidades, sobretudo nas mecânicas originais, o game é uma ótima experiência com muito potencial.


Procurar por experiências únicas nos videogames é uma prática bastante saudável. Afinal, nada como sair um pouco do seu quadrado e conhecer ideias novas e interessantes, não é mesmo? Lemnis Gate é um lançamento que se enquadra perfeitamente nessa sugestão, trazendo um FPS em meio a loops temporais repletos de estratégia. Curioso? Então se prepare para conhecer uma experiência única e divertida.

Direto do túnel do tempo

Depois de um adiamento no início de agosto, finalmente Lemnis Gate chegou no dia 28 de setembro para PlayStation 4, Xbox One e PC, além da nova geração via retrocompatibilidade. A proposta básica do game é a seguinte: dentro de um loop temporal de 25 segundos, o jogador deve realizar suas ações, como se posicionar, atirar e utilizar habilidades. Ao final do prazo, é a vez do adversário fazer a sua jogada.

A questão é que cada nova rodada repete o que aconteceu antes; em outras palavras, é como se vivêssemos o passado ao vivo e pudéssemos não só fazer uma nova jogada, mas também alterar o que aconteceu. Essas idas e vindas temporais acontecem em cinco turnos e vence quem fizer mais pontos no final, de acordo com o tipo de desafio disputado. Sei que parece um pouco confuso, mas acredite em mim quando digo que a ideia, além de única, é ótima.
 
Durante os 25 segundos de ação, Lemnis Gate funciona como um jogo do tipo FPS relativamente convencional. São sete personagens diferentes, cada um com uma arma e uma habilidade exclusivas. As classes incluem Artilheiro, com sua sniper mortal, Vendeta, que conta com torretas e uma escopeta, Toxina, com um canhão venenoso, entre outras tão curiosas quanto essas.
Seja qual for o seu favorito, lembre-se que todos os personagens são úteis
O quesito estratégia vem da escolha de qual tipo de personagem usar e qual será o curso de ação em cada rodada. Devo partir para cima do oponente para vencer o turno ou então criar armadilhas para as futuras jogadas? Essa dualidade entre agir ou preparar exigida do jogador torna cada partida única e emocionante, exigindo pensamento tão rápido quanto o dedo no gatilho (e vice-versa).

Estratégia e tiro: unam-se!

Lemnis Gate não tem um cross-play completo entre todas as plataformas, o que provavelmente contribui para a oferta de partidas (que falarei logo adiante). Mais um item para a lista de melhorias, que, apesar de considerável, não compromete toda a diversão que o game tem a oferecer.  Confesso que, como fã de jogos de tiro como Doom Eternal e Call of Duty, a adaptação ao funcionamento de Lemnis Gate foi sofrida e demorei para começar a aproveitá-lo. Intuitivamente, eu saía atacando os inimigos sem pensar na partida como um todo.

Assim, a cada nova rodada, eu era gradualmente dominado pelo meu oponente, mesmo atirando tão bem quanto ele. Conforme eu disputava novas partidas, comecei a pegar o jeito do game e as coisas começaram a fluir e proporcionar um entretenimento único. A escolha dos personagens também melhorou com o passar do tempo, pois cada um deles tem características únicas, adequadas para as diversas situações que podemos encontrar.

Li em alguns sites que Lemnis Gate é como um “xadrez com armas”. Apesar de entender a intenção por trás da expressão, ela é bastante equivocada. Embora o quesito estratégia seja essencial, a ação é tão importante quanto. Não adianta nada montar um plano bem definido com um oponente jogando de forma desleixada se você atirar pior do que ele, ou cair toda hora para fora do cenário.

O modo fantasma, ativado ao perdermos o personagem, traz ainda mais possibilidades
Em outras palavras, ter agilidade e bons reflexos é vital, assim como planejar cada jogada. Essa mistura ocorre de maneira orgânica no game, que apesar de ter alguns problemas que veremos a seguir, é uma diversão genuína e ímpar. Nunca havia jogado nada parecido que, mesmo com uma inovação significativa, conseguisse manter uma qualidade tão alta. O tempo dirá até onde esse título poderá chegar.

Aprender no passado para vencer no presente

As partidas também podem ser realizadas em rodadas simultâneas, em que os dois jogadores realizam suas rodadas ao mesmo tempo. Embora isso pareça uma quebra da proposta básica de Lemnis Gate, asseguro que tudo funciona bem. O combate direto certamente é uma opção ainda mais crítica nesse modo, mas um planejamento futuro adequado pode ser determinante para a vitória.

O jogador pode, por exemplo, disparar ataques ou deixar armadilhas em pontos onde, provavelmente, o inimigo poderá estar em rodadas futuras. A presença de fogo amigo aumenta ainda mais o cuidado a cada turno, pois sofrer dano ou até matar um personagem em pleno loop pode comprometer a partida. Além disso, cada classe só pode ser usada uma vez por partida, então cuidado ao escolher a sua jogada.

Para se preparar para a ação, os jogadores têm intervalos entre as rodadas. Um drone pode ser controlado pelo cenário durante esse tempo, auxiliando um estudo do que está (ou estava) acontecendo para auxiliar no que pode (ou poderá) acontecer. As partidas incluem o clássico mata-mata além dos modos localizar e destruir (um time defende alvos e o outro deve destruí-los), domínio (vence quem dominar aceleradores ao atirar neles) e um para recuperar itens espalhados pelo cenário.

Localizar e destruir é um dos modos mais estratégicos do game
A última variação disponível é a possibilidade de disputas em duplas. Imagine multiplicar todos os modos que expliquei anteriormente por dois e você terá uma ideia do caos que isso pode gerar. Cada um deles é divertido à sua maneira, mas torço para que eles sejam somente a ponta do iceberg. Afinal, as mecânicas únicas do título são ótimas e precisam ser exploradas com novas alternativas e eventos, sobretudo cooperativas, em futuras atualizações.

Vale a pena esperar

É importante ressaltar que Lemnis Gate tem visuais relativamente modestos, mas bonitos e interessantes. A jogabilidade funcional é agradável, mas nada muito além disso. Controlar e atirar com os personagens não é uma experiência otimizada como na maioria dos jogos de tiro, exigindo algum tempo de adaptação para os novatos. O maior problema, entretanto, é a questão online, que tem problemas em praticamente todos os quesitos.

Para começar, por diversas vezes precisei esperar alguns minutos por uma partida. Isso variou muito dependendo do dia e do horário, mas no geral foi tedioso. A estabilidade durante as disputas também carece de cuidados: o jogo já tem mecânicas temporais difíceis, então imagine ver seu oponente se teletransportar na sua frente ou você tentar “entrar” cenário adentro devido a soluços na conexão. Finalmente, o matchmaking me colocou algumas vezes contra adversários claramente mais bem preparados e treinados.

Provavelmente essa última crítica tenha relação com a primeira, o que acaba forçando o game a montar salas com jogadores de níveis de experiência distintos. Devido a sua complexa mistura de estratégia e tiro, qualquer erro pode ser quase impossível de recuperar. Lembre-se que habilidade sozinha não é suficiente e que um adversário em vantagem pode enrolar uma partida até vencer.

Não entenda esse comentário como uma crítica em si, mas como um exemplo de que Lemnis Gate precisa rodar bem para ser divertido e competitivo. Quando tudo funciona adequadamente, as partidas são incríveis e emocionantes. Uma boa rodada pode mudar o rumo do jogo, seja um lance de habilidade, uma sacada inteligente ou ambos, o que é ainda mais legal. Sugiro fortemente jogar com os amigos, o que permite estratégias bem elaboradas (joguei contra uma dupla assim e a diferença foi clara).

Ótimo experiência e com muito potencial

São 12 cenários diferentes disponíveis para competir, mas cada um deles só poderá ser usado em um dos modos de jogo mencionados. Alguns deles apresentam vantagens para quem começar de um determinado lado do mapa, o que pode ser um tanto frustrante. O mesmo pode ser dito para quem começa as partidas não simultâneas, pois o segundo a jogar pode ver o que o adversário fez e reagir adequadamente.
Os cenários, como o mapa Quimera, são bastante bonitos e variados

Como solução, o game propõe “duas partidas” para as disputas, de modo que o vencedor é o time com maior número de pontos (de acordo com o tipo de partida). Essa rotação, na prática, favorece os jogadores que tendem a jogar defensivamente. Erros normalmente resultam em contra-ataques perigosos, o que pode desestimular jogadores ofensivos. Questões como essas tornam clara uma necessidade de Lemnis Gate: balanceamento.

As individualidades dos personagens tornam esse ponto ainda mais evidente. Certos duelos de classe são muito desequilibrados, assim como algumas habilidades um tanto desproporcionais. Admito que o balanceamento de um jogo não é simples e exige tempo para ser realizado. Ele, entretanto, será vital para manter o game competitivo e equilibrado, sobretudo quando os jogadores começarem a entender quais personagens e jogadas são melhores para cada situação, o que diminuirá a variedade e a criatividade gerais.

As personalizações estão escondidas por vários requisitos e restrições
Outro ponto que ainda precisa de melhorias é o sistema de níveis e recompensas. Joguei uma boa quantidade de partidas e liberei apenas duas moedas Hex para comprar algum cosmético visual ou para ajustar uma arma. Ou seja, personalizar o seu estilo de jogo, seja estético ou funcional, é uma tarefa bastante lenta. Como nenhuma dessas mudanças altera profundamente as partidas, não chega a ser um problema sério, mas ele deve sim ser melhorado futuramente.

De Volta Para O Futuro

A minha expectativa por Lemnis Gate era grande, mas minha curiosidade era ainda maior. Afinal, como unir gêneros tão diferentes em um jogo divertido e competente? A resposta foi respondida com méritos, como pode ser conferido neste FPS de estratégia temporal com boa jogabilidade, visuais bonitos e mecânicas únicas. Ele tem algumas coisas para melhorar, sobretudo nos quesitos online e de balanceamento, mas já é uma opção muito recomendada para a sua biblioteca e poderá ser ainda melhor se aproveitar todo o seu potencial.

Já era tempo de um novo e divertido game: Lemnis Gate

Prós

  • Mistura dos gêneros tiro e estratégia usando viagens no tempo é divertida e viciante;
  • Jogabilidade é exigente, mas funciona muito bem;
  • Mecânicas de jogo bem pensadas e com desdobramentos incríveis;
  • Gráficos de boa qualidade;
  • Modos de jogo disponíveis são brilhantes e demonstram o potencial do game;
  • Boa variedade de personagens e cenários.

Contras

  • Modo online precisa ser mais estável, melhorar seu matchmaking e, principalmente, ter mais jogadores;
  • Faltaram outros modos de jogo, como propostas cooperativas, e mais customizações;
  • Modos existentes e personagens precisam de um balanceamento contínuo.
Lemnis Gate — PC/PS4/PS5/XBO/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS4 (via retrocompatibilidade)
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia cedida pela Frontier Foundry

é produtor de conteúdo sobre games desde julho de 2016 e um grande fã da décima arte, embora não tenha muito tempo disponível para ela. Seus games favoritos (que formam uma longa lista) incluem: Kingdom Hearts, Guitar Hero, Zelda, Crash, FIFA, CoD, Pokémon, MvC, Yu-Gi-Oh, Resident Evil, Bayonetta, Persona, Burnout e Ratchet & Clank. @MatheusSO02


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