Minecraft (Multi): uma resposta à falta de criatividade dos jogos

O game trouxe um pouco da inovação que a indústria estava precisando e é relevante até hoje.











Quem costuma jogar videogame com certa frequência provavelmente já notou a crescente falta de criatividade presente na maioria dos jogos de alto orçamento. Atualmente, a produção de grandes games tem custos altíssimos, muitas vezes se equiparando com a dos maiores filmes hollywoodianos. E por causa disso, cada vez menos empresas de jogos têm se disposto a investir em projetos grandes com propostas muito diferentes do convencional, exatamente como acontece na indústria cinematográfica. 

Hoje, boa parte dos jogos inovadores costumam vir de desenvolvedoras indies, que, como o nome já indica, são independentes de grandes distribuidoras. Livres para trabalhar como quiserem, a maioria das desenvolvedoras independentes apostam em projetos mais diferentes do convencional, que nem sequer são pensados para vender milhões de cópias. Nessa parte da indústria, vemos muitos jogos realmente feitos com amor, pensados por jogadores e também direcionados a jogadores, sem toda aquela cultura de construir um game pensando nas formas mais eficazes de tirar dinheiro do consumidor. 

Mas dificilmente essa seria a situação dos games independentes se em 2009 o jogo de blocos mais famoso do mundo não tivesse sido lançado. Minecraft foi e ainda é um verdadeiro fenômeno, um fenômeno feito por apenas uma pessoa que simplesmente teve uma boa ideia e resolveu tirá-la do papel. Como o jogo fez um sucesso tão grande ao ponto de influenciar toda indústria? É disso que falaremos agora.

Um mundo realmente aberto

Um dos pontos mais importantes de Minecraft é a extrema liberdade que ele dá ao jogador. O mundo aberto do jogo é cerca de sete vezes maior do que o planeta Terra, e nele você pode fazer basicamente tudo que quiser: quase todos os blocos que compõem o mapa do jogo podem ser coletados e colocados em qualquer outro lugar. É como se todo aquele mundo fosse um playground só seu, tendo apenas algumas regras pré-determinadas.  

Dentro do seu mundo no Minecraft, você constrói, cria itens, minera, planta, caça, luta contra monstros, enfrenta chefes, faz portais para outras dimensões, e, principalmente, explora. O mapa do game, apesar de ser gerado de forma procedural (ou seja, criado por algoritmos sob certos parâmetros) é cheio de coisas para se fazer, tendo diversos biomas diferentes, dungeons, criaturas, construções que podem ou não representar uma ameaça e muitos, mas muitos segredos.

Se o modo sobrevivência básico do jogo já não é o suficiente para você, tudo bem. Minecraft te deixa alterar a geração do mapa, jogar em co-op com amigos e acessar outros modos, como o criativo e hardcore. No modo criativo você pode voar, destruir tudo com apenas um clique e pegar os principais itens do jogo por meio do menu; simplesmente perfeito para os que só querem se divertir sem compromisso. Já o modo hardcore é o oposto disso, oferecendo toda a experiência do modo sobrevivência, mas com um pequeno detalhe: se você morrer uma vez, seu mundo é completamente apagado.
O mundo é gigantesco e muito diversificado!















Também não se pode esquecer de um fator importante que muitas empresas falham em aplicar nos seus jogos: Minecraft é um game que está em constante evolução, sempre recebendo atualizações de conteúdo que trazem novas coisas ao mundo do jogo. A Mojang, desenvolvedora do Minecraft, costuma fazer vários e frequentes updates pequenos que corrigem bugs, além de uma grande atualização todo ano. Esses updates costumam trazer diversos jogadores antigos de volta, pois o conteúdo novo sempre dá uma boa renovada no jogo.

O Multiplayer está nas mãos da comunidade

O modo multiplayer do Minecraft é quase um jogo separado do single player. Quem cuida dessa área do jogo é a comunidade, que graças às poucas restrições da Mojang, consegue basicamente criar novos jogos dentro do game de blocos. No online, não são poucos os servidores cheios de minigames, que transformam Minecraft em RPG, FPS, jogo competitivo, jogo de parkour e até Battle Royale. 

O caso do Battle Royale é um dos mais interessantes e curiosos de todos, pois já em 2012, bem antes de títulos como PUBG e Fortnite consolidarem o gênero, Minecraft já tinha o famoso minigame Hunger Games, que continha as principais regras presentes nos Battle Royales da atualidade. Isso tudo em servidores criados inteiramente pela comunidade, sem nenhum tipo de influência da Mojang.  

E mesmo sem incentivos da Mojang, até hoje a comunidade do multiplayer de Minecraft é extremamente ativa, sempre criando novos minigames, atualizando os antigos e até trazendo mecânicas de outros jogos populares para dentro do próprio Minecraft. Muito por causa disso, o game se mantém firme e forte nos dias atuais.
Mapa do famoso modo PVP competitivo Sky Wars

Sempre há espaço para modificações

Minecraft é um jogo extremamente convidativo para que a comunidade crie coisas novas, e isso vai muito além de apenas modos para servidores multiplayer. Todo jogo em si é bastante aberto para que as pessoas façam modificações como bem entenderem, podendo criar seus próprios pacotes de texturas e mods com bastante facilidade.  

Os pacotes de textura, como o nome já indica, mudam apenas a estética dos itens do game (em alguns casos eles também alteram os efeitos sonoros), mas, mesmo assim, ainda são modificações extremamente interessantes, já que é muito acessível criá-las ou baixá-las, e isso por si só já dá uma boa renovada no jogo. Um detalhe interessante é que também há pacotes que não visam mudar exatamente a estética, mas sim reduzir detalhes de certos itens do jogo, para que Minecraft rode melhor em máquinas mais fracas. 

Mas claro, são os mods que realmente brilham quando o assunto é modificações. Os mods de Minecraft vão de adicionar alguns itens e criaturas específicas até renovar por completo o jogo, trazendo mecânicas inteiramente novas e um mundo completamente diferente do que vimos no game tradicional. Um bom exemplo disso é Pixelmon, que transforma Minecraft num Pokemon em mundo aberto, trazendo até as batalhas em turno características da franquia. 

Os mods de Minecraft são tão influentes que a própria Mojang traz várias coisas deles para o jogo base. A empresa já contratou criadores de modificações para trabalhar no game oficialmente, como foi o caso do desenvolvedor por trás do mod Aether, que trazia uma dimensão inteiramente nova ao Minecraft. Inclusive, ele foi contratado justamente na época em que a Mojang estava atualizando umas das dimensões paralelas oficiais do jogo.
Minecraft com o mod Pixelmon.












Muito mais do que apenas um jogo

O que no começo era apenas um game indie feito por um desenvolvedor criativo, hoje já transcendeu a barreira dos próprios videogames. Minecraft já é usado na educação em diversos países, tendo uma versão feita especialmente para isso, o Minecraft: Education Edition.  

A liberdade extrema que o jogo sempre ofereceu aos jogadores e continua oferecendo até hoje possibilitou que a comunidade continuasse viva mesmo depois de uma década do seu lançamento. Em abril deste ano, o game alcançou a marca de 140 milhões de jogadores mensais, isso sendo um jogo pago e consideravelmente antigo. 

Minecraft, hoje, pode ser sim jogado como um game de sobrevivência extremamente aberto, só que ele é mais do que isso, de forma geral, é mais do que um jogo. Ele é uma verdadeira ferramenta de criação, uma extremamente acessível, disponível em todos os consoles atuais, PC e mobile. Pode ser difícil de acreditar, mas coisas como um emulador de Atari 2600 e o jogo Pokemon Red já foram criados dentro do Minecraft de maneira funcional sem uso de mods.

O jogo de blocos é um verdadeiro fenômeno, um que só tomou essa proporção por várias decisões acertadas do criador, e posteriormente, de toda equipe responsável pelo game. Atualmente a Mojang faz parte da Microsoft, mas eles nunca abandonaram seu lado independente, sempre trazendo conceitos inovadores e dando voz para sua comunidade. Se hoje Minecraft tem vários spin-offs, uma série interativa na Netflix e um longa-metragem em desenvolvimento, isso se deve principalmente à coragem dos realizadores desse ambicioso projeto. 

Agora fica mais fácil entender o que Minecraft ensinou aos desenvolvedores indies de todo mundo, né? No fim, a criatividade venceu os grandes títulos feitos apenas para tirar o dinheiro do consumidor. Minecraft, o jogo mais vendido de todos os tempos, pode nunca ter chegado perto acabar com as práticas predatórias das grandes empresas de jogos, mas com toda certeza ele abriu caminho para o sucesso de vários outros games feitos por times independentes. Será que num mundo onde o fenômeno Minecraft não fosse lançado, jogos como Hollow Knight, Superhot, Among Us, Cuphead e Stardew Valley teriam sequer visto a luz do dia? E se vissem, será que as pessoas dariam toda a atenção que deram? Provavelmente não. 














Revisão: Farley Santos

um cara que adora jogar uns joguinhos e assistir umas coisas bem aleatórias.


Disqus
Facebook
Google