Discussão

Videogames vs Filosofia: a selvageria em Fall Guys (PC/PS4) e o Estado de Natureza hobbesiano

O que faz com que as pessoas sejam tão cruéis em um jogo tão fofo e inofensivo?


Você é um atleta profissional e está participando da corrida da sua vida... Está quase lá, até consegue ver a linha de chegada, mas percebe que tem algo errado: um dos competidores para pouco antes do fim e começa a correr em sua direção, pulando sobre você. Os outros corredores te passam e você vê seu sonho desaparecendo diante dos seus olhos. Mas por quê? Qual a necessidade de aquele indivíduo atacar alguém?


O exemplo pode até ser bobo, mas situações como essa já ocorreram e servem muito bem para contextualizar o assunto da segunda matéria da série Videogames vs Filosofia. Hoje, depois de um artigo debatendo o pensamento de Schopenhauer, falaremos sobre o filósofo inglês Thomas Hobbes, relacionando sua tese a um jogo que foi febre no ano passado: Fall Guys: Ultimate Knockout (PC/PS4).

Hobbes e o Estado de Natureza

Precursor do contratualismo e famoso pela obra “O Leviatã”, Thomas Hobbes defendia que antes do que podemos chamar de civilização ou, nos exatos termos, “Estado Civil”, o ser humano viveria em uma constante guerra com seus semelhantes, eternizando a ideia de que o “homem é o lobo do homem”, um ser mau por natureza. Assim sendo, nesse “Estado de Natureza” viveríamos em um estado de selvageria no qual tudo seria permitido e o uso da força seria justificável para atingir objetivos pessoais. Mais do que isso, as liberdades (absolutas) dos indivíduos estariam sempre em conflito, em guerra. Basicamente, Hobbes estava definindo um battle royale séculos antes dos games serem criados.
 

Nesse passo, para o autor, a razão humana funcionaria como uma maneira de dirimir os danos, de buscar uma saída própria do Estado de Natureza. Defensor de um sistema absolutista e, submisso a este, Hobbes doutrinava que a única forma de encontrar um estado que se aproximasse da harmonia seria firmando um contrato no qual os homens sacrificassem as liberdades individuais em detrimento do Estado. O soberano, nesse sentido, representaria o Estado, ditando o direito e podendo usar dos meios necessários para assegurá-lo.
 
Para nós, a parte mais importante é justamente a definição de Estado de Natureza e entender a visão de que o homem pode ser “mau por natureza”.

Fall Guys e a selvageria humana na prática


Fall Guys parecia um jogo relativamente inofensivo: um monte de bichinhos fofos e fantasiados correndo até a linha de chegada. Uma premissa aparentemente leve e descontraída, certo? Errado. Se você jogou Fall Guys e não ficou com raiva da raça humana, sinto muito, mas você jogou errado.
 
É praticamente impossível jogar o game com tranquilidade. Sempre vem outro jogador tentando te derrubar, independentemente da fase. Aqui, não basta só habilidade ou inteligência; você precisa estar sempre atento e pronto para desviar dos outros participantes, o que é bem estressante e causa uma justa indignação.
 
Tá, se você não acha que empurrar o colega seja algo moralmente reprovável, com certeza tem que concordar que aqueles seres que ficam esperando perto da linha de chegada para te prejudicar e desclassificar o são. “Qual a necessidade?”, “Por que cada um não joga o seu jogo em paz?”, talvez você se pergunte. Sinceramente, eu já me perguntei várias vezes, motivo pelo qual decidi tentar responder essa pergunta em um texto.
 
Mas quem vai respondê-la, na verdade, é Thomas Hobbes. Fazendo uma simples associação, é possível dizer que jogamos dessa forma “agressiva” porque somos naturalmente maus e não teremos nenhuma sanção ao fazer isso em um game online, concorda? Elaborando um pouco mais, grande parte dos jogos, ao dar essa liberdade, faz com que possamos voltar a um estado de liberdade e selvageria (o que não é necessariamente negativo, desde que não ultrapasse os limites da jogatina e reflita na realidade).
 
Um argumento para refutar minha tese é justamente falar que “se o jogo dá liberdade, podemos fazer” e, olha, realmente podemos sair empurrando os outros para eles caírem das gangorras. Tá tudo bem, dá para dormir tranquilamente depois disso. Agora, o que não dá é dormir bem depois de ficar prejudicando os outros no fim dos “circuitos” (hehehe).
 

Deixo claro, ainda, que não sou afeito à teoria hobbesiana e não penso que todo mundo é naturalmente mau e que tendamos a jogar os coleguinhas de penhascos por aí (mesmo que dê vontade). Acrescento que eu sei que Fall Guys (PC/PS4) é só um jogo e admito que também já empurrei alguns jogadores (enfim, a hipocrisia).
 
Forçando um pouco os postulados de Hobbes, sabe como superaríamos isso? Dando as mãos e implorando para que os desenvolvedores nos controlassem e impedissem condutas como as aqui mencionadas. Acho melhor deixar como está, não é? Posso não ser um daqueles “manés” que ficam empurrando, mas, se você me empurrar, amigo, você já era.
 
O que vocês acharam da discussão? Estão gostando das minhas relações entre Filosofia e os games? Comentem!

Revisão: Ives Boitano
Arte de capa: Rafael Isenof

é estudante de Jornalismo e Direito, atuando como escritor, podcaster e pseudocrítico, seja de cinema ou jogos. Sua paixão pelo mundo dos games começou logo cedo e ele sempre sonhou em viver uma grande aventura como Nathan Drake ou Lara Croft, desbravar o mundo Pokémon como o Red e ter a coragem e a determinação de Ezio Auditore. Contato: @rafael.isenof (Instagram); isenof.contato@gmail.com.


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