25 Anos de The King of Fighters: um registro de como o primeiro crossover da história dos games ganhou o mundo (parte 2)

Conheça a segunda parte da história da franquia que sobreviveu à falência e ressuscitou das cinzas ao lado da empresa que a criou.


Na parte anterior, abordamos sobre como The King of Fighters foi concebido, bem como a sua evolução ao longo dos anos. Com o fim da aclamada saga Orochi e a produção de The King of Fighters ’98 como um game cuja ideia era simplesmente reunir todos os lutadores da série até então, era a hora de uma nova edição da franquia anual da SNK ser produzida. Começa, então, a saga NESTS.

A colcha de retalhos que foi a Saga NESTS

Lembra-se da grande inovação que consistia no jogador poder montar sua equipe com três lutadores cada? Pois bem, o quão ousado seria se agora fossem quatro? É essa a ideia que The King of Fighters '99: Millennium Battle trouxe — junto de outras mudanças que, com elas, vieram uma série de indagações. Afinal, depois da versão de 1998 ter oferecido a experiência suprema em KOF ao trazer praticamente todos os lutadores da franquia até então em uma jogabilidade equilibrada e refinada aprovada pelos fãs, a pergunta que fica é: por que mudar?

O quarto lutador inserido na verdade diz respeito ao sistema striker. Enquanto os jogadores ficam no controle de apenas três personagens, como de costume, era possível selecionar um quarto que entraria ocasionalmente na luta como uma forma de assist capaz de desferir ataques surpresas. Isso foi suficiente para fazer com que os fãs fizessem questionamentos em relação à real necessidade de tal mecânica, uma vez que ela parecia apenas uma tentativa de aproveitar o sucesso de Marvel Vs. Capcom.



Entre outras mudanças de jogabilidade, a possibilidade de escolher entre os estilos advanced e extra foi deixada de lado em detrimento de um único formato, mais próximo do primeiro. Além disso, foram adicionados dois modos especiais que podem ser ativados quando o medidor de especial se enche: counter e armor. O primeiro permite a utilização infinita de golpes especiais sem custo, enquanto o segundo garante um bônus considerável na defesa. Além disso, o sistema de rolamento foi modificado e agora é possível atacar durante a esquiva — mudança que não retornou em títulos posteriores. Dentre as críticas também estava o fato de os populares Iori Yagami e Kyo Kusanagi terem sido escanteados como personagens ocultos no game. Eles, na verdade, não eram nem para estar presentes, mas a SNK decidiu incluí-los de última hora por conta da exigência dos fãs.

Considerando que KOF ’99 representava uma nova fase para a franquia, uma gama considerável de novos personagens foi introduzida na série. Dessa vez, K’ (lido como K-dash) assume o papel de protagonista. Ele, junto de seu parceiro, Maxima, se junta a Benimaru Nikaido e Shingo Yabuki, ex-colegas de Kusanagi, contra as atividades de uma organização chamada NESTS, que planeja criar clones do herói da série com informações coletadas após a luta dele contra Orochi. Ou seja, na quase ausência de Kyo, é notável que ele já estaria presente de duas formas diferentes como Kyo-1, com um moveset similar à sua versão dos games ’94 e ’95; e Kyo-2, mais próximo do personagem como ele apareceu nas edições ’96 e ’97.



Quando o chefão, Krizalid, é finalmente derrotado, a verdade sobre K’ é revelada: ele mesmo tinha sido um agente da NESTS e resultado de um experimento desenvolvido no intuito de recriar artificialmente os poderes de Kusanagi. O tom do enredo, bem como a atmosfera do game como um todo, também decide seguir por uma linha mais soturna, se comparado aos títulos antecedentes.
"Você foi cordialmente convidado para o King of Fighters deste ano."


Este convite foi enviado a lutadores de todo o mundo. O KOF será realizado mais uma vez! Só que as circunstâncias dessa vez são diferentes. Não houve um pingo de entusiasmo pelos participantes, ao contrário do que aconteceu no ano anterior, que chacoalhou o mundo todo. Para os lutadores mais céticos, até as regras do torneio são um mau presságio:

"O método de combate serão batalhas de três contra três. A decisão para este torneio, contudo, é a adoção das partidas striker".

"Partidas striker?" Os lutadores não conseguem esconder sua surpresa diante desta modalidade de batalha pouco familiar. Enquanto isso, Heidern, que vê algo muito suspeito no torneio, despacha Ralf e Clark para investigar a verdade por trás dele. Benimaru Nikaido também recebeu um convite para participar do KOF na equipe especial, ao lado de outras figuras meticulosamente selecionadas. Entre seus companheiros estão dois nomes: K’ e Maxima. Benimaru fica confuso porque nunca os viu em outros eventos de artes marciais anteriores.

Independentemente disso, Benimaru dirige-se ao local da competição. Mesmo que desconfiado com as circunstâncias, ele logo é seguido por outros competidores. O que é uma partida striker? O que está por trás do torneio deste ano? Com sua miríade de mistérios, o King of Fighters se prepara para começar!
Como era de praxe já, o game recebeu seus ports para consoles domésticos. O de Neo-Geo foi lançado apenas nos Estados Unidos junto com o de Neo-Geo CD, disponibilizada também no Japão. A edição de PlayStation chegou aos dois territórios, bem como a de Dreamcast, considerada, disparadamente, a melhor das versões caseiras, mesmo que tenha vendido pouco.

Uma revisão chamada The King of Fighters '99: Evolution chegou ao mercado em 2000. Dentre suas especificidades, ela também contava com Krizalid como lutador controlável e introduziu os personagens Vanessa e Seth, que só seriam formalmente apresentados no ano seguinte. Além disso, a versão japonesa permitia a transferência de conteúdo de um outro título obscuro para o Neo-Geo Pocket Color chamado The King of Fighters: Battle de Paradise, um jogo de TCG digital baseado na franquia.
Da esquerda para a direita: KOF '99 para Neo-Geo, KOF' 99: Evolution para o Dreamcast e Battle de Paradise, para o Neo-Geo Pocket Color.


1999 também foi o ano do acordo de paz entre a SNK e a Capcom, visto que as empresas, que tanto se digladiaram nos arcades durante aquela década, decidiram unir suas poderosas IPs. O primeiro game da safra foi SNK vs. Capcom: The Match of the Millennium, para Neo-Geo Pocket. A Capcom fez sua parte em 2000 com Capcom vs. SNK: Millennium Fight 2000, para Arcade, Dreamcast e PlayStation. Uma sequência chegou ao mercado no ano seguinte e o último fruto dessa parceria veio em 2003, com SNK vs. Capcom: SVC Chaos. Uma série paralela de jogo de cartas, contudo, veio a receber lançamentos até o Nintendo DS, em 2006.


Em 2000, a SNK já praticamente não tinha mais salvação e estava em vias de decretar falência após uma série de decisões errôneas em seus negócios, situação que teve impacto direto em The King of Fighters 2000. Enquanto chegam a ser perceptíveis os empecilhos durante o desenvolvimento que resultaram em problemas de balanceamento e de qualidade gráfica, é notável que houve também algum esforço em torná-lo único. 

A mecânica dos strikers, por exemplo, foi reformulada e se tornou mais abrangente, permitindo que eles fossem utilizados com mais frequência. Cada personagem tinha seu striker correspondente e isso acabou fazendo com que personagens diversos aparecessem no game, como Nakoruru, de Samurai Shodown, ou Fio Germi, de Metal Slug 2.

A história de KOF 2000 dá continuidade à saga NESTS, com Heidern, o comandante dos Ikari, trabalhando para descobrir mais sobre a misteriosa organização e inscrevendo seus subordinados em mais um torneio. É nessa edição que Kula Diamond, uma arma da NESTS criada para derrotar K’, aparece pela primeira vez.
Já faz um tempo que a existência do misterioso sindicato secreto NESTS veio à tona. Desde então, contudo, sua presença ainda continua um mistério e eles mantiveram suas atividades muito bem escondidas.


Enquanto isso, em contraste à aparente falta de atividade da NESTS, um aumento na atividade terrorista foi tomando conta no mundo. Heidern e seu bando de mercenários concluíram que esses acontecimentos eram obras de K’ e Maxima. Eles logos se colocaram no encalço dos dois, mas seus esforços foram ofuscados pelos convites do mais novo torneio KOF!

Lutadores se prepararam para o torneio em várias localidades ao redor do mundo. Mais ainda, a equipe de K’ e Maxima estava na lista de competidores convidados! Além disso, a NESTS coloca em prática a segunda fase de seu projeto, visto que foi praticamente estimulada pelos dois "terroristas". Seria esse início das atividades da NESTS uma mera coincidência?

Mais uma vez, o sentimento de conflito iminente sufoca o ar e a cortina do último King of Fighters está para se erguer!
Além dos Arcades, o game chegou ao mercado doméstico em seu lançamento apenas no Neo-Geo. Ele foi saiu para Dreamcast e PlayStation 2 em 2002, com novos strikers e estágios. No Ocidente, esses ports vieram apenas em 2003 ao lado de sua sequência, The King of Fighters 2001.

KOF ’01 foi desenvolvido pelo estúdio sul-coreano Eolith com o auxílio da BrezzaSoft, empresa fundada por ex-membros da SNK que pularam do barco no último momento antes da falência. A produção do game também foi auxiliada pela desenvolvedora mexicana EVOGA como uma forma de se aproximar ainda mais do mercado latino-americano onde a franquia havia se tornado um imenso sucesso. Nesta edição, os jogadores podiam escolher, na seleção do time, quantos personagens seriam jogáveis e quantos agiriam como strikers, sendo esta a última vez em que tal mecânica apareceria na série.

O game também marca o capítulo final da saga NESTS. Nele, um misterioso lutador chamado Igniz toma o controle da organização para si — e cabe a K’, Kula, Krizalid, K9999 e Whip, resultados dos experimentos conduzidos por ela, desmantelá-la. K9999, inclusive, é um personagem que foi completamente descontinuado em aparições subsequentes por se tratar de um plágio de Tetsuo, personagem de Akira. A alegação é que o tom da suposta homenagem teria sido muito explícito e isso poderia configurar, eventualmente, em problemas legais. Ele foi completamente apagado da história da franquia e atualmente sequer pode ser citado nos corredores da SNK.
Durante o King of Fighters 2000, Uma cidade inteira foi varrida do globo após o uso da arma-satélite Zero Cannon. Esse incidente foi noticiado ao público como o resultado da colisão de um satélite artificial com a Terra, adornando as páginas dos mais diversos jornais ao redor do mundo. Uma legião passou a clamar pelo fim dos torneios KOF, que sempre traziam consigo algum tipo de acidente.


Ironicamente, esse torneio de artes marciais com péssimos precedentes mais uma vez reconquistou uma considerável popularidade.

Contudo, um fato de repercussão internacional veio à luz nesta edição: uma equipe da NESTS entrou no torneio! Quais são os verdadeiros objetivos do patrocinador do evento? Não há garantia que dessa vez uma tragédia não irá se repetir...

O terceiro título das Crônicas NESTS. Finalmente, tudo acabará neste torneio!
KOF ’01 recebeu ports para o Neo-Geo e Dreamcast. Entretanto, o mais importante aqui é que, nos bastidores, Eikichi Kawasaki, fundador da SNK original, cria outra companhia chamada Playmore e a utiliza para adquirir a BrezzaSoft, da qual já detinha uma participação. Aos poucos, a SNK ia se reerguendo e readquirindo suas propriedades. O bundle para PlayStation 2 que continha tanto o KOF 2000 quanto o ’01 foi um dos primeiros títulos da empresa no ocidente após sua reestruturação, que passou os anos de 2001 e 2002 trabalhando para readquirir suas IPs originais. Por conta desses problemas, o arco NESTS acabou se assemelhando a uma colcha de retalhos, com cada uma de suas entradas produzidas de forma desigual e coladas em uma única saga.



A Eolith chegou a desenvolver The King of Fighters 2002: Challenge to Ultimate Battle. Assim como ’98 serviu como uma celebração de fechamento do arco Orochi, ’02 faz o mesmo para a saga NESTS, trabalhando apenas como uma reunião dos personagens da série e trazendo de volta Rugal Bernstein como o chefão final.

Conservador na jogabilidade, ele decide descartar a mecânica de strikers e retoma o sistema básico de trios. Por outro lado, o maior destaque foi a implementação dos MAX2 Desperation Moves, avassaladores golpes especiais que só podem ser utilizados com a barra de energia cheia e se o personagem estiver com baixo HP. O único port do game lançado nos Estados Unidos foi o de Neo-Geo. Enquanto isso, o Japão recebeu versões de Dreamcast, PlayStation 2 e Xbox.

2002 também foi o ano de The King of Fighters EX: Neoblood, no Game Boy Advance. Baseado na jogabilidade de KOF ’99, ele cria uma história alternativa em que o arco NESTS nunca existiu, uma vez que uma garota chamada Moe Habana encontra Kyo Kusanagi após a batalha final contra Orochi de KOF ’97 e, consequentemente, o material genético para a criação de K’, Whip, Krizalid, Kula e K9999 nunca foi coletado.

Na próxima (e última) parte da reportagem, finalizaremos a nossa trajetória pela franquia The King of Fighters ao explorarmos os Spin-offs da série, o Conto de Ash Crimson e a transformação da franquia após a aquisição da SNK por um conglomerado chinês. Até lá!

Revisão: Farley Santos

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Gosta de usar conceitos acadêmicos para discutir sobre videogame. Se você gosta das groselhas que escreve, pode ler mais um pouco das suas asneiras em seu blog particular (http://www.hornypony.wordpress.com).

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