25 anos de Darkstalkers: neste Halloween, relembre a trajetória dos Guerreiros da Noite

A série alcançou seu auge na segunda grande era dos Arcades na década de 90, mas não conseguiu se sustentar por decisões questionáveis por parte da Capcom e hoje amarga a geladeira da empresa.

A década de noventa presenciou um segundo boom dos fliperamas. Seja por conta do sucesso avassalador de Street Fighter II, seja por conta da ascensão da SNK que trouxe alguma nova disputa para o mercado dos arcades, a Capcom precisava diversificar os seus produtos, visto que o pensamento naquela época era que eles não conseguiriam viver de SFII para sempre, já que a competição com a concorrência estava cada vez mais acirrada.


Uma das ideias foi montar um jogo de luta — utilizando o motor de jogo já imensamente retrabalhado de SFII — baseado no universo expandido dos monstros da Universal Pictures. Muito antes da Marvel sequer existir como editora de quadrinhos, tratava-se de uma espécie de universo expandido de filmes de horror que se interligavam e que contavam com personagens clássicos da literatura e da mitologia como Drácula e o Monstro de Frankenstein.

O que acontecia é que naquela época era muito mais complicado conseguir licenças de empresas de terceiros para a produção de videogames próprios. Assim, a Capcom decidiu fazer o que sabia de melhor: a utilização de arquétipos básicos que juntos constroem uma ambientação de fácil entendimento para o jogador.

Os Guerreiros da Noite estão à solta!

Assim, em 1994, Vampire: The Night Warriors foi lançado para o público utilizando o CP System II, a mais moderna placa de Arcades que a Capcom tinha naquele momento, que até então tinha recebido poucos games que utilizassem todo o seu poderio — os principais eram Super Street Fighter II: The New Challengers (Arcade) e Super Street Fighter II Turbo (Arcade), que não passavam de ports de um game lançado para a versão anterior do sistema. Dessa forma, além de um visual verdadeiramente majestoso em comparação à franquia dos lutadores de rua, o game de monstros introduziu novas mecânicas, como Air Blocking e Chain Combo. No Ocidente, a identidade do game recebeu alterações e ele ficou conhecido como Darkstalkers: The Night Warriors.

Outra das exclusividades para esse novo game era a barrinha de especial, que ia se enchendo à mesma medida que ela era consumida automaticamente, impedindo que um jogador a acumulasse por muito tempo no intuito de segurar a utilização de golpes especiais e promovendo combates mais arriscados e intensos. Tendo também a SNK ganhando popularidade, a Capcom se preocupou em se espelhar na concorrente ao trazer um desafio considerável aos jogadores, com uma IA de dificuldade elevada conhecida por combos exagerados e alegadamente impossíveis.

Mais do que a mudança de nome do próprio jogo, alguns personagens também passaram por esse processo. O zumbi roqueiro australiano chamado Zabel Zarock passou a se chamar Lord Raptor. Rikuo, lutador inspirado na Criatura da Lagoa Negra, era conhecido originalmente Aulbath. Gallon, o lobisomem, recebeu o nome Jon Talbain.  Por fim, o sub-chefe Phobos, robô construído com tecnologia ancestral pré-colombiana, passou a ser Huitzil no ocidente.

Além desses, Anakaris, Demitri Maximoff, Sasquatch e Victor Von Gardenheim também integram o elenco representando, respectivamente, arquétipos clássicos da Múmia, Vampiro, Abominável Monstro das Neves e o Monstro de Frankenstein. Bishamon e Felicia, por sua vez, trazem alguma originalidade como um espírito samurai amaldiçoado e uma híbrida de mulher e gato que sonha ser uma estrela de cinema. Todos esses lutadores são encabeçados por Morrigan Aensland, a popular súcubo que acaba se fazendo de protagonista da franquia por representá-la nos mais diversos crossovers da empresa.

A história do game já era bem simplista, de acordo com o que a Capcom costumava produzir na época. Pyron, uma entidade formada de plasma espacial, chega à Terra no intuito de adicioná-la à sua coleção de mundos devorados.  Dessa forma, cada um dos monstros tem sua motivação para impedir que o planeta seja destruído, o que correspondia a uma série de finais diferenciados para cada. Esses diferentes endings eram o charme de Darkstalkers em relação a outros games do gênero, visto que nem todos podiam considerados felizes — afinal, tratavam-se de monstros —, destoando um pouco daquilo que os outros games do gênero ofereciam.

Falsa sequência e licenciamentos

Em 1995, a Capcom lançou Night Warriors: Darkstalkers’ Revenge (Arcade). Apesar de ser vendido como uma sequência, não se tratava exatamente uma continuação direta, mas de um título com uma pegada à Champion Edition do Street Fighter II. Dessa forma, trata-se mais de uma expansão de elenco de um game já lançado, adicionando os dois chefes antes injogáveis ao lado de novos personagens. Ele também foi uma maneira de rebalancear a jogabilidade do game — agora era possível acumular várias barrinhas de especial, ao contrário do primeiro, além da implementação do auto-blocking. A parte visual acabou recebendo um upgrade, com novas animações para os lutadores já presentes anteriormente.

Embora o enredo seja exatamente o mesmo, seu diferencial fica por conta da presença de Donovan Baine, um caçador de Darkstalkers na mesma veia dos Belmont da série Castlevania, e de Hsien-Ko (Lei-Lei, no original japonês), um cadáver reanimado conhecido nas lendas orientais como Jiang-shi. Outra consideração que a gente até acaba relevando é próprio título, que também não faz sentido algum — afinal, os Darkstalkers estavam se vingando de quê?

Foi nesse momento que a Capcom se deu conta da popularidade que a franquia, tão amarradinha tematicamente falando, poderia alcançar, e passou a licenciá-la para uma série de outras produções midiáticas baseadas nela. Naquele mesmo ano, uma animação ocidental — de qualidade duvidosa — passou a ser produzida, durando apenas treze episódios. No ano seguinte, em 1996, uma série em OVA — formato de distribuição de animações japonesas diretamente em home vídeo — foi produzida, mas acabou sendo ofuscada pelos primeiros lançamentos da série em console, que até então só era conhecida nos arcades.



O PlayStation recebeu o primeiro game, The Night Warriors, e aproveitou o tema musical da série animada americana em sua abertura. Em contrapartida, o Saturn, console concorrente, acabou recebendo a sequência, Darkstalkers’ Revenge, e contava com um recurso chamado Appendix Mode, em que o jogador poderia trocar os assets desse segundo título pelos do primeiro — mesmo que de maneira mal otimizada. Naquele mesmo ano, o elenco de Darkstalkers se encontraria com o de Street Fighter pela primeira vez em Super Puzzle Fighter II: Turbo (Multi).

Em busca de uma versão definitiva

No ano seguinte, Darkstalkers 3, o último lançamento numerado da série até a presente data, veio à luz nos Arcades. O Japão deu continuidade aos títulos inconsistentes e lá essa terceira versão ficou conhecida como Vampire Savior: The Lord of Vampires. Dentre as novas mecânicas, estava um novo sistema que abdicou a contagem de rounds e passou a basear as etapas das brigas em cima das duas barras de vida dos lutadores — da mesma forma que Injustice faz hoje em dia.

O Elenco de personagens jogáveis também sofreu modificações significativas. Pyron, Huitzil e Donovan ficaram de fora para dar espaço a personagens como Q-Bee, uma híbrida de mulher com abelha; Lillith, um pedaço da alma de Morrigan que se personificou em uma versão juvenil da personagem; Baby Bonnie Hood (Buletta, no Japão), que não passa de uma chapeuzinho vermelho carregada de adrenalina e armas de fogo; e Jedah Dohma, um antigo demônio ancestral que age de vilão para o enredo, que aqui é um pouco mais elaborado numa tentativa falha de fazer frente à SNK, que no momento colhia os louros do sucesso da saga Orochi.

Foi em 1997 também que Anita, uma garota que acompanhava Donovan de forma não-jogável no segundo game da série fez sua estreia como personagem próprio. Isso não aconteceu em Darkstalkers, mas nos ports japoneses de console de Marvel Super Heroes (Multi), como uma personagem secreta. No game, a garota era capaz de invocar outros personagens de sua série de origem, além do Akuma. Sua presença não passa de um tapa-buraco de programação, mas sua inclusão acaba sendo um marco por ser a primeira vez em que tal personagem aparece como controlável.



Ainda, o ano de 1997 ficou marcado pelo lançamento de revisões preguiçosas. Vampire Hunter 2: Darkstalkers' Revenge é um relançamento do segundo título da série, mas com o motor de jogo levemente retrabalhado do terceiro. Sua principal característica acaba sendo a ausência dos finais exclusivos para cada personagem após a conclusão do modo história — um descritivo genérico da história acaba assumindo esse lugar.

A questão é que Vampire Savior 2: The Lord of Vampire, uma revisão do terceiro game da série, também foi lançada simultaneamente com Vampire Hunter 2. Ou seja, a Capcom lança duas versões revisadas do mesmo game (que havia acabado de ser lançado), alternando os personagens (os que estão em um se ausentam de outro) e nenhuma delas poderia ser encarada como uma versão completa, de fato, até 1998, quando Darkstalkers 3 chegou domesticamente (e de forma definitiva) no PlayStation e, no caso do Japão, no Saturn. Ele trazia de volta os personagens que tinham sido removidos na versão de Arcade, com novas linhas de histórias hipotéticas, os what ifs.

Morrigan e seus amigos

A partir daí, Darkstalkers amargou o limbo. A série de monstros da Capcom é lembrada primariamente por conta da presença quase certa nos crossovers em que a empresa organiza e participa. Marvel Vs. Capcom 2 (Multi), por exemplo, acabou indo um pouco mais longe nisso e, para fazer companhia à quase sempre presente Morrigan, trouxe Anakaris, Felicia e Baby Bonnie Hood como jogáveis, trabalhando na ideia de quantidade em vez da qualidade.

Na virada do século, a Capcom também passou a produzir crossovers com aquela que foi sua principal rival nos jogos de luta. Capcom vs. SNK: Millennium Fight 2000 (Multi) foi o primeiro deles e Morrigan se faz presente quase como uma convidada extra, visto que todos os outros lutadores da Capcom vinham de Street Fighter. Além disso, sua presença destoante torna-se evidente por utilizar os mesmos assets desde o primeiro Darkstalkers — em comparação a outros personagens cujos sprites eram novos e especialmente produzidos para o game. Essa reciclagem se repetiu na sequência, lançada um ano depois.


Do lado da SNK, por sua vez, Morrigan e Felicia se fazem presentes em versões chibi de SNK vs. Capcom: The Match of the Millennium para Neo Geo Pocket Color, além de Baby Bonnie Hood como uma lutadora oculta. Em 2003 houve também o lançamento de uma sequência mais encorpada chamada SNK vs. Capcom: SVC Chaos (Multi). Dessa vez, Demitri Maximoff acabou sendo o representante da série Darkstalkers como um mid-boss.

Em 2004, Capcom Fighting Jam (Multi) — Capcom Fighting Evolution, no Ocidente — juntou Demitri, Anakaris, Felicia e Jedah ao lado de outras pratas da casa em um game conhecido por ser uma bagunça de jogabilidade por ter reproduzido o estilo de luta de cada um dos personagens diretamente do seu game original, sem qualquer ajuste de mecânica para que o título fique conciso como um todo. No ano seguinte, Bonnie Hood fez uma participação especial em Cannon Spike (Dreamcast), mais um crossover da Capcom, dessa vez em forma de shooter.


Morrigan ainda se fez presente em uma série de outros crossovers ao longo do tempo. Sua primeira aparição tridimensional de destaque seria em Tatsunoko Vs. Capcom (Wii), como representante única da sua franquia. Darkstalkers teria maior representatividade em Marvel Vs. Capcom 3 (Multi) ao trazer de volta Felicia e Lei-Lei ao lado da súcubo — que retornaria sozinha no quarto game, Marvel Vs. Capcom: Infinite (Multi).

Atualmente, Darkstalkers é uma franquia cujo apelo é desacreditado pela Capcom, que relega-a apenas a essas participações especiais — Project X Zone (3DS) fez um bom trabalho nesse aspecto. A última vez em que a série deu as caras foi em uma coletânea HD chamada Darkstalkers Resurrection (PS3/X360), lançada apenas digitalmente em 2013. Considerando que as vendas foram abaixo do esperado — acharam que seria uma ótima ideia lançar um game assim às vésperas de uma nova geração —, não será tão cedo que veremos um Darkstalkers 4 dar as caras com todo o charme de seus personagens carismáticos — apesar de vez ou outra acabar surgindo algum rumor sobre sua produção.

Revisão: Farley Santos

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Gosta de usar conceitos acadêmicos para discutir sobre videogame. Se você gosta das groselhas que escreve, pode ler mais um pouco das suas asneiras em seu blog particular (http://www.hornypony.wordpress.com).

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