Blast from the Past

Chrono Cross, 20 anos de uma obra essencial

Chrono Cross veio com a difícil tarefa de superar seu antecessor, e 20 anos depois de seu lançamento podemos dizer que missão dada é missão cumprida


Chrono Trigger foi lançado para o Super Nintendo no Japão em 1995, sendo um sucesso absoluto de crítica e público.  Produzido pela chamada "equipe dos sonhos", Hironobu Sakaguchi (criador de Final Fantasy), Yuji Horii (diretor de Dragon Quest), Akira Toriyama (criador de Dragon Ball) o jogo foi um marco no gênero de JRPG. Uma sequência seria mais do que certa, e Chrono Cross chegou em 1999 para o Playstation com a difícil missão de fazer jus ao clássico, mas será que hoje, 20 anos depois, o jogo conseguiu cumprir o seu legado?

Lá e de volta novamente

A história de Chrono Cross foi criada pelo roteirista e diretor Masato Kato, e algumas pessoas da equipe original retornaram a esta sequência, incluindo o diretor de arte Yasuyuki Honne, o produtor Hirochimi Tanaka, o compositor Yasunori Mitsuda e o planejador de som Minoru Akao. Nobuteru Yūki ficou a cargo do design dos personagens.

A história de Chrono Cross é focada no personagem principal chamado Serge e aborda a temática de mundos paralelos, fazendo um gancho com as viagens no tempo do primeiro jogo. Ao ser transportado para uma realidade paralela, na qual Serge morreu ainda criança, ele parte em busca de compreender os diversos desfechos conflitantes daquele mundo tão parecido ao seu, e buscar um caminho para casa.

A icônica menina de olhos azuis da CG inicial, Kid, e outros quarenta e três personagens jogáveis (pasmem!) ajudam-no em sua jornada através do arquipélago El Nido, o mundo do jogo. Na luta por revelar seu destino, o grupo parte em busca da misteriosa Frozen Flame, e tem no seu caminho o vilão Lynx, um sombrio antagonista que planeja capturar Serge e bagunçar ainda mais a intrincada lore do jogo.

Chrono Cross foi aclamado pela crítica, ganhando a nota 10 no site GameSpot e tendo o score agregado de 92.28% de acordo com o site GameRankings. Mais de um milhão e meio de cópias do jogo foram vendidas em todo o mundo, o levaram ao seu re-lançamento com o selo Greatest Hits.

Apesar de todo sucesso de vendas e de críticas, o jogo não é tão amado e reverenciado pelos fãs de JRPG como seu antecessor. Talvez pela nostalgia que o primeiro título envolva, ou pela popularidade do dream team que, infelizmente, não voltou para a sequência. Porém, Chrono Cross é um título imperdível, e garante horas e horas de diversão, principalmente se for jogado em sequência de Chrono Trigger.

Um lore para ninguém botar defeito

Chrono Cross se passa em um mundo chamado El Nido, povoado por antigos colonizadores oriundos do continente de Zenan (Chrono Trigger), um povo humano com características de animais. Vinte anos depois dos eventos de Chrono Trigger, a nação de Porre se torna uma potência regional e destrói o reino de Guardia, onde viviam os protagonistas Crono, Marle e Lucca.

Em uma manhã, acordado por sua mãe, Serge parte para encontrar sua amiga Leena em uma praia (aqui uma clara referência ao primeiro jogo). Lá ele desmaia e acorda em uma dimensão alternativa, onde dez anos antes havia morrido afogado.

Neste novo mundo alternativo, confuso e perdido, Serge acaba conhecendo Kid, que o convence a acompanhá-la em busca da lendária Frozen Flame. Ao invadir a mansão onde a Frozen Flame supostamente estaria, Serge descobre que sua morte dez anos atrás causou a divisão da realidade em duas dimensões, a que ele sobreviveu e a em que ele havia morrido.

Além disso, nosso herói também descobre que o amuleto que Kid carrega permite viajar entre as dimensões. E a partir daí que nossa aventura se inicia, com direito a um cruzamento entre essa história e seus personagens com a história e os personagens do primeiro jogo. Um prato cheio para os fãs de Chrono Trigger, e uma das histórias mais interessantes do mundo dos games.

Novamente, mais mudanças no gameplay

Chrono Trigger ficou famoso por abrir mão das batalhas de turno por algo mais "real time", um tipo de experimento que era raro em JRPGs da época. Novamente, Chrono Cross se esforça para inovar o sistema de turnos, criando mecânicas interessantes. Assim como no primeiro jogo, os encontros aleatórios foram banidos. Agora, a maioria dos inimigos podem ser vistos conforme o jogador explora o ambiente, deixando a opção de evitar ou não batalhas desnecessárias.

Chrono Cross traz um sistema de combos que permite que o jogador escolha entre três níveis de ataques, e juntá-los de forma a produzir um conjunto de golpes. Conforme os personagens sobem de nível, novas técnicas são disponibilizadas. Além disso, o jogador tem a opção de juntar habilidades de dois ou mais personagens em combinações de ataques.

No menu de ações da tela de combate, temos as opções dos níveis de ataque: bater mais fraco, mas com maior chance de acerto, ataque equilibrado e bater mais forte mas com menor chance de acerto. Esse sistema é quantificado percentualmente, possibilitando ao jogador fazer um cálculo de cabeça das probabilidades de conseguir um critical hit.

Assim como o sistema de ataques, também temos mecânicas inovadoras nos sistemas de magias. Em El Nido, a magia é controlada por entidades conhecidas como Elements, que organizam os feitiços através da Element Grid. Dependendo de sua posição, magias fracas podem ter seus efeitos fortalecidos ao custo de mais tempo para execução, enquanto que magias fortes podem ser lançadas rapidamente, perdendo parte de seu poder.

O ataque, dependendo do nível de força, acrescenta um valor respectivo no Grid, consumindo stamina ao ser usado e, em contrapartida, libera Elements mais poderosos. Por fim, cada Element e cada personagem tem uma cor específica, definindo a eficácia de feitiços executados por personagens de acordo com as cores iguais ou opostas ou contra certas cores de inimigos.

Cada batalha apresenta um indicador das últimas três cores de magias utilizadas. Esse indicador é o Elemental Field, e uma cor no elemental field determina que cor está predominante na batalha, tornando a peleja mais vantajosa para personagens ou inimigos daquela cor.

Ataques físicos, elements e a defesa serão incrementados conforme o campo incline-se para a cor de algum personagem ou inimigo. O jogo inclui ainda as famosas invocações, que aqui são Elements que conjuram alguma criatura poderosa, e requerem um esforço maior para serem realizados.

Uma obra de arte que atravessa os tempos

Logo após Xenogears ter saído do forno em 1998, a Square aprovou o lançamento da sequência de Chrono Trigger. Masato Kato, produtor e roteirista do jogo já vinha ensaiando ideias desde 1996, quando lançou uma obscura sequência para um acessório do Super Famicom, o Radical Dreamers, que nunca saiu do Japão.

Apesar de Radical Dreamers nunca ter visto o sol por nossas terras, o plot inicial foi basicamente todo transportado para Chrono Cross, fazendo dele a sequência oficial. Assim, a ideia de criar um mundo dividido por dimensões paralelas foi crucial para conectar a história do primeiro mundo com a do segundo. Como é conhecido nas histórias de viagem no tempo, quando uma interferência ocorre, ela sempre acaba dividindo a realidade em duas dimensões.

Conforme a equipe foi colocando a mão na massa, o jogo foi ficando mais e mais complexo. Segundo o próprio Masato Kanto, Chrono Cross acaba resolvendo o destino de um personagem do primeiro jogo, personagem esse que ele não conseguiu explorar em Chrono Trigger. Obviamente não vamos falar de quem se trata e nem que trama é essa, para não estragar a surpresa.

A equipe chegou a ter cerca de 80 desenvolvedores, com mais de 20 artistas criando cenas em CG e uma equipe enorme para controle de qualidade. Existia uma forte pressão para superar o primeiro jogo, e a equipe trabalhou exausta até o final. Mas ideias criativas não faltaram, e os desenvolvedores buscavam também uma identidade própria. O inovador sistema de batalha, por exemplo, buscava evitar o grindig repetitivo, tão característico da proeminente saga Final Fantasy, que vivia sua era de ouro no console da Sony.

Chrono Cross é uma obra de arte, de importância e brilho ímpares na indústria dos jogos. É um game que trata de assuntos complexos e sérios, ao mesmo tempo que mergulha no melhor da ficção científica. O que você faria se pudesse voltar no tempo e mudar tudo? E se existisse uma realidade onde sua vida fosse totalmente diferente? Na atual onda de remakes e remasters, fico pasmo com o fato de que Chrono Cross só pode ser jogado naquele formato que ele foi concebido em 1999.

Caso você não tenha um console da Sony da geração passada (aqui contando também o PS Vita, PSP ou PS3), resta a você esperar por uma remasterização desse clássico. Porém, caso você tenha e não jogou Chrono Cross, ou se interessou por ele depois de ler este texto, eu sugiro que você se esforce e arranje um jeito de experimentar o game. Pode ter certeza que vai valer cada minuto do seu tempo.

Revisão: Henrique Moreno

Apaixonado por JRPG, video game, Rock'n'Roll e literatura. Fanboy de Final Fantasy, admirador nato de The Legenda of Zelda, sonha em se tornar escritor. Enquanto esse dia não chega, escreve sobre as coisas que ama na Game Blast

Comentários

Google
Disqus
Facebook