Blast from the Past

Grand Theft Auto: Vice City (Multi) é a melhor representação dos anos 1980 no mundo dos jogos

O clima tropical invade a série Grand Theft Auto e impacta a série com um enredo eletrizante e charmoso, tornando Vice City um dos melhores jogos de todos os tempos.

Ah, os anos 1980! Para os jogadores nascidos após o novo milênio, é nada demais. Para as gerações “X” e “Y” (respectivamente os nascidos entre os anos 1960 e 1980, bem como os que nasceram entre 1970 e 1990), é um período, no mínimo, “estranho” — para o bem e para o mal.


Na música, Synth Pop, New Wave, Death Rock, Post-punk e Hard Rock tomaram definitivamente o lugar do Soul, Disco e Punk; no cinema, filmes de ação absurdos que lançaram estrelas como Silvester Stallone, Arnold Schwarzenegger  e Bruce Willis (apenas para citar o mínimo) dominavam bilheterias. Robocop, The Terminator, First Blood, Die Hard  e Mad Max 2:  The Road Warrior foram lançados nessa década.
Fachada de cinema anunciando First Blood.


Na música, Roger Waters assumia o front do Pink Floyd e mudou para sempre sua música, enquanto A-ha fazia com que todos cantassem Take on Me mundo afora; ao mesmo tempo, Led Zeppelin praticamente se extinguia, abrindo espaço para as técnicas de guitarra de Eddie Van Halen e para os garotos malucos e desnutridos do Guns N’ Roses.
A década foi tão estranha que os GN'R ainda flertava com o Glam Rock.


Na economia e política, Margareth Thatcher e Ronald Reagan massacravam a classe trabalhadora no Reino Unido e Estados Unidos, respectivamente. Enquanto isso, o Brasil proclamava a campanha Diretas Já. Pablo Escobar era uma das figuras latino-americanas mais conhecidas do mundo e Castor de Andrade transformou o Bangu Futebol Clube em um dos destaques do Campeonato Carioca.
Reação do povo britânico diante da morte de "Mag" Tatcher.


No campo tecnológico, computadores pessoais eram uma realidade, assim como a comunicação sem fio. Em outras palavras, o mundo estava uma completa loucura — e indiscutivelmente charmoso, para todos os gostos.

Grand Theft Auto: Vice City (Multi) resgata muitos destes conceitos e mudanças que ocorriam no mundo naquele período, aplicando-os nas cutscenes e até nas canções presentes nas rádios — e o próprio Axl Rose banca um dos DJ’s na rádio K-DST, sob a alcunha de Tommy Smith.

Good bye, Liberty City!

Todos nos lembramos da cinzenta Liberty City de Grand Theft Auto III, com enfoque quase total na Máfia Italiana. Vice City segue uma rota completamente diversa, apresentando-nos uma Miami digitalizada, colorida e sem qualquer pudor. Os chefões italianos perdem espaço e poder nas ruas norte-americanas para latinos, gangstas e até mesmo quadrilhas de mulheres entram na jogada, alterando completamente as regras da vida criminosa.
Até mesmo o aeroporto de VC homenageou um dos "figurões" da época.


Advogados fazem uso constante do famoso entorpecente boliviano e panfletos divulgando filmes adultos sobrevoam a cidade, lançados aos céus por aviões “teco-teco”. A constante névoa da “Cidade da Liberdade” cede espaço ao incrível pôr-do-sol após um dia sufocante de calor. Conversíveis cortam as avenidas em alta velocidade, motocicletas se somam a eles como novos veículos de locomoção e negociatas são realizadas com militares latino-americanos corruptos em seus iates: Grand Theft Auto nunca mais seria o mesmo.
Lamento, Tommy, mas a natação ainda não está disponível.


É claro que algumas questões bem irritantes continuariam, tais como o fato do protagonista ser incapaz de nadar, o péssimo sistema de mira em combates e os carros explodirem com pouco impacto ou capotarem facilmente. Outras coisas, no entanto, se mantiveram, como a dublagem e participação de famosos no universo GTA — algo que se encerraria completamente em Grand Theft Auto IV —, a total liberdade do jogador em promover o caos na cidade e, claro, os infames easter eggs, sempre remontando a algo vinculado à cultura pop.

That was my money, Tommy!

O protagonista de Vice City pode ser considerado, de longe, o mais brutal e implacável personagem controlado pelo jogador — incluindo na lista indivíduos como Nico Belick (GTA IV) e Trevor Philips (Grand Theft Auto V). Não é à toa, Tommy Vercetti é conhecido no submundo como The Harwood Butcher — alcunha que recebeu após ser emboscado por 11 homens e executá-los a sangue frio. Preso e condenado à morte pelo crime, Vercetti recebeu uma pena alternativa, cumprindo 15 anos de cadeia, em razão da influência que a família mafiosa a quem prestava “serviços” possuía.
Tommy "The Harwood Butcher" Vercetti.


Tommy é um ítalo-americano nascido em Liberty City que já na adolescência fez amizade com Sonny Forelli, filho de mafiosos que logo se tornou um dos chefões de sua cidade natal. Desde então, Sonny incluiu Vercetti nos negócios da “família”, enviando-o para uma série de missões, incluindo o assassinato de um mafioso que levou à emboscada acima relatada.

Após deixar a prisão, a fama de Tommy foi motivo de admiração e horror, mesmo entre aliados. Aproveitando do status recebido do amigo, Sonny o envia para uma negociação de entorpecentes em Vice City. Durante a negociação, algo dá errado, os entorpecentes são roubados por outro grupo criminoso — assim como o dinheiro de Forelli — e é neste momento que se inicia o jogo, tendo Vercetti o dever de eliminar os responsáveis — sendo ele mesmo um dos poucos sobreviventes do ataque — e recuperar o “investimento” do chefe, o qual constantemente lhe telefona para pressioná-lo.
Sonny Forelli.


O motor gráfico e a física de Vice City não se diferenciam do título antecessor, contudo, a temática da nova cidade com seu clima tropical, vibrante e “animado” permitem que o jogador capte diversos detalhes então ignorados em Liberty City.

Sendo o enredo trabalhado nos anos 1980, não será incomum a presença de luzes de neon em diversos estabelecimentos locais, especialmente as boates e danceterias. Em outras palavras, é um jogo muito mais bonito, visualmente falando. O tom cartunesco permanece — um estilo que vigorou até Grand Theft Auto: San Andreas — mas o novo universo oferece muitas novas oportunidades.

Mais do que um jogo

Uma das grandes influências estéticas de Vice City é o seriado televisivo Miami Vice que, particularmente, adoro. O programa narra a história de dois policiais infiltrados no mundo do crime em Miami no combate ao tráfico de entorpecentes.

A Rockstar levou tais detalhes tão a sério que contratou Philip Michael Thomas (astro do programa de TV que interpretou o investigador Ricardo Tubbs), outorgando-lhe a voz de Lance Vance, aliado de Vercetti em maior parte do jogo. Outros grandes nomes que protagonizaram no título foram Ray Liotta — que fez fama em Goodfelass e é uma das principais razões pelas quais a desenvolvedora buscava meios em afastar de grandes nomes para dublarem seus personagens.


Além de Liotta, Thomas e Axl Rose, Tom Sizemore, William Fichtner, Robert Davi, Burt Reynolds e Danny Trejo deram vida a Sony, Ken Rosenberg (o advogado viciado em cocaína), Juan Cortez, Avery Carrington e Umberto Robina, personagens icônicos que tornaram Vice City tão grandioso. E dentre os “personagens icônicos”, poderíamos mencionar inclusive a famosa motosserra, um easter egg para a turma “dos mais velhos” que assistiram Scarface.

Mais do que as típicas missões que observamos em todos os títulos da série (como missões de assassinato), Vice City inseriu novas modalidades para se ganhar “dinheiro sujo”, o que pode ampliar grandemente o poder de compra do personagem. E é uma das questões mais interessantes porque basicamente tais “meios” integram não apenas parte do enredo principal como incluem side quests divertidas, que não causam sentimento no jogador de que estão lá apenas para tornar o jogo maior do que deveria ser.
"O filme será um sucesso! Só precisaremos de um tubarão inflável..."


Dentre as novas inserções, está a possibilidade de adquirir propriedades como lojas de veículos, gráficas e mesmo um falido estúdio de cinema. E, tratando-se de Grand Theft Auto, naturalmente que se utilizasse situações absurdamente divertidas para tornar os investimentos realmente lucrativos.

A revendedora está falida e possui apenas dois veículos que ninguém se interessa? Sem problemas, roube alguns esportivos, veículos off-road e carros de luxo e assista o dinheiro entrar como nunca! Sua gráfica não rende o suficiente? Não seja por isso! Roube algumas fôrmas de uma gangue feminina e imprima dinheiro! A disputa pela atenção do público na grande variedade de títulos para o cinema está difícil? Contrate uma garota de programa, arrume um tubarão inflável e faça a 7ª arte inesquecível! E não se esqueça de distribuir os panfletos do lançamento em um avião em metade da cidade…
Este senhor na gráfica é praticamente o diretor de sua "Casa da Moeda" particular.


Todas essas situações bizarras tornam o jogo divertidíssimo e dão ao jogador a sensação de que ele não está “perdendo tempo”, tornando a sensação de liberdade de um jogo sand box maior do que simplesmente atropelar pedestres ou furtar viaturas policiais. Além dos negócios em si, será possível a Tommy tomar para si a mansão de um rival, que permitirá armazenar veículos e que incluirá um helicóptero de “brinde”.

Outro aspecto interessante de Vice City sobre seu antecessor é a missão The Job. Se todos perderam a cabeça com as missões de assalto em GTA V (que realmente são muito divertidas), imaginem o impacto disso no título lançado quase dez anos antes. Embora houvesse algo do tipo em GTA III, a missão The Getaway limitava Claude Speed a levar os assaltantes ao banco de Liberty City e ajudá-los a fugir da polícia — nada mais.
The Job é facilmente uma das missões mais divertidas do título.


Em Vice City, Vercetti precisa organizar sua equipe, que se constitui de um profissional que viola cofres, um piloto de corridas ilegais e um bom atirador — e cada um destes exige o cumprimento de uma missão específica para que eles confiem e percebam que Tommy é tão bom quanto eles para o trabalho.

De uma simples corrida de rua contra o piloto, a retirar o violador de cofres da prisão, tudo em Vice City se encaixa perfeitamente. Novamente, a grande maioria das missões dão a sensação ao jogador de que o enredo se desenvolve de forma adequada e crível — senão pela fatídica missão Demolition Man, que coloca o jogador no controle de um helicóptero de brinquedo.

Mesmo hoje, vale a pena?

Sou um grande fã da série Grand Theft Auto, mesmo em seus primórdios no PC, com visão aérea. Vice City foi meu título favorito até o lançamento de GTA IV e atualmente ocupa o pódio (em terceiro lugar) de meus títulos favoritos da franquia. De longe, Tommy Vercetti é um dos protagonistas mais carismáticos do mundo dos jogos e mesmo os NPCs são figuras engraçadíssimas — ou minimamente bizarras.
Seja no cinema, em VC ou em Saints Row: The Third, o ator Burt Reynolds é sempre uma figura.


É discutível que o realismo intentado pela Rockstar desde GTA IV talvez torne o jogo “estranho” para as novas gerações: os combates facilmente podem ser considerados “ruins”, a física é questionável e os gráficos até estão um pouco “datados”. No entanto, o enredo de Vice City é um dos melhores não apenas para títulos da franquia, como de todo o mundo dos jogos.

Jogadores que estejam em minha faixa etária simplesmente o adorariam pelas constantes referências aos loucos anos 1980. Para os que não pertençam a esse grupo, a temática tropical é um grande diferencial, possuindo uma dose considerável de vivacidade e energia que empolgaria qualquer jogador que procure um bom título para se divertir.
Mesmo para os padrões atuais não dá pra negar sua beleza.


A trilha sonora possui uma grande variação, ao passo que os DJs das rádios não raras vezes farão com que o jogador opte apenas por rodar pela cidade enquanto os escuta. Em outras palavras, não há como não amar Vice City. Os três primeiros títulos foram o ápice dos jogos de mundo aberto e não à toa são atualmente disponibilizados em dispositivos Android, iOS e também para os consoles da nova geração.
"Vice City é meu novo lar."


Minha recomendação? Guardem seus pesados casacos de pele em Liberty City, comprem uma camisa florida e uma passagem para Vice City e aproveitem o pôr-do-sol enquanto apreciam um martíni com vodka (batido, não mexido): suas vidas nunca mais serão as mesmas.

Revisão: Henrique Moreno

Mineiro, apaixonado por livros, música, filmes, discussões, Magic: The Gathering e, claro, jogos eletrônicos.

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