Blast from the Past

Grand Theft Auto IV (Multi), quando o Leste Europeu se impõe em Liberty City

Grand Theft Auto IV é fabuloso e supera em muitos fatores seu famoso sucessor.


Sou um grande (e controverso) fã da franquia Grand Theft Auto. Enquanto todos ovacionavam Grand Theft Auto: San Andreas (Multi), pendia para Grand Theft Auto: Vice City (Multi). Em mesmo ritmo, bocas se escancararam quando do lançamento de Grand Theft Auto V (Multi) quando afirmei em alto e bom som: “Grand Theft Auto IV (Multi) é infinitamente melhor”.


Muitos leitores certamente já torceram a cara e talvez alimentem um sentimento homicida que talvez reflita nos comentários, mas a Blast from the Past se dedica hoje a esse título grandioso e que será o meu favorito por um bom tempo, tendo roubado o lugar no pódio de Vice City, tão logo coloquei minhas mãos nele. Então, respirem fundo, acalmem seus possíveis coraçõezinhos cheios de fúria e acompanhem conosco!

Considerações iniciais

Em primeiro lugar (e aspecto mais importante), sob nenhuma circunstância eu ignoraria ou ignoro os problemas decorrentes do desenvolvimento de GTA IV no aspecto da mão de obra. A Rockstar Games é uma contumaz violadora de direitos trabalhistas em constante prática do crunch time, havendo ocorrências da mesma no jogo em questão, além de Red Dead Redemption (X360/PS3) e Read Dead Redemption 2 (XBO/PS4), como já afirmei em um artigo publicado no GameBlast.

Logo, toda vez que ovaciono qualquer título oriundo da desenvolvedora, o faço em memória da equipe que disponibilizou horas e mais horas de trabalho árduo, inclusive de horários que seriam utilizados em folgas, para entregar-nos um produto de qualidade. Sendo mais explícito: jamais ignorem os bons resultados de um estúdio que se baseia principalmente nos sacrifícios realizados pelos desenvolvedores.
Capa da página no Facebook da Gamers Workers Unite.


Em segundo lugar, já apontando aspectos do próprio jogo, sou aficcionado pelos países eslavos desde minha infância. Como um grande fã de Tommy Vercetti (Vice City) e de Claude Speed (Grand Theft Auto III), bem como o histórico de criminosos e personagens que rondam seus respectivos enredos (comumente membros da Máfia Italiana), a última coisa que imaginaria em um GTA era o foco em outros povos e culturas completamente diversas das Ocidentais, em especial que o protagonista, Niko Bellic, era um sérvio: foi paixão à primeira vista.

Uma nova-velha Liberty City

Embora GTA não seja o pioneiro dos jogos sand box em 3D, o nível de detalhamento que nos foi apresentado na Liberty City de GTA III mexeu com a cabeça e o coração de milhões de jogadores mundo afora. Mesmo após 18 anos de seu lançamento original, ainda é um jogo visualmente bonito. No entanto, o trabalhado desenvolvido em GTA IV é simplesmente absurdo.

Tudo o que vemos em GTA III está lá (exceto, obviamente, pelos já removidos prédios que remetiam ao World Trade Center). O nível de detalhamento dos transeuntes, veículos e localizações é de tirar o fôlego. Cada indivíduo na cidade, pedestres, pilotos de motocicleta ou motoristas possui reações diversas quando agimos de forma violenta ou sacamos uma arma contra eles. E esse é um aspecto em que GTA IV supera em muito seu sucessor.

GTA V é indiscutivelmente lindo e divertido, mas a IA e a física (muito criticada por jogadores) em GTA IV é muito superior. Quando se empunha uma arma contra um motorista, por exemplo, alguns erguiam as mãos e saíam vagarosamente de veículos, outros erguiam as mãos mas permaneciam. Em outras ocorrências, se assustavam e saíam correndo, enquanto outros arrancavam com o carro para frente (geralmente atropelando o protagonista) ou davam ré em alta velocidade. Diferentes reações também ocorriam com pedestres ou motociclistas.

A grande variedade de ações trazia algo novo para a série e nos lançava em um nível de realismo nunca antes visto na franquia. Até mesmo a forma como Niko roubava carros possuía uma variação, desde apontar a arma para o motorista, arrancá-lo de forma brusca, socá-lo no rosto ou contra o volante do veículo. Alguns destes atos ainda permanecem em GTA V e oriundam de Vice City e GTA III, mas o apontar da arma apenas clicando no botão de ação é algo exclusivo aqui.


Além disso, o nível de detalhamento nos movimentos enquanto se comete um roubo ou as mais diversas reações quando se atira nas pernas de um pedestre foram suprimidas no jogo posterior. Isso foi algo que me aborreceu, já que não apenas a física, como também a IA se apresentam menos trabalhada em um jogo que, tecnicamente, deveria ser melhor.

A física de GTA IV, objeto de crítica de muitos jogadores acostumados à sistemática cartunizada dos jogos anteriores, é particularmente para mim o ponto forte e ela tem um nome: Euphoria. Esse é o nome da engine desenvolvida por dois estudantes do departamento de zoologia da University of Oxford, que consistia na análise comportamental tanto humana quanto animal, mesclando inteligência artificial com biomecânica, sendo utilizada amplamente nos personagens e mesmo NPCs comuns.
Que saudade dessa física...


Foi uma grande decepção que a Rockstar não tenha empregado essa tecnologia em sua engine Rockstar Advanced Game Engine no desenvolvimento de GTA V, especialmente quando a mecânica Euphoria foi inserida quando do desenvolvimento de GTA IV. E a surpresa ainda maior foi o fato de que Red Dead Redemption possui IA e física melhores do que em GTA V, lançado três anos após.

Tal diferença também se percebe na condução de veículos quando comparada aos jogos anteriores. A física (ou a ausência dela) era aceitável pelo aspecto cartunizado dos antigos títulos, como já dito. No entanto, soa mais simplificada em GTA V, retornando aos velhos (e não tão bons) tempos de direção “canastrona”, sendo muito fácil derrapar ou capotar veículos — ao menos eles não sofrem danos ou explodem com tanta facilidade como em GTA III ou Vice City.
Tudo bem, mas isso faz parte dos desafios. Confiram no menu geral do jogo.


Algo que foi consideravelmente aprimorado em GTA IV, concernente aos jogos anteriores, foi o sistema de combate. Tão positivo que foi mantido em Red Dead Redemption, em GTA V e em Red Dead Redemption 2. O título em questão inaugurou um avançado sistema de mira e cover, permitindo que os combates se tornassem mais estratégicos e diversos, não apenas um massacre gratuito de pixels ou mortes em questão de segundos contra três ou quatro policiais ou inimigos armados.

Um grande enredo

Sou um indivíduo bastante crítico: há produtos destinados ao mero entretenimento, logo, entendo que alguns filmes e jogos não exigem muito critério quanto aos respectivos enredos. Neste mesmo sentido, as histórias contidas nos primeiros GTA em três dimensões se focavam basicamente em ganhar a confiança de chefões do crime, realizar uma série de missões para eles e, então, protagonizar um ato de vingança. San Andreas aprimorou esse conceito trazendo problemáticas sobre lealdade e família, logo, tem lá os seus méritos.

GTA IV, no entanto, abdicou de todo aquele aspecto da customização em San Andreas e se dedicou a contar uma história — uma excelente história, por sinal. É claro que os elementos típicos estão presentes no padrão “confiança-missões-vingança”, mas a forma como se desenvolve — e os plots então inseridos — foi algo completamente novo.
A expressão de alegria de Niko com mais uma das confusões de Roman.


E daí que Niko não tem uma vasta variação de roupas para trocar (algo reinserido em GTA V) ou não possa adquirir propriedades? Um sujeito vindo do outro lado do mundo, com uma cultura e visão de mundo completamente diferentes dos nossos, oriundo de uma guerra que acabou por lançá-lo em um dos mais graves crimes contra humanidade que se muda para os Estados Unidos em busca de redenção não seria uma história e tanto? E quanto ao trabalho realizado por Michael Hollick (dublador de Bellic), que é um dos melhores de toda a franquia? Mais: a trilha sonora está melhor do que nunca, incluindo uma rádio exclusiva com canções oriundas do Leste Europeu.

Não se enganem: eu adoro Michael, Trevor, Franklin,Tommy e Huang (Chinatown Wars) mas, diferente de todos os outros protagonistas da série, Niko é, mais do que tudo, um ser humano arrependido de seus atos e, no final das contas, não é alguém cuja vida e realidade se voltem ao crime por mera liberalidade.
"É... ferrou tudo."


Niko ama Roman (o primo que vive a se encrencar) e sua mãe, sendo visível o cuidado e carinho que ele tem por ambos, bem como por algumas mulheres que encontra pelo caminho. É “fechado”, como um típico eslavo mas possui um coração bondoso. O enredo se foca na redenção de Niko que inclui, inevitavelmente, vingança — e esse é um dos aspectos mais interessantes de GTA IV. Nesse sentido, há muito a franquia demandava um grande enredo e o título presenteou da melhor maneira possível jogadores que ansiavam por algo do tipo.

Isso é algo que fez com que GTA V me parecesse pior também nesse quesito: os três protagonistas possuem ótimas histórias mas, em tudo o que cerca o título, me soa que a temática seja “hipocrisia e estupidez”, algo recorrente em praticamente todos os personagens de GTA V. Ao contrário de muitas críticas que li, tenho comigo ser bastante humano que Michael de Santa seja um típico badass, violento, agressivo, estourado, mas que seja traído pela esposa. A estupidez de seus filhos, por sinal, mostram que embora ele fosse um grande criminoso, é um fracasso como “chefe de família”.

O mesmo se aplica a Trevor, onde qualquer bizarrice envolvendo o personagem é imediatamente legitimada porque, convenhamos, ele é um sociopata, pura e simplesmente. No entanto, o amor que ele tem por Michael é tocante de alguma forma, dadas as suas peculiaridades.
Armas na nova Liberty City somente com Little Jacob.


Por outro lado, Niko é um indivíduo que quer apenas fazer “as coisas direito”, auxiliar Roman, bem como a própria mãe e buscar a felicidade após tantos anos de tragédia. Em GTA IV há todas as típicas inserções como policiais corruptos, críticas sociais e piadas “politicamente incorretas” — e todas transmitidas de forma bastante madura e que exigem um grau de sensibilidade do jogador para captá-las. Tais elementos são retratados na perseguição contra imigrantes ou a hipocrisia de políticos conservadores em privar a comunidade LGBT de seus direitos — e esse é um dos aspectos que me convenceu sobre a grandeza de GTA IV.

E então?

GTA IV é um grande título, tanto em qualidade quanto em tamanho propriamente dito. Visualmente é muito bonito, detalhado e dificilmente será visto como “datado” por muito tempo. A física e o sistema de combate são os melhores da franquia e é muito divertido iniciar combates estúpidos apenas pelo desafio que o mesmo proporciona.

Ou mesmo fazer coisas estúpidas como jogar granadas contra janelas de veículos ou atirar com lança-foguetes contra o chão apenas para observar quantas reações diferentes o corpo de Niko terá ao ser lançado para o alto (fiquei por um bom tempo apenas aproveitando a física do jogo dos meios mais toscos possíveis). Logo, quem procura um excelente jogo de ação com um roteiro impecável, será bem recompensado nas horas dedicadas. Mesmo o modo multiplayer, bastante simplificado, garantirá algumas horas de diversão.


O enredo é maduro, sóbrio e sério, possui plots que me fizeram soltar algumas palavras de calão e, para aqueles que procuram isso em um título e ainda não conhecem GTA IV, essa é uma recomendação clara: perdeu muito tempo em não fazê-lo, mesmo para aqueles que não apreciam a temática empregada na franquia. Esse é um produto diferenciado e altamente qualificado, mesmo com alguns problemas técnicos na versão para PC, que já possuem patchs de correção.

Embora os “alertas” iniciais, espero que os leitores não se aborreçam com minhas considerações, afinal, todas as minhas justificativas foram devidamente apresentadas. Este é um jogo que me marcou muito e gostaria de compartilhar minha experiência a fim de que mais jogadores o conheçam. Mesmo aqueles que desistiram do mesmo (li muitos comentários nesse sentido Internet afora), dêem uma nova chance ao título, pois tenho plena e absoluta certeza de que algo os entreterá. E quanto a vocês? Quais as suas considerações sobre GTA IV?

Revisão: Flávio Augusto Priori

Mineiro, apaixonado por livros, música, filmes, discussões, Magic: The Gathering e, claro, jogos eletrônicos.

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