Blast from the Past

Grand Theft Auto: Chinatown Wars (Multi): dez anos transformando playboys em homens de respeito

Chinatown Wars se consolidou como o título definitivo da franquia Grand Theft Auto para dispositivos mobile.

Grand Theft Auto é uma série que dispensa apresentações: de advogados conservadores a fanáticos pela série, não há qualquer menção ao jogo que não mobilize grupos inteiros, sejam adversários ou favoráveis. Chinatown Wars seguiu à risca tudo aquilo que faz da série o que é, especialmente desde Grand Theft Auto III: bom enredo com reviravoltas, personagens carismáticos, mecânicas únicas e total liberdade para o jogador.

Lançado originalmente como um exclusivo do Nintendo DS — sendo um dos maiores e melhores títulos para o portátil —, logo recebeu ports para o PlayStation Portable, iOS, Android e Fire OS, com ampla aclamação do público e uma referência em jogos sandbox para dispositivos portáteis.

O crime sonda diversas etnias

Uma constante na franquia GTA é a presença dos mais variados grupos do crime organizado: da Cosa Nostra à Yakuza, da Organizatsiya às Tríades, nenhuma passou despercebida. Em Chinatown Wars, é uma das poucas vezes em que estamos no controle de um criminoso não originário dos Estados Unidos: Huang Lee, um jovem playboy de 25 anos, membro das Tríades e cujo pai, Yu Jian, foi assassinado.
Huang Lee
A missão de Huang é ir até Liberty City e entregar a espada que pertencia a seu falecido pai, uma “relíquia de família” (conquistada numa mesa de apostas), para Wu Lee, tio do jovem. Quando desembarca no aeroporto, Huang e os guarda-costas enviados por Wu são atacados. O jovem fica gravemente ferido e os agressores, imaginando que ele estivesse morto, levam-no em um carro e o abandonam para afundar no cais, sendo exatamente esse o ponto em que o jogo começa.

Todas as gangues com as quais nos acostumamos desde GTA III estão presentes: a já citada Tríades, The Lost MC (que recebeu atenção especial em Grand Theft Auto IV, com direito a DLC próprio), Midtown Gangsters, os Spanish Lords, Angels of Death MC, a Máfia, a Máfia Russa e as quadrilhas formadas por irlandeses, afro-americanos e jamaicanos.
Gangues e policiais corruptos, como Wade Heston.

De longe, Chinatown Wars é o maior jogo da franquia GTA lançada para um portátil, que marca sua presença desde o Game Boy Color, passando pelo Game Boy Advance e aportando finalmente aos mais diversos dispositivos móveis. É também o mais complexo jogo desenvolvido para o DS, segundo a revista britânica Official Nintendo Magazine, com mais de 800.000 linhas de código escritas.

Tudo isso comporta 60 missões, sendo 58 principais e duas obtidas obtidas por download (65 no port para PSP, que acrescenta cinco novas missões); 65 veículos — entre motocicletas, esportivos, lanchas, jet-skis, ônibus, tanques de guerra, viaturas, caminhões de bombeiro, ambulâncias, dentre outros (aeronaves não são pilotáveis) —, 26 armas, 21 safehouses e, claro, toda a extensão de Liberty City à distância de um toque na tela, com exceção do Estado de Alderney (uma das ilhas que se conectam à cidade), em razão das limitações técnicas do DS.

Gráficos não são tudo — mas nesse caso, sim

Algo que pode ser dito em favor de Chinatown Wars são os lindos gráficos: desenvolvido em cel shading com gráficos 2.5D e visão isométrica, o jogo é de longe um dos mais bonitos para o portátil da Nintendo.

O nível de detalhes mesmo em um sistema de hardware limitado é impressionante: capôs danificados voam, faíscas se soltam de motores defeituosos, movimentos humanos quando correm, lutam, quando são lançados contra o asfalto ou “voam” pelo ar ao serem atingidos por jatos de água transmitem realidade. Detalhes em veículos, estruturas físicas, ruas e avenidas são um show à parte.
Perseguição típica em qualquer GTA (versão Android).

A Rockstar Leeds e a Rockstar North valorizaram ao máximo todas as possibilidades no DS, da óbvia tela touch ao microfone — que nesse caso serve para chamar táxis, bastando soprá-lo para que Huang assovie. O fato do portátil possuir duas telas contribui consideravelmente na imersão, já que é na própria tela de toque em que algumas das características mais interessantes do jogo são utilizadas.

Cada simples tarefa, como furtar um veículo estacionado ou brincar com uma “raspadinha” se torna um mini-game em potencial. Diante da grande variedade de veículos, dentre antigos e novos, cada um demanda uma forma diferenciada para fazê-lo funcionar sem que um alarme dispare — tudo ao alcance da caneta do DS.

Os ports para smartphones se adaptaram bem e mantiveram alguma experiência do que sentimos na versão original justamente pela tela touch. O PSP nos limita a um Quick Time Event um tanto “torto” já que, sem a mencionada funcionalidade de toque, transforma um dos mais interessantes elementos do jogo em um simples apertar de botões.
Monte rifles de precisão, arme bombas e furte veículos: a caneta do DS precisaria de autorização legal para uso.

Mas um aspecto em que os ports se destacam sobre o DS (além dos gráficos, que são um pouco mais aprimorados) é a trilha sonora. Esqueçam intermináveis listas de canções que ouvimos ao manobrar um veículo como nas versões para consoles caseiros. O portátil da Nintendo possui apenas cinco estações de rádio que, convenhamos, não são muito mais do que batidas musicais eletrônicas.

O port para PSP possui 11 canções que realmente soam como tais, ao passo que o iOS, além de possuir todas as rádios do portátil da Sony, permite a conexão do jogo ao serviço iTunes para que o jogador ouça suas playlists favoritas.

Profissões não criminosas, algumas um tanto tortas e a polêmica do dinheiro fácil

Há diversas formas em se ganhar dinheiro em Chinatown Wars, seguindo os padrões de seus irmãos maiores. O trabalho ilícito é o mais comum, no entanto, ainda temos a oportunidade em sermos motoristas de caminhões de incêndio — que, além do óbvio trabalho em apagar chamas, podemos dispersar multidões em protestos —, taxistas, condutores de ambulâncias, policiais — com métodos nada éticos para a execução do trabalho — e, por fim, uma das profissões mais divertidas, especialmente na versão DS: a de tatuador.

A caneta do console faz o papel da máquina e devemos deslizá-la pela tela para desenvolver a arte pré determinada na pele do cliente, cujo resultado é definido por uma barra de “qualidade”. Os resultados vão desde “Very Good!” até “WTF?”, de acordo com o desempenho do jogador.
Visualizar o GPS enquanto dirige: apenas no DS.
Mas, de longe, a “profissão” que mais rende financeiramente é também a mais polêmica e divertida: a de traficante de drogas. Há diversos pontos na cidade em que traficantes (todos vinculados de alguma forma às gangues listadas anteriormente) vendem seus produtos — em um total de seis possibilidades, de maconha a heroína — e competirá ao jogador passar por cada um deles e averiguar quem compra e distribui determinados entorpecentes.

Há momentos em que determinado tóxico possui maior demanda e, em outros, não há qualquer procura. Para facilitar a tarefa, comumente traficantes enviam e-mails a Huang informando quando pretendem adquirir determinada substância ou quando querem se livrar de seu “estoque”.
"Veja se não est.. já estragou."
E é algo tão surreal que há gráficos no jogo (acessíveis no PDA) que registram as margens de lucro e perda de cada entorpecente. Particularmente, sou um jogador fissurado nesse mini-game e já dobrei meu dinheiro somente com essa prática.

Quando anunciado pela Rockstar, o mini-game gerou uma série de polêmicas, sendo provavelmente a maior razão pela qual Chinatown Wars recebeu o selo indicativo ESRB +18 — o primeiro para um jogo lançado para o DS.

E então?

Chinatown Wars fez história no DS, sendo de longe um dos melhores títulos já lançados para o portátil, com um enredo longo e interessante. Os gráficos são lindos e envelheceram bem, há dezenas de veículos, diversas armas e colecionáveis. Liberty City foi praticamente transportada para dispositivos móveis, sendo um fator importante para uma das mais queridas cidades da franquia. Os diversos mini-games, corridas e rampages, além da típica liberdade em um jogo de mundo aberto garantem o fator replay.

É um título recomendado para qualquer plataforma para o qual foi lançado mas, caso seja possível, optem pela versão DS, sendo a que melhor o recepcionou. E quanto a vocês, quais impressões tiveram deste clássico?


Revisão: Raphael Barbosa

Mineiro, apaixonado por livros, música, filmes, discussões, Magic: The Gathering e, claro, jogos eletrônicos.

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