Blast Test

Atlas (PC) tem potencial para ser um ótimo mundo pirata, mas tem muito trabalho pela frente

O MMO da Instinct Games tem problemas de otimização e instabilidade nos servidores, mas tem potencial de ser muito bom.

Nos últimos anos, o gênero de sobrevivência com o chamado sandbox tem crescido bastante. Nessa onda, os desenvolvedores de ARK: Survival Evolved (Multi) resolveram mudar um pouco de ares e investir em um game terminantemente online com foco exatamente no subgênero pelo qual eles ficaram tão conhecidos. Entretanto, Atlas (PC) enfrenta atualmente dois grandes problemas: a drástica falta de otimizações e o peso da sombra de seu primo com dinossauros.


O jogo apresenta uma temática incrível com um mundo muito interessante e rico, com possibilidades de crescimento quase que inimagináveis. Entretanto, o acesso antecipado se assemelha diversas vezes a um teste alfa do título, com inúmeros problemas que superam bastante o estado antecipado, atrapalhando a diversão e tornando o jogo altamente punitivo às vezes.


Uma vida de pirata pra mim

Atlas não apresenta ainda um enredo muito complexo. Na verdade, ele começa de uma forma bem semelhante ao já conhecido ARK: Survival Evolved, com seu personagem nascendo em um local quase aleatório do mapa, com poucas roupas e precisando sobreviver. As diferenças vem com um tutorial que, mesmo que tenha bastante informação, ainda não é necessariamente efetivo em passar os comandos básicos do jogo. Isso por conta dele surgir como um texto pequeno e rápido na parte superior da tela.

O jogo tem como principal ambientação a pirataria clássica já conhecida de outros produtos da cultura pop. Entretanto, ele faz algumas misturas aqui e ali para buscar tudo de bom que o gênero de sobrevivência com sandbox tem a oferecer. Infelizmente, alguns desses artifícios causam certo estranhamento à primeira vista, como a quantidade de animais que você pode domar e caçar e a presença de alguns seres mitológicos não muito ligados às lendas e contos piratas, como dragões e ciclopes.



Entretanto, mesmo com o estranhamento inicial, o jogo agrada aos olhos com ótimos visuais e efeitos que, logicamente, precisam ser melhorados aqui e ali, mas que já na fase de acesso antecipado se equiparam bastante com os gráficos mais atualizados de ARK: Survival Evolved e suas expansões.

Eu já vi isso em algum lugar

Outro ponto muito chamativo do jogo é a sua semelhança em diversos pontos com a franquia ARK, parecendo inclusive um spin-off da série ou algo parecido. Isso porque os desenvolvedores do Studios Wildcard que estão participando do desenvolvimento de Atlas pegaram bastante referências do jogo de sobrevivência com dinossauros para criar a ambientação e as mecânicas do jogo de piratas. O problema é que parece que pegaram um pouco demais.



Desde a tela inicial do jogo até os visuais, comandos e layout de menus, tudo lembra bastante a franquia ARK. O que aqui é um problema considerável, uma vez que não é a intenção de Atlas ser um spin-off de ARK ou qualquer coisa do tipo. A sensação que dá é de uma certa preguiça em criar algo novo, não deixando que o legado de sucesso fique em seu lugar para que se possa de fato criar algo novo. Até mesmo o sistema de domesticação das criaturas (algo que um jogo de pirata não precisaria exatamente) é muito semelhante ao de ARK.

Infelizmente, mesmo que Atlas pegue tantas referências de ARK, aparentemente não pegaram o aprendizado que o primeiro jogo deu em quesitos como otimização e estabilidade de conexão dos servidores oficiais. Isso porque Atlas teve um lançamento um tanto quanto conturbado. Além do atraso de duas semanas para o lançamento do acesso antecipado no Steam, o jogo apresenta até hoje problemas consideráveis para rodar nas configurações indicadas pela própria empresa, conexões perdidas ou que nem conseguem acessar o jogo e bugs que atrapalham bastante a diversão. São basicamente os mesmos problemas que ARK enfrentou em seu acesso antecipado.


Sobrevivência de primeira, mas bastante punitiva

Como se trata de um jogo online de sobrevivência, algumas mecânicas estão muito bem construídas. Claro que várias se assemelham ao já citado ARK, mas temos algumas inovações nesse quesito, algumas interessantes e outras nem tanto. Um ponto interessante é a progressão do personagem, que envolve a coleta de recursos, confecção de objetos e ferramentas e também enfrentar criaturas selvagens. Ao passar de nível, você começa a escolher entre diversas árvores de habilidades que guiam sua produção de materiais e itens diversos.

Esse esquema lembra muito mais Conan Exiles (Multi) do que ARK: Survival Evolved, o que dá um ar bem mais próximo de um RPG para Atlas do que os esquemas do game de dinossauros. Também na direção das modificações positivas, temos a coleta de água para matar a sede. Aqui, a água do mar não pode ser coletada para tal fim, o que aumenta o realismo do mundo pirata. Assim, para coletar água é preciso encontrar lagos no interior das ilhas ou então cavar a areia próxima à gramas mais verdes para tentar achar bolsões de água. 



Já um outro ponto de sobrevivência precisa de alguns ajustes: o esquema de alimentação. Em Atlas, ao contrário da maioria dos jogos desse subgênero, o jogador precisa de uma alimentação “balanceada” para não ter complicações em sua saúde. A alimentação, dessa forma, é dividida em quatro tipos de vitamina, que podem ser obtidas por carne vermelha, carne de peixes, frutas e folhas. O problema aqui é o realismos exagerado demais da mecânica, pois qualquer uma das vitaminas em baixa causa a morte vagarosa do jogador.

Além disso, dá uma ideia bastante controversa sobre o mundo dos piratas. Como se todo pirata tivesse uma alimentação totalmente balanceada e saudável, sem complicações de saúde e etc. Nessa lógica, seria muito mais interessante o jogo dar bonificações para o jogador que consumir algumas garrafas de rum do que matar o personagem que só come carne vermelha ao invés de peixe.


Não morra! É sério!

Mas independente de tudo que o jogo precisa melhorar para ser considerado “bom”, a principal coisa é o sistema de morte. Isso porque, atualmente, caso você morra no jogo, seu corpo some junto com todos os seus itens e equipamentos. É isso mesmo, acabou. Caso você morra, você precisa começar do zero tendo somente seu nível de experiência para levar consigo. O problema disso é principalmente o fato de ser bem comum você morrer para bugs, problemas de conexão e de interação com criaturas.

Em minhas mais de 20 horas de jogatina, algumas boas vezes precisei começar minha progressão do zero por conta da conexão problemática que me fez desconectar submerso e meu personagem morreu afogado. Ou então quando um cavalo simplesmente começou a me atacar sozinho, meu personagem agarrou em uma pedra e eu não consegui fugir. Esses são os momentos mais frustrantes e punitivos do game, pois você não morre simplesmente por um deslize seu. Na verdade, você perde tudo que construiu durante uma dezena de horas simplesmente porque o jogo ainda não está estável ou bem preparado.


Sistema de combate arcaico

Outro ponto bastante negativo do jogo, pelo menos até então, é o seu sistema de combate. Isso principalmente por conta das faltas de otimização do jogo. Com exceção de criaturas lentas como tartarugas e dos próprios jogadores, é muito frustrante entrar em um combate. Isso porque as criaturas mais rápidas como ovelhas, rinocerontes, cavalos e aves, se movimentam de forma completamente desnorteada durante os combates, pulando de um lugar para o outro, apresentando falhas de física drásticas e o já conhecido rollback (quando o indivíduo anda em uma direção e é ‘teletransportado’ para alguns passos atrás).

Com tudo isso fica impossível enfrentar criaturas grandes demais como elefantes e girafas sem arriscar morrer devido a alguns desses problemas, e já falamos aqui sobre os prejuízos de morrer nesse jogo. Criaturas voadoras ou rápidas demais são piores ainda e, para completar, armas de longo alcance como o arco e flecha se tornam praticamente inúteis com esses problemas existindo.

Claro que esse problema está longe de ser permanente, pois algumas atualizações podem resolver bastante isso. Foi exatamente assim com ARK: Survival Evolved e também com o já citado Conan Exiles. Então nos resta esperar que novas atualizações de ATLAS melhorem um pouco essas mecânicas, que são muito importantes para o aproveitamento do jogo.

Barcos realistas e desafiadores

O sistema de embarcações é, de fato, o aspecto mais elogiável de Atlas até o momento. Isso porque eles se empenharam em criar mecânicas realmente inéditas e bem realistas para aquela que deve ser a principal mecânica do jogo. Já nas primeiras horas de jogatina é possível pagar um NPC com materiais específicos para a construção de uma jangada a vela bem simples. Entretanto, essa jangada já basta para começar a explorar de forma bem arriscada os mares do jogo.



Mares estes que são bem grandes e cheios de ilhas. O mapa todo do jogo, de acordo com os arquivos divulgados pelos desenvolvedores, é mais de vinte vezes maior do que os mapas de ARK, o que dá várias opções de exploração. Mesmo que todos os jogadores comecem nas ilhas centrais, que dão possibilidades mais razoáveis de sobrevivência, após alcançar o nível 8, todo jogador precisa explorar o território além desse arquipélago, para conseguir continuar aumentando de nível.

O controle das embarcações é bem complexo, mas também muito realista. Com o controle de aspectos específicos como o leme e as velas, seguimos inicialmente totalmente dependentes do vento, que é indicado por um sensor bem intuitivo e varia bastante dependendo do clima no jogo. O problema aqui é somente no momento de atracar a embarcação, que ainda possui alguns bugs de contato com a terra que podem até causar a destruição do barco. Felizmente, estes são mais raros de acontecer.


Independente de qualquer coisa, muito potencial

Atlas (PC) até o momento não possui exatamente muitas justificativas para ser um jogo única e exclusivamente online. Por se assemelhar bastante a outros títulos como ARK, Conan Exiles e Dark and Light (PC), fica a dúvida sobre os motivos da nova Instinct Games insistir em manter esse jogo como se fosse um MMORPG. Talvez ao longo das esperadas atualizações do título recursos que motivem mais o multiplayer surjam, mas fica ainda a sensação de “podia ter um single player”, como acontece nos outros títulos citados aqui.

Porém, independente dos grandes problemas do acesso antecipado e do conturbado lançamento, o título já apresenta melhoras de conexão se comparado aos primeiros dias de lançamento e a empresa tenta manter um contato constante com os jogadores através de seus canais oficiais no Twitter e Facebook, o que já demonstra certa preocupação em de fato melhorar o produto até a sua versão final, que ainda não possui previsão de lançamento.



Mas Atlas ao menos tem potencial para ser um ótimo título futuramente. Com uma ambientação pouco explorada atualmente e mecânicas interessantes que podem ser melhor aproveitadas, balanceadas e otimizadas, o jogo tem capacidade de ser um excelente título para se divertir com os amigos e principalmente construir ótimos roleplays. Infelizmente, a maior parte desse potencial ainda está latente, precisando de um investimento e trabalho duro constante dos desenvolvedores para fazer dele um ótimo título. Nos resta esperar.

Matéria produzida com cópia digital cedida pelo Studio Wildcard.

Gilson Peres é Psicólogo e Mestre em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014 e começou sua vida gamer bem cedo no NES. Atualmente divide seu tempo entre games de sobrevivência e a realidade virtual.

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