Discussão

Rock Band (Multi) conseguirá tirar o pó das guitarras de plástico?

Há muitos anos, guitarras e tapetes de plástico faziam parte da sala de muita gente. Agora, jogados em armários escuros, podem voltar a divertir famílias.


Jogos musicais existem há muito tempo. Mesmo quando ainda funcionavam com controles convencionais, a ideia de jogar e ao mesmo tempo interagir com músicas trazia pessoas que sequer tinham interesse ao mundo dos videogames. Com a evolução da tecnologia, diversos periféricos foram lançados, trazendo novas maneiras de jogar e se sentir no controle de um universo musical.


No final da década de 1990, era lançado no japão o jogo Dance Dance Revolution, que faria com que o jogador pisasse em setas no chão, no ritmo certo e conforme era instruído por indicações na tela. Inicialmente vendido apenas em máquinas de arcade, seu sucesso foi tão grande que conseguiu uma adaptação para o PlayStation, funcionando com um tapete de plástico.
Uma cena comum na casa dos jovens nos anos 1990: tapetes de plástico, TVs de tubo e tênis ao redor da sala.

A mania deixou de ser japonesa e se tornou mundial. Sequências do jogo foram feitas, e trouxeram a atenção de diversas mídias para o fato de as pessoas estarem levantando do sofá para jogar videogame. Foram muitos os que perderam peso, e até mesmo campeonatos oficiais começaram a acontecer em vários países. Era claro que isso era só o começo.

Todo mundo requebrando

Dance Dance Revolution não foi o primeiro jogo musical, mas causou uma euforia tão grande que logo conseguiu um competidor: Pump it Up. As máquinas coreanas tinham a mesma proposta, mas traziam mais setas para serem pisadas e em posições diferentes. Pelo Brasil, ainda é possível encontrar muitos de seus arcades.
A mania com jogos musicais passou a ser explorada com outros equipamentos. No Nintendo GameCube, dois pequenos tambores fizeram a alegria de muitos jogadores com Donkey Konga, que mesclava música com o jogo de aventura do famoso gorila. Era preciso batucar não só na parte superior do aparelho, mas também bater palmas.

Apesar de não contarem com aparelhos para serem jogados, outros games receberam atenção pela maneira como eram jogados e tratavam a música. Elite Beat Agents, lançado para o Nintendo DS, obrigava o jogador a ter ótima coordenação motora e direção para tocar em pequenos círculos na tela, no ritmo da canção. Mesmo com muitas telas riscadas e até mesmo quebradas, consagrou-se como um dos melhores jogos do portátil.
Não havia quem não se entregasse aos prazeres de Donkey Konga. Além de fácil de entender, o jogo era extremamente divertido.
Ainda assim, nenhum outro jogo causou maior comoção do que a série Guitar Hero. Oferecendo a ideia de criar uma banda com instrumentos de plástico, ocasião em que ninguém precisaria saber tocar de verdade, milhares de jogadores encontraram a oportunidade de se sentir na pele de um músico. Era possível comprar baterias, guitarras, microfones e baixos, e comprar músicas separadamente para criar um setlist próprio. Essa evolução do karaokê mudou toda a ideia de juntar os amigos em casa: enquanto ninguém cantasse, as chances eram de que boa música fosse feita.

Assim como Dance Dance Revolution, Rock Band (Multi) apareceu para competir no mercado, tendo exatamente a mesma proposta. Outros tantos jogos tentaram repetir a fórmula, mas alguns anos depois o mercado veria o seu declínio. DJ Hero (Multi) é um dos últimos jogos a lançar periféricos conhecidos, já que pouco tempo depois o mercado estaria empolgado com outras ideias: uma nova geração de consoles que estaria a surgir.

Uma fama passageira

Com a chegada do PlayStation 4, Xbox One e Wii U, os tapetes e instrumentos musicais de plástico foram parar no armário de muitas casas. Os jogos musicais, atualmente, são feitos por Just Dance (Multi) e Dance Central (X360/XBO), que fazem o jogador dançar de verdade, sem precisar ter nada em mãos. Além de mais confortável, não há a necessidade de comprar periféricos que quebrem com o tempo.
Algumas pessoas podem se surpreender com o número de periféricos que está dentro de seus armários.

Cada vez mais os usuários resistem a novas tecnologias. O que antes era considerado inovador desde o lançamento, hoje sofre de muita desconfiança e incerteza. Ao mesmo tempo, as pessoas se tornam multifuncionais, conseguindo realizar várias tarefas de uma só vez — como isso seria possível enquanto seguram guitarras pesadas?
Aparentemente, jogar videogame continua tendo como padrão a necessidade de sentar em um sofá e apertar botões em um controle.

Outra vertente dos jogos musicais que pode estar surgindo é ensinar a tocar instrumentos reais. Rocksmith (Multi) faz com que o jogador conecte sua guitarra ao videogame e aprenda a tocar músicas reais, podendo levar seus conhecimentos para a área profissional (ou apenas impressionar a garota da escola).
Quem precisa de professor?

Há também uma grande demanda por aplicativos e jogos para smartphones. Mesmo com milhares de cópias de jogos consagrados, grande parte do que está disponível é feita de games musicais. Vivemos em uma época na qual o jogador quer jogar muito, gastando pouco e sem ter trabalho algum para acessar conteúdos. Estaria ele disposto a voltar a ter bandas com instrumentos de plástico? A desenvolvedora Harmonix pensa que sim.

A volta dos que não foram

Nos últimos dias, muitos foram pegos de surpresa com o anúncio de um novo Rock Band (Multi), para a atual geração. Com suporte aos antigos instrumentos e a promessa de trazer todas as músicas já lançadas, o novo jogo terá a ajuda dos fãs para garantir a melhor experiência possível e conter músicas que agradem à grande maioria.

Aquele sentimento de nostalgia resolve aparecer. É hora de pegar as guitarras, tirar o pó e aquecer os músculos dos dedos. Mas paro e penso alguns minutos. Será que estarei disposto a pagar por mais um jogo musical, que trará apenas mais do mesmo e que corre o risco de voltar ao armário alguns meses depois?
Os instrumentos dos antigos consoles funcionarão no novo Rock Band. Resta saber quais deles.

É preciso algo a mais. Talvez fazer uso da realidade virtual, ou acrescentar novos instrumentos. Ou, quem sabe, tornar tudo mais realista, com uma dificuldade maior e músicas de outros estilos. É difícil de enxergar um cenário positivo para algo que já teve o seu fim decretado há tantos anos. Ao menos, muitas festas voltarão a ser animadas.

Um futuro musical

Mesmo sendo cético com os instrumentos de plástico, os games musicais estão longe de acabar. Na última década, grandes jogos como LocoRoco (PSP) e Patapon (PSP) mostraram que é possível inovar e trazer diversão sem precisar carregar enormes aparelhos, bastando haver uma fórmula que utilize as funções do console com precisão.
A gente também pode pedir um novo Elite Beat Agents?

Há diversas possibilidades de interação com a geração atual. Com o Wii U, temos uma enorme tela de toque e controles com sensor de movimento. O Xbox One tem o Kinect, que desempenha diversas novas maneiras de colocar o jogador em um novo universo. O PlayStation 4 tem um controle com saída de som e botão sensível ao toque. Por que não aproveitar isso ao invés de lançar novos produtos, que só acumulem e corram o risco de serem esquecidos?

Mais uma vez, pensemos no futuro. Há óculos de realidade virtual e aumentada chegando por aí, e se popularizando cada vez mais. Apesar de ser impossível pensar em passar horas pulando com um óculos na cabeça, seria incrível se sentir em um palco de verdade com fãs cantando sua música ao redor. Mas enquanto isso não for possível, o novo Rock Band será apenas uma lembrança de que tudo precisa evoluir e, se a saudade bater, ainda tenho o meu console da geração anterior para acabar com ela de vez.


Revisão: Vitor Tibério
Capa: Felipe Fabrício

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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