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O carisma e força de Elizabeth abalaram o(s) mundo(s) de Bioshock Infinite

Não importa em qual universo for, Elizabeth é uma das personagens mais fantásticas dos games.


Bioshock Infinite é certamente um dos melhores games que a indústria eletrônica já produziu. Sua jogabilidade bem desenhada e a história envolvente mergulham o jogador em um universo de fantasia e ficção de onde é difícil querer sair. Mas a verdadeira “cereja do bolo” dessa obra de arte digital não é a fabulosa cidade flutuante de Columbia ou os incríveis Vigors que dão poderes devastadores. Seu nome é Elizabeth. Quer saber mais sobre essa jovem tão inocente que consegue roubar a cena no game e virar tudo de pernas para o ar (literalmente)? Então prepare-se para conhecer uma personagem única!
CUIDADO: O texto a seguir pode conter spoilers para quem não jogou Bioshock Infinite. Leia por sua conta e risco!

“Traga-nos a garota, e limpe a sua dívida”

Elizabeth faz sua primeira aparição em Bioshock Infinite depois de quase duas horas de gameplay. Até esse momento, tudo que o personagem principal, Booker DeWitt, sabe é essa frase que ilustra o subtítulo dessa parte da matéria. Ele precisa trazer a garota de volta para Nova Iorque se quiser ter suas dívidas quitadas. Certamente ele acaba descobrindo bem cedo que não é uma tarefa fácil chegar até a torre em que ela está presa. Mas quando ele finalmente alcança o topo da estrutura e cai aos pés de uma bela jovem assustada, mal ele sabia que tudo seria diferente.
A falta da ponta do mindinho tem uma história interessante e até dá uma característica única a Elizabeth.

Com um olhar inocente e esbanjando simpatia e carisma, Elizabeth nem parece uma jovem de 17 anos que passou toda a sua vida presa em uma torre dentro de uma estátua, sem nenhum contato com o exterior. A garota parece aceitar sua condição sem se revoltar, mesmo porque ela vive cercada de uma imensa biblioteca e seus verdadeiros amigos estavam nos livros. Ela ainda sonha com o dia em que sairá de seu confinamento e poderá ir para a cidade de seus sonhos e viver feliz em Paris. Uma pena que Booker não é exatamente o cavaleiro na armadura dourada e não se preocupa muito em frustar as expectativas de Elizabeth quanto a sua saída apenas para a levar até Nova Iorque.
Ao sair de sua prisão, tudo é novo e belo para Elizabeth. Pena que o mundo não é tão cor-de-rosa quanto ela imagina.
Quando ela escapa de sua prisão em meio a uma fuga frenética de seu fiel guardião, o Songbird, Elizabeth descobre que ela havia sido objeto de estudos científicos durante toda sua vida e que o mundo não é exatamente tão belo e simpático quanto ela poderia imaginar. Ela tenta aproveitar o ar fresco do exterior e as pessoas e músicas ao seu redor para se divertir como a criança que ela nunca pode ser. Mas em pouco tempo seu mundo colorido se transforma em um mar de batalhas e sangue em que ela luta para proteger Booker e escapar da polícia que tenta levá-la de volta à torre. Até mesmo seus poderes de manipular fendas temporais e seus anos de estudo em fechaduras e criptografia agora possuem um novo significado. O que antes eram brincadeiras e passatempos para ela, agora são ferramentas indispensáveis para tirar seu salvador do perigo.
Não interessa como, quando ou em que universo ela vai precisar ir para obter respostas e escapar de Columbia.

É impressionante ver o quanto sua personalidade e visual se transformam ao longo de sua jornada ao lado de Booker para encontrar Comstock e escapar de Columbia. São três momentos no game que modificam Elizabeth profundamente. No primeiro, ela deixa para trás seu ar inocente e um pouco de sua simpatia ao ser forçada a matar para salvar uma criança. Ela abandona suas antigas roupas, passando a ousar o vestido de sua mãe adotiva, Lady Comstock, que lhe dá um visual mai ousado e determinado. Depois, vemos o quanto anos de tortura e lavagem cerebral podem transformar uma pessoa em alguém cheio de remorsos e amarguras, quando Booker encontra uma Elizabeth 70 anos mais velha no futuro.
Mesmo cheia de remorsos e amarguras, a Elizabeth do futuro ainda tem esperanças de consertar o passado.

A última transformação de Elizabeth é mais drástica e afeta seu corpo e mente. Quando ela finalmente destrói com a ajuda de Songbird a torre que, além de sua prisão, drenava e armazenava seus poderes, ela se transforma em um ser onisciente e onipresente, podendo entrar e sair de qualquer universo e realidade que desejar. Com um ar quase divino, Elizabeth descobre a verdade sobre seu passado e que Booker era seu verdadeiro pai, enquanto Comstock era o Booker de outro universo que a roubou. Sentindo um peso destruidor em seu coração ela afoga Booker no seu batismo de redenção, antes que ele se tornasse Comstock. Assim, Elizabeth destrói diversas linhas de tempo e impede inúmeras desgraças.
Se uma já era boa, imagine várias!

Mesmo com essa confusão paradoxal, Elizabeth continua existindo como um ser multidimensional. É uma pena que seu poder quase infinito não possa lhe trazer paz, pois durante a campanha do DLC do game, Burial at the Sea, descobrimos que ela se dedicou a visitar diferentes realidades para se certificar que Comstock estaria morto. Essa “caça à Comstock” chegou a levá-la diretamente à Rapture, em que ela assumiu um visual típico dos anos 50 para enganar o detetive Booker e, sacrificando uma pobre Little Sister, Sally, conseguir matá-lo nas mãos de um Big Daddy.
Com um visual mais sexy e muito mais determinada, Elizabeth vai para Rapture.

Será que finalmente, depois de evitar tantos sofrimentos e de buscar pela sua própria salvação em diferentes universos Elizabeth conseguiria finalmente descansar em Paris? Talvez sim, pelo que o início do segundo episódio do DLC mostrava. Mas nem mesmo o sentimento de vingança da jovem conseguiu abafar o peso na consciência por ter matado a Little Sister só para ver Booker morto. Com um pensamento firme, ela retorna mais uma vez a Rapture, mas infelizmente é morta por um Big Daddy. E quando tudo parecia ter um fim, ela descobre que sua existência multiuniversal colapsou em apenas uma versão sua, sem poderes.
Ela sabia o destino que lhe esperava se retornasse a Rapture. Mesmo assim, ela se arriscou.

Ainda viva, mas sem entender muito bem como, Elizabeth tenta desesperadamente salvar a pequena Sally das mãos de Atlas. A jovem se machuca e corre muitos perigos sem sua capacidade de manipulação temporal, mas com determinação ela vai longe. Elizabeth descobre muitos outros segredos sobre sua infância, Columbia e até sobre Songbird. São tantas informações que, confiante de que esse era o motivo de ela ter voltado a Rapture, ela morre nas mãos de Atlas sabendo que Sally seria salva por Jack (em Bioshock) por sua causa.
E sacrificou sua vida para ver o ciclo de morte e sangue iniciado em Columbia terminar em Rapture.

Ufa! Quantas histórias não é mesmo? Talvez nem mesmo Elizabeth poderia imaginar que sua vida daria um enredo tão interessante quanto os livros de fantasia que lia em sua prisão.

Uma simpatia multiversal

Bem, mas tirando toda essa história fantástica e cheia de reviravoltas, por que Elizabeth é uma personagem tão marcante? Inúmeras razões. Talvez a mais importantes delas é que Elizabeth é tão humana que, na maior parte do game, é normal o jogador não acreditar que ela seja apenas um NPC controlado por uma IA. O trabalho feito para a criação de Elizabeth pela equipe de desenvolvimento de jogo é surpreendente. Desde a mecânica de gestos e falas até a maneira como ela auxilia durante aos combates, tudo torna Elizabeth muito próxima de uma pessoa de verdade.
Você é real?

Ao longo do jogo, ela fala com o jogador diversas vezes de maneira quase informal, além de passear pelo cenário como se tivesse vontade própria. Somos tão absorvidos por essas atitudes de Elizabeth e envolvidos pela sua história que a sensação de que estamos nos comunicando com uma pessoa de carne e osso é muito real. A interação dela com o jogador é muito bem elaborada e desenvolvida conforme o game progride. Cada vez que ela joga uma moeda que encontrou no chão ou uma munição durante um combate, é como se estivesse falando diretamente com o jogador.
Muito mais do apenas um personagem coadjuvante.

Apesar de que a maneira que ela iria se relacionar com o jogador não tenha mudado desde a primeira demo do game, o visual de Elizabeth sofreu algumas alterações até o lançamento do título. A forma de seu rosto e cabelo foram mudados e essa versão sua até ganhou uma participação especial na última cena do game em que aparecem Elizabeths de múltiplos universos. Porém, algumas habilidades da jovem foram modificadas. Por exemplo, originalmente, além de poder abrir fendas temporais, Elizabeth poderia utilizar uma forma de telecinese, uma ideia que for mais tarde descartada.
Muitas diferenças entre sua versão inicial e a apresentada no jogo.

Mas mesmo com ou sem poderes, a personalidade dessa personagem fantástica é o que permanece no coração de muitos jogadores. Até mesmo no DLC Elizabeth provou que sem poderes ela continua uma jovem com muitas ideias e determinação e que, apesar de todas as dificuldades que possam aparecer no caminho (até uma lobotomia), ela não irá desistir. Uma pena que a(s) história(s) do(s) universo(s) de Bioshock Infinite já tenham se encerrado e provavelmente não veremos o rosto vivaz e determinado dessa jovem novamente. Mas, quem sabe em outra realidade talvez sim, não é? Como mostra o divertido vídeo do canal Brentalfloss do Youtube, ela realmente deixou uma fenda em nossos corações.


Revisão: Alberto Canen
Capa: Daniel Silva

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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