Resenha

Para caçar o Easter Egg de Halliday, até eu queria ser "O Jogador Número Um"

Você pode até não acreditar em paixão a primeira vista entre seres humanos, mas entre uma pessoa e um universo de ficção, isto realmente e... (por Gabriel Toschi em 17/11/2013, via GameBlast)

Você pode até não acreditar em paixão a primeira vista entre seres humanos, mas entre uma pessoa e um universo de ficção, isto realmente existe. O amor aparece quando você só está em contato com aquela história faz 10 minutos e já se apaixonou, quer saber o final e o que acontece depois dele.

Quando eu comecei a ler O Jogador Número Um, eu esperava apenas uma boa trama, mas depois que ele me apresentou o primeiro easter egg da história dos videogames, no Adventure do Atari, logo de cara, eu percebi que a minha paixão por esta obra ia crescer. E cresceu tanto que posso dizer: o livro é recomendado para fãs de videogames, fãs de videogames antigos, fãs dos anos 80 e todos os outros que não se encaixam nestes grupos.

ATENÇÃO: o texto traz alguns spoilers do livro O Jogador Número Um - mas todos eles você vai acabar sabendo ao ler as primeiras páginas. De toda forma, a escolha é sua!

Quando o gosto por ovos de Páscoa sobe a cabeça

“Ovo de Páscoa” é um termo bastante comum e basicamente todos sabem o seu significado quando se trata de chocolate. Quando falamos em “easter egg”, uma coisa totalmente diferente vem a cabeça de quem gosta de videogame. Ao usar este termo, estamos falando de alguns segredos escondidos pelos desenvolvedores nos jogos e que muitos jogadores passam horas e horas em sua busca por eles, como uma caça aos ovos de Páscoa. A trama de O Jogador Número Um é baseada neste conceito. Não em um qualquer segredo, mas no maior segredo de todos os tempos: o Easter Egg de Halliday.

A história se passa em um planeta Terra visto pelas pessoas mais pessimistas do mundo: uma grande crise alimentar, econômica e social, a poluição e o aquecimento global tomam conta e a vida na Terra quase chega nos níveis do filme Wall-E, para fins de comparação. A luz no fim do túnel era o MMORPG OASIS, criado por James Halliday: o melhor jogo que já existira, com os melhores gráficos possíveis, um verdadeiro mundo novo, acessado por um console que mais parecia a mistura de um Oculus Rift com o Kinect e a Power Glove com tecnologia háptica.


O OASIS tinha se tornado o centro da vida das pessoas a partir do momento que assumiam um personagem no jogo e começavam uma vida nova. Com o sucesso do game, Halliday se tornou a pessoa mais rica do planeta e a sua morte foi uma notícia que deixou todos em choque. Não realmente pelo seu óbito, mas pelo seu testamento, já que não tinha filhos ou parentes.

No dia de sua morte, um vídeo foi publicado no OASIS com Halliday contando que tinha escondido um easter egg no jogo e quem o encontrasse e vencesse seu desafio, ficaria com toda a sua fortuna, além do controle do grande MMO. Por anos pessoas caçaram em todos os bits e bytes dos mapas para encontrar pistas, mas nem menos uma mensagem de “tente de novo” eles conseguiram. Até o dia que Wade Watts, protagonista da trama, encontrou o começo do desafio e deu início a maior caçada de todos os tempos: a caça em busca do Easter Egg de Halliday!


Bom, contando assim, não parece nada demais, não é? A melhor parte, entretanto, é a personalidade de Halliday. Todo o seu easter egg é baseado na cultura que viveu sua infância e adolescência, a parte de sua vida que mais gostava. Ou seja: todos os desafios propostos por ele para Wade e todos os outros usuários do OASIS eram baseados na cultura dos anos 1980/1990, principalmente filmes, música, livros, programas de TV e videogames (sem contar a grande dose de RPG de mesa)!

Referências, referências e mais referências!

Joust é apenas uma das referências aos arcades
Tendo todo o desafio proposto por James baseado na cultura pop dos anos 80, temos o verdadeiro espírito do livro, que anda junto com uma trama envolvente: a quantidade extrema de referências a jogos, livros, filmes, programas de TV, músicas e qualquer outra coisa relacionada a esta época.

Diferentemente de outras obras ficcionais, onde falar destas coisas são em simples citações ou homenagens (como em Knights of Pen and Paper, por exemplo), em O Jogador Número Um, elas realmente fazem parte da história por serem a base do Easter Egg de Halliday. Todos os desafios propostos aos jogadores, todas as respostas para os enigmas, todos os caminhos a serem seguidos - e, consequentemente, tudo que você deve entender para achar a obra interessante - podem ser encontrados na cultura dos anos 80. Você aprende e conhece juntamente com o desenrolar da trama coisas que você provavelmente viveu ou que seus pais viveram e você pode adorar conhecer.

Acima de tudo, uma história fenomenal

Ernest Cline ainda conseguiu trazer uma história excepcional em sua obra, além da qualidade exorbitante (e nem por isso é ruim; muito pelo contrário, a medida certa para Cline é “exorbitante”). A trama de Ready Player One (no original, em inglês) traz uma história de amor, uma grande lição sobre até onde vai a amizade e uma reflexão muito importante para a atualidade: queremos mesmo uma OASIS?

Será que realmente queremos uma realidade virtual? Será que o mundo, mesmo na situação que pode ficar, pode ser substituído por uma terra feita por computador, onde podemos ser quem quisermos? É hora de você ler O Jogador Número Um - nem preciso dizer de novo que é altamente recomendado a todos, né? - e tirar as suas próprias conclusões. Te vejo no OASIS!

Revisão: Ramon Oliveira de Souza
Capa: Felipe Araujo

sempre com projetos criativos, estranhos ou os dois ao mesmo tempo. desenvolvedor de software, game designer e escritor sobre as coisas que eu gosto.
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