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Análise: Ancestors Legacy (PC) une criatividade com ambientação nórdica de forma primorosa

O novo game da Destructive Creations tem conteúdo de primeira com ótimas mecânicas que abusam da estratégia sem cair na mesmice.

Jogos de estratégia em tempo real, ou simplesmente RTS, não estão muito em alta na atualidade. Com poucos grandes títulos lançados nos últimos tempos, podemos afirmar que este é um gênero que acabou se tornando de nicho. Entretanto, vez ou outra surge uma proposta um tanto quanto interessante que faz jogadores curiosos voltarem seus olhares novamente para os RTS. Este pode ser o caso de Ancestors Legacy (PC), game independente da Destructive Creations que dá um show tanto na estratégia como no visual, mas principalmente na história.


Para quem adorava jogar a franquia Age of Empires nas décadas de 1990 e 2000 pode gostar de algumas coisas que temos em Ancestors Legacy. Entre elas, a preocupação que o game tem em contar algumas histórias nórdicas com o máximo de fidelidade que conseguiram. Claro que o jogo não é perfeito e desliza um pouco em sua complexidade, mas a proposta bacana e o visual fantástico já podem fazer valer a experiência.


Contando histórias nórdicas

O jogo apresenta em sua campanha a história de quatro grandes povos nórdicos: germânicos, vikings, anglo-saxões e eslavos. Dentro dessas histórias, acompanhamos alguns grandes ícones de cada uma, como Ulf Ironbeard e Rurik, exploradores vikings que guerrearam contra diversos povos europeus em suas explorações e fizeram dos vikings a lenda que eles são atualmente.

O interessante do modo campanha de Ancestors Legacy é justamente a fidedignidade com alguns fatos históricos, mostrando bastidores de algumas jornadas e deixando o jogador numa posição complexa frente aos objetivos que precisa cumprir. Essa ideia de contar uma história antiga através de um RTS não é original, pois ficou bastante popular com a franquia Age of Empires, mas é algo muito interessante que acabou se perdendo entre os inúmeros RTS futuristas que vemos atualmente.


Visual de primeira com tons de realismo

Outro aspecto que chama bastante atenção em Ancestors Legacy é o seu visual. Com um mapa altamente detalhado, estruturas e personagens em escala real e bastante variedade em seus terrenos, o game dá a sensação de estarmos, de fato, vivenciando como deuses as jornadas destes povos nórdicos. 

Isso ainda é potencializado com um modo de câmera que nos coloca quase que em primeira pessoa na hora das batalhas. Mesmo que o recurso seja opcional, é muito bacana ver bem de perto a confusão e desordem que eram as batalhas dessa época, além da violência gritante e confusão sufocante. Esse recurso deixa a ambientação do jogo ainda mais imersiva, algo que é consideravelmente difícil de ser feito com jogos desse gênero.



Para além do visual, temos também uma trilha sonora muito bem escolhida, com músicas nórdicas que formam uma moldura belíssima para tudo que estamos vendo no jogo. O ritmo acentuado e gritos de guerra ajudam a dar o clima de guerra que o jogo precisa.

Poucos batalhões, mas com a mecânica certa

Para jogadores mais ávidos de RTS, Ancestors Legacy pode causar certo incômodo por algumas de suas escolhas de mecânicas. Entre elas, não temos total liberdade para coletar recursos, um dos pontos mais fracos do jogo. Aqui, temos domínio apenas das casas que ficarão encarregadas de coletar recursos como metal, madeira e comida para nossos soldados. Os aldeões vão e voltam sozinhos e a única forma de potencializar essa coleta é buscar mais lugares, o que limita um pouco a estratégia.



Ao mesmo tempo, são poucas as opções de construções para serem feitas. Essas, mais uma vez, limitam um pouco as escolhas dos jogadores, pois não temos liberdade de estabelecer onde e como elas serão construídas. Seus lugares já são pré determinados na aldeia ou vila, o que impede que jogadores usem a arquitetura ao seu favor durante as batalhas. A limitação de quantidade de opções também é sentida nas unidades de batalha, mas essas possuem um detalhe mais agradável: sua formação.

Isso porque o jogo funciona, tal como Warhammer 40k: Dawn of War (PC), através de batallhões. Assim, quando criamos uma unidade, na verdade estamos criando um batalhão inteiro. Infelizmente, o limite máximo aqui é de 10 batalhões apenas, o que limita um pouco a quantidade de unidades que iremos utilizar ao mesmo tempo em campo. Felizmente, o jogo conta com uma mecânica de manutenção desses batalhões muito boa.


Cada indivíduo importa no final

Quando indivíduos são mortos nos batalhões e, consequentemente, a vida do batalhão como um todo começa a descer, temos duas ferramentas para melhorá-los: o acampamento de descanso e o recrutamento de novos membros. Assim, com o primeiro podemos curar a vida do batalhão deixando-os descansar um pouco, o que os deixa temporariamente com menos ataque e defesa. Por sua vez, podemos também recrutar novos membros para o batalhão em casas ao longo do mapa, para fazer o batalhão voltar a sua força total.

Além disso, o jogo apresenta algumas formas individuais de ir melhorando esses batalhões, fazendo com que cada unidade seja, de fato, personalizada e importante para o final de tudo. Isso porque, quanto mais batalhamos e sobrevivemos com um batalhão, mais experiência ele ganha. Esta pode ser investida em agilidade, defesa ou ataque, melhorando pontos específicos daquele batalhão. 



Fora isso, temos também a melhoria individual de armaduras, que tem ganhos e perdas para cada batalhão, aumentando, por exemplo, seus pontos de defesa e ataque, mas diminuindo consideravelmente sua mobilidade. Isso faz com que a estratégia do jogo seja muito mais voltada para o mantimento destes batalhões do que o sacrifício gratuito de cada um deles, algo que não é exatamente muito comum de se ver no gênero.

Por fim, o esquema de batalhas com os batalhões ainda conta com interações com o campo muito interessantes. Possibilidades como a de se esconder em gramas altas para armar emboscadas, colocar armadilhas no campo e até flanquear os inimigos para causar mais dano são características que deixam os combates com maior possibilidade estratégica.


PVP poderia ser melhor

Todos esses detalhes mostram como o jogo é muito mais focado para combates do que para a administração de elementos como comércio ou desenvolvimento tecnológico propriamente dito. Assim, temos um sistema de combate que combina poucas variedades com detalhes gratificantes que deixam a batalha ao mesmo tempo simples e complexa, dependendo de contra quem se está jogando.

Porém, quando vamos para as batalhas contra outros jogadores, isso se perde um pouco. Isso porque os modos de disputa são simples demais, se resumindo em domínio e extermínio. Ou seja, ou você mata completamente todas as unidades do seu inimigo, ou então domina completamente todos os postos do mapa durante um determinado tempo. 



Isso faz com que algumas mecânicas estratégicas acabem caindo no desuso, como as armadilhas e emboscadas, que são ótimos recursos, mas totalmente dispensáveis durante esses embates. Talvez novas atualizações possam resolver esse problema, com novos modos de jogo e um sistema online mais robusto.

Uma boa forma de reviver a história

Ancestors Legacy não é o melhor jogo do seu gênero, mas possui bons motivos para ser jogado. Os recursos de câmera e o visual detalhista do game fazem dele um ótimo recurso para vislumbrar fatos históricos que muitas vezes são transformados em lenda, romantizados e até ironizados pela cultura pop. Como a cultura nórdica está em alta já há algum tempo, isso justificaria ainda mais curiosos poderem experimentar o game.



Porém, os fãs mais ávidos pelo RTS, podem encontrar aqui uma ótima forma de distração, mas não tão genial como outros jogos do gênero. Assim, o jogo acaba valendo muito mais a pena pelas campanhas históricas do que pelo seu PVP. Inclusive, essas campanhas criam situações muito mais interessantes para se utilizar de mecânicas como emboscadas, armadilhas, tochas e modo defensivo do que as batalhas contra outros jogadores, que se resumem em guerrear indiscriminadamente.  Quem sabe futuras atualizações resolvam isso.

Prós

  • Visual detalhista e realista;
  • Sistema de combate complexo na medida;
  • Modos de combate e habilidades de batalhão melhoram a estratégia;
  • Trilha sonora temática de primeira;
  • Campanhas de episódios históricos excelentes;
  • Modo câmera ajuda na imersão;
  • Nível de dificuldade interessante.

Contras

  • Modos de adquirir recursos simples demais;
  • Modo multiplayer um pouco vazio;
  • Poucos modos de combate PVP;
  • Pouca variedade de unidades e construções.
Ancestors Legacy - PC - Nota: 7.5
Revisão: Marília Carvalho
Análise produzida com cópia digital cedida pela 1C Company
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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