Perfil

“Manny” Calavera, o morto mais prestativo de Grim Fandango (Multi)

Ceifador, agente de viagens, revolucionário, dono de casino e capitão de navio.

Nem mesmo a terra dos mortos de Grim Fandango (Multi) se safa do crime e da corrupção dos negócios, mas para todo crime, existe um herói. Não importa a situação, o protagonista Manuel Calavera sempre encontra um jeito de sair do aperto com ideias mirabolantes e prova ser osso duro de roer aos seus oponentes, acidentalmente encantando donzelas por onde passa.

“Meu nome é Manny Calavera, sou seu novo agente de viagens”

Devido a trama do jogo, poucos mortos tem o prazer de ouvir a apresentação do personagem de forma apropriada, e aqueles que ouvem tendem a não querer se lembrar dele. Inicialmente, Manuel Calavera trabalha na D.O.D (Department of Death, ou em português Departamento da Morte) como ceifador e agente de viagens para o destino eterno de seus clientes com o objetivo de pagar uma dívida por um pecado que cometeu (e nem mesmo sabe qual é) quando ainda estava vivo e alcançar o nono submundo. Seu motorista corporativo é um demônio chamado Glottis, que acaba por acompanhar o protagonista por toda sua jornada e servir de auxílio essencial.


Uma característica marcante de Manuel Calavera é a sua espécie de terno sem fundo, no qual o protagonista guarda todos os itens de sua jornada. Seja uma grande baguete, um osso, um abridor elétrico de latas ou uma bexiga, o terno de Manny com toda certeza serve de lugar adequado para um armazenamento seguro.

Manny não tem muitos amigos na empresa e gasta seu tempo livre papeando com sua secretária, ouvindo reclamações de seu chefe Hector LeMans, bisbilhotando a sala de seu odiado colega de trabalho Domino ou trocando alfinetadas quando este último está presente. Suas comissões são tão variantes quanto os pacotes de viagem oferecidos pela D.O.D: um trem expresso classe A que alcança o submundo em 4 minutos ou a linha Excelsior, uma bengala-bússola com tempo de viagem estimado em 4 anos.



Apesar de competitivo, incrivelmente sarcástico e de ter uma língua afiada, Manny não está livre de pesares em sua mente, expondo, por exemplo, no dia dos mortos, que não tem ninguém que queira visitar no mundo dos vivos. Com clientes e comissões tão ruins, sua dívida dificilmente poderia ser saldada, o que leva o personagem a ser extremamente pessimista no começo da jornada, afirmando estar “condenado a vender bengalas para um bando de burros por toda a eternidade”.

O agente de viagens chega a pensar até se seria mais feliz trabalhando em um barco, mas sabe que clamaria sempre por um cargo maior. A ambição de Manuel torna-o cego e egoísta, até que ele se arrependa um tanto quanto tarde.

A paixão por um cliente santo, rico e morto

 Não existem planos de corrupção sem falhas, e a falha que leva Manny a conhecer Mercedes Colomar (Meche) em seu serviço acaba por ser um tanto quanto conveniente. Meche é exatamente o tipo de cliente que o agente de viagens precisava: uma mulher de boas intenções que não consegue nem mesmo se lembrar das maldades que praticou quando ainda era viva.


Quando Manuel encontra Mercedes pela primeira vez, pensa somente no quão útil a cliente poderia ser para livrar-se de sua dívida. Porém, é quando um equívoco ocorre e a moça decide tomar seu rumo a pé para não incomodar o agente de viagens que o personagem passa a ver a situação de uma maneira diferente, desenvolvendo até mesmo uma paixão inesperada (que recusa admitir) e procurando saber para onde sua cliente poderia ter ido.

Eventualmente, Manny conhece Salvador Limones (Sal), líder de uma aliança revolucionária que já trabalhou na mesma D.O.D e revela para o agente de viagens o motivo pelo qual ele nunca conseguia e nem conseguiria clientes dignos de um bom pacote de viagem para o nono submundo. Juntando-se à Aliança das Almas Perdidas, Manuel Calavera passa a ser mais otimista e ajuda Sal com diversos afazeres de grande importância para a aliança em troca de auxílio na procura por Meche, desta vez partindo na direção da moça, cada vez mais empenhado.

Dono de casino e terno sem fundo

 Após atravessar uma floresta cheia de perigos, como castores flamejantes roedores de ossos, sem sinais significativos de Meche, Manny acaba inesperadamente dono de um restaurante pacato na cidade de Rubacava, onde espera um dia esbarrar com sua cliente.

Manuel não é o tipo de morto que desiste fácil. Após Rubacava crescer, Manny conquistar uma vida invejável e o restaurante ser transformado no Calavera Café (que também funciona como boate e casino), o protagonista se presencia uma das piores cenas que poderia presenciar em sua vida — ou morte: Domino, seu ex-colega de trabalho, partindo com Meche em um cruzeiro.


É neste momento em que a verdadeira mudança de caráter de Manny pode ser compreendida, e a sua paixão por Meche, inegável. Mesmo com uma vida muito melhor do que a que levava, Manuel passa por inúmeros desafios e conquista um navio capaz de alcançar Puerto Zapato, o destino do cruzeiro da cena que presenciou.

Capitão de navio e justiceiro final

O passar do tempo em Grim Fandango é mestre em evidenciar o desenvolver da força de vontade e a participação do protagonista na sociedade. Nem mesmo o aparecimento de armas de brotamento (espécie de revólver biológico) são capazes de impedir os deslocamentos de Manny em direção de Meche. Porém, suas tarefas não chegam ao fim mesmo depois de resgatar a sua cliente.


Deparando-se com o adoecer de seu melhor amigo Glottis, o protagonista chega à conclusão de que a hora de colocar um ponto final em tanta podridão não pode mais ser adiada, assim utilizando seus laços com a aliança revolucionária de Sal para assumir sua última função: a de justiceiro final, a que reverteria toda a enganação pela qual o personagem passou em respeito.

Glottis se recupera e Manuel Calavera alcança o seu objetivo, presencia fatalidades, mas o mais importante: muda a vida de seu melhor amigo para melhor e encontra-se digno de viajar para o nono submundo, acompanhado de sua paixão, Meche, que realmente provou-se um passe para o descanso eterno para o protagonista, mas não da maneira que ele pensava.
Manuel Calavera já marcou presença em outro jogo da LucasArts, The Curse of Monkey Island, em uma cena em que um esqueleto idêntico ao protagonista de Grim Fandango pode ser encontrado caído em uma mesa com o bilhete: “Pergunte-me sobre Grim Fandango”.

Um defunto sem igual

 Boa parte dos jogadores tem a impressão errada de Manuel no começo de Grim Fandango por não estarem cientes de que aquele egoísmo não se trata de uma marca de nascença, mas uma influência da vida parada que o protagonista vivia. Conforme Manny passa por apuros com Glottis e começa a experienciar a aventura de morrer, a preocupação em saldar sua dívida é substituída pela consideração de que estar na terra dos mortos pode não ser tão ruim assim e por uma preocupação com Meche que insiste em tentar disfarçar em meio de seus sarcasmos.


Mas as palhaçadas e a enorme criatividade de Manny não são os únicos fatores responsáveis por torná-lo um personagem memorável. O jogo Grim Fandango foi um dos poucos que tiveram a honra de ser localizados pela BraSoft, particularmente com uma dublagem completa em Português Brasileiro com a participação de Guilherme Sant’anna, ganhador do Prêmio Shell de Teatro e que manteve de forma essencial as características do protagonista.

O contexto de Manuel Calavera leva a considerarmos não só a forma com que uma rotina pode influenciar as capacidades de um particular, mas o quanto uma pessoa pode mudar simplesmente através da diversidade de vivência. Com isso, duas palavras servem de enorme caracterização para Manny: autêntico e arrojado.

Revisão: Farley Santos
Rafael Smeers Moraes escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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