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Análise: Moonlighter (Multi) — mercador de dia, aventureiro de noite

Leve uma vida dupla nesse indie que mistura exploração de calabouços e administração de loja.


Como será a jornada de alguém que é proprietário de uma loja e ainda precisa ele próprio procurar por mercadorias em calabouços? A resposta está em Moonlighter, título indie de ação e aventura. Nele, controlamos um jovem chamado Will, que tem como desafio balancear o trabalho em sua loja e a exploração de ruínas misteriosas. Com toques de administração e roguelike, o jogo conquista com uma aventura charmosa e viciante.


A aventura de Moonlighter é centrada em um conjunto de portais que foram descobertos durante uma escavação. Cada um deles leva a uma exótica dimensão diferente que fez com que pessoas de todo o mundo aparecessem para explorá-los a fim de conseguir fama e riqueza. Por causa disso, foi fundada uma vila mercante chamada Rynoka, nas proximidades da escavação, que passou a ser um local amplamente visitado por aventureiros. O protagonista é Will, um rapaz que herdou de sua família a conhecida loja Moonlighter. Além de cuidar do estabelecimento, ele também decide explorar os calabouços em busca de seus mistérios e a fim de realizar seu sonho de ser um herói.

Trabalhando na loja durante o dia

O ciclo de jogo de Moonlighter consiste em duas principais atividades: administração da loja durante o dia e exploração de calabouços à noite.


Cuidar da loja Moonlighter é simples e mais divertido do que parece. Durante o dia, podemos abrir o estabelecimento para possíveis compradores. É o próprio jogador que define o valor dos objetos e, como não há preço fixo, tem um pouco de tentativa e erro para descobrir a quantia correta. Para isso, precisamos observar as reações dos clientes: eles se assustam com preços absurdos (e vão embora) e ficam animados com valores muito baixos. O histórico dos preços fica registrado em um caderno, o que torna mais fácil tomar decisões no futuro.

Administrar o estabelecimento exige constante atenção, pois temos que observar as reações das pessoas, cuidar pessoalmente das vendas, ajustar os preços e ficar de olho em possíveis ladrões. Em um primeiro momento, eu pensei que ser vendedor seria enfadonho, porém me diverti bastante — quando a loja está lotada, as coisas ficam bem frenéticas e precisamos nos desdobrar para dar conta de tudo. Há também a presença de uma mecânica que permite influenciar o mercado: itens vendidos a valores baixos se tornam populares, o que aumenta a procura e permite que a gente cobre mais que o normal. Mais mecânicas são liberadas conforme atualizamos a loja, como encomendas (missões), vitrines especiais e objetos de decoração.


Arriscando-se em calabouços durante a noite

Quando não está cuidando da loja, Will explora os calabouços dos portais. Lá, o mercador enfrenta inimigos e busca objetos valiosos para serem vendidos na Moonlighter. Esses momentos são de dungeon crawling puro, ou seja, o herói explora salas e derrota inimigos para avançar. No final do terceiro andar, há um chefe que precisa ser derrotado para liberar a próxima área. As masmorras têm um toque de roguelike com andares gerados proceduralmente e morte com punições.


A ação nos calabouços é intensa e difícil: os inimigos são poderosos e atacam com agressividade. Para se defender, Will tem à disposição várias armas, como espada e escudo ou lança e luvas, cada uma com maneiras distintas de uso. Dominar e experimentar é essencial, pois alguns monstros exigem estratégias mais complexas para serem vencidos. Por sorte, o herói tem um movimento de esquiva e cada arma conta também com um ataque especial. Para ter chances de sair vitorioso, é imprescindível se preparar bem antes de desbravar os calabouços — leve bons equipamentos e poções de cura, você vai precisar.

O diferencial da exploração de Moonlighter é o foco em objetos. O espaço na mochila de Will é bem limitado, sendo necessário avaliar constantemente que item levar com você — de preferência os mais valiosos, claro. Para deixar as coisas mais complicadas, certos artigos influenciam o espaço na mochila, travando compartimentos ou exigindo que sejam guardados em locais específicos. É importante, também, saber quando parar: ao morrer, todos os itens guardados na mochila são perdidos, somente o que está nos bolsos é mantido.

Sendo assim, precisei avaliar constantemente o fator risco versus recompensa. Os melhores itens normalmente podem ser encontrados nos andares mais profundos, porém é justamente neles que se encontram os inimigos mais fortes. Isso, em conjunto com o inventório de tamanho limitado, trouxeram dilemas para a minha aventura — é muito recompensador conseguir sair do calabouço com uma boa seleção de itens raros.

Um ponto negativo da exploração de calabouços é a simplicidade de desafios. O objetivo em cada sala é derrotar os inimigos e seguir para a próxima, sempre em busca da porta para o próximo andar — não existem puzzles ou similares. Algumas salas secretas estão escondidas pelo local, contudo somente elas não são suficientes para acabar com a leve sensação de repetição. Por fim, fiquei decepcionado com as outras áreas, pois elas são mecanicamente idênticas, mesmo que ainda viciado em explorar as masmorras em busca de novos itens e riquezas.

Vida agitada na vila

O detalhe que deixa a experiência de Moonlighter viciante é como os dois momentos de jogo se relacionam entre si, pois um depende do outro. Para conseguir dinheiro, você precisa vender itens, porém eles só podem ser encontrados nos calabouços. E para sobreviver nas masmorras, você precisa de bons equipamentos e poções, que custam grandes somas de moedas e exigem materiais específicos. Por conta disso, você precisa balancear como vai gastar seu tempo e recursos nessas duas atividades. Mesmo morrendo algumas vezes, sempre fiquei com a sensação de que estava progredindo de algum modo.

Para ajudar nessas tarefas, a vila de Rynoka conta com várias opções de upgrade. O dinheiro pode ser investido em outros estabelecimentos que oferecem serviços importantes, como forja e produção de poções. Podemos também melhorar a nossa própria loja, tornando-a maior e com opções de customização. Melhorar a Moonlighter é bem legal por expandir um pouco a dinâmica de jogo: com um estabelecimento maior, é possível contratar um ajudante e aceitar trabalhos (missões paralelas). Claro, uma loja maior comporta mais clientes, o que deixa o expediente mais caótico e também mais interessante — precisei do dobro de atenção para conseguir observar as reações das pessoas e para conseguir repor os produtos.


Existem também motivos para revisitar masmorras já completadas. Muitos dos equipamentos requerem itens de regiões específicas, por causa disso precisei explorar novamente alguns lugares em busca desses objetos. As missões paralelas também são um ótimo incentivo. Por fim, com equipamento melhor, é um pouco mais fácil chegar nos andares profundos, o que nos permite encontrar itens valiosos com mais facilidade.

A beleza de Rynoka e seus calabouços

O mundo de Moonlighter conta com um visual convidativo em um ambiente que consegue passar a sensação de aventura de fantasia misturada com um pouco de tecnologia e mistério. Os personagens e cenários são representados por meio de pixel art elaborado, remetendo a jogos de outrora. Gostei, especialmente, dos pequenos detalhes: o movimento do cabelo da dona da loja de feitiços, os movimentos graciosos do caixeiro-viajante, a variedade visual dos clientes da loja e os vários pequenos animais espalhados por Rynoka.

A música me conquistou com suas composições repletas de instrumentos de corda, trazendo um tom distinto à aventura — ela conseguiu trazer a sensação de estar em uma pequena vila desolada. Um detalhe que apreciei bastante é a elasticidade da trilha sonora: a mesma melodia pode ficar mais elaborada de acordo com a situação,adicionando novos instrumentos e alterando significativamente a ambientação.


Moonlighter é leve em história e boa parte da mitologia é contada por pequenas anotações que encontramos nos labirintos e nas descrições de certos itens. O jogo conta com texto em português e a adaptação é competente, salvo alguns deslizes (como o uso de “possuído” para indicar posse de itens).

Contratempos desagradáveis

O ciclo de jogo é viciante, mas, mesmo assim, alguns problemas me incomodaram bastante em Moonlighter. O primeiro deles é a falta de variedade de atividades: não há nada para fazer além de cuidar da loja e explorar calabouços. Essa limitação pode deixar as coisas um pouco repetitivas, ainda mais pelo fato de que as regiões são mecanicamente iguais.

Outro empecilho enfurecedor é o péssimo sistema de inventário do jogo. Não há uma opção de ordenar ou agrupar itens, sendo necessário organizar tudo manualmente, atividade essa especialmente complicada quando temos muitas coisas guardadas. Também não existe uma lista de todos os seus bens, complicando bastante certas decisões durante a exploração — é difícil fazer escolhas coerentes sem saber com exatidão o que você já tem, o que me fez jogar fora itens úteis sem saber. Para mim, essas são falhas consideráveis em um jogo cujo o foco é justamente administrar uma loja e seu inventário.


Por fim, encontrei vários bugs irritantes: itens valiosos desapareceram do estoque sem explicação, clientes não foram embora mesmo após o fim do expediente da loja, inimigos ficaram presos em locais inacessíveis, o jogo travou em algumas transições de carregamento e mais. Alguns dos bugs, inclusive, exigiram que eu reiniciasse o game. Espero que estes problemas sejam resolvidos no futuro.

Um empreendimento notável

A jornada dupla de Will em Moonlighter oferece uma boa mistura de estilos. Cuidar da loja é bem interessante, pois é uma atividade que exige atenção e um pouco de experimentação. Enquanto a parte de exploração de calabouços pode parecer um pouco básica, a dificuldade intensa e a presença de risco e recompensa tornam prazerosa a tarefa de derrotar monstros. Tentar balancear os dois aspectos da vida de Will é divertido e há muito espaço para experimentação. É uma pena que não exista muita variedade de atividades, o que pode deixar as coisas um pouco repetitivas — não foi o meu caso, pois fiquei obcecado em montar meu império comercial. Moonlighter prova que é muito divertido e recompensador administrar uma loja ao mesmo tempo em que tentamos ser um herói.

Prós

  • Ótima combinação de exploração e administração de loja;
  • Ciclo de jogo viciante e que incentiva revisitar constantemente locais já completados;
  • Dificuldade moderada baseada em risco e recompensa;
  • Belíssimo visual com pixel art detalhado.

Contras

  • Inventário difícil de organizar;
  • Poucas diferenças entre os calabouços;
  • Ausência de variedade de atividades pode trazer sensação de repetição;
  • Bugs que atrapalham a experiência.
Moonlighter — PC/PS4/XBO — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: João Pedro Boaventura
Análise produzida com cópia digital cedida pela 11 bit studios
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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