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Análise: Tacoma (Multi) é um mistério especial cheio de tensão e emoção

Visite a estação espacial Tacoma e descubra a história de seus últimos tripulantes.


“No espaço, ninguém pode ouvir seu grito”. Esse foi um dos principais slogans da campanha de marketing de Alien, o oitavo passageiro no seu lançamento nos cinemas em 1970. Até hoje, acredito que não existe frase melhor para definir as histórias de ficção-científica com temática espacial. A solidão e opressão claustrofóbica do vácuo sideral conseguem despertar os medos mais profundos na mente e coração humanos. Tacoma explora esse ambiente tenso e desenvolve uma história cheia de emoção em que o jogador assume o papel de investigador e espectador ao mesmo tempo.

Sozinho no espaço

Tacoma é um game produzido pelos mesmos responsáveis pelo belo e simples Gone Home, o time da Fullbright. Assim como nesse título, a mecânica de Tacoma funciona apenas com um simples clique ou apertar de botão. Não existe nenhuma combinação de controles complexas ou mesmo um inventário para gerenciar. O foco é na história e é justamente nela que Tacoma se destaca.



Normalmente, games que utilizam a temática espacial sempre seguem uma ou duas direções: ação e/ou terror. Basta se lembrar de exemplos como Dead Space ou Alien Isolation. Por o espaço ser algo tão fora da realidade de muitos de nós e algo que vive fortemente no mundo da ficção cientítica, explorar a fantasia e o irreal parece ser a solução quando se deseja criar uma aventura interativa. Por esse motivo Tacoma é mais impressionante: o game consegue se sustentar somente em cima de sua bem desenvolvida narrativa.

A trama do game é relativamente simples: você é Amy Ferrier, uma empregada espacial com a tarefa de investigar o que ocorreu com os habitantes da estação espacial Tacoma e recuperar o núcleo da IA da nave para obter mais informações. Em poucos minutos da experiência você descobre que ocorreu um acidente na estação e o suprimento de oxigênio iria terminar em questão de horas. A forma como os tripulantes tem que lidar com essa morte anunciada é cereja do bolo no game.



A fim de tornar a experiência o mais interativa possível, sem que o jogador tivesse que fazer um trabalho extensivo de detetive clicando em tudo pelo seu caminho, como em Gone Home - os desenvolvedores optaram por dar a Amy o poder de uma tecnologia que não está tão distante do nosso dia-a-dia: realidade aumentada. Todos os acontecimentos em Tacoma são gravados pela IA Odin de forma a poderem ser visualizados em três dimensões com o dispositivo de AR apropriado.

Como se estivesse vendo os fantasmas dos tripulantes, Amy pode recuperar gravações de seções inteiras da estação para compreender o que aconteceu com cada pessoa. É como se, ao invés de fosse ir atrás da história, ela viesse ao seu encontro. O melhor de tudo é que o jogador pode controlar o vídeo em realidade aumentada pausando, avançando ou retrocedendo a gravação, como em um filme. Essa mecânica simples e natural é essencial para poder ver diálogos de diferentes personagens ao mesmo tempo em locais diferentes.


Registros de uma morte anunciada

Certamente as conversas de cada personagens relevam muitos detalhes sobre o que aconteceu com a tripulação, suas histórias e até mesmo suas personalidades. Porém, o jogador terá que gostar de uma boa leitura, pois grande parte do material que Amy irá recuperar da estação está escrito em arquivos de texto e registros de dados. Ess quantidade excessiva de leitura infelizmente quebra o ritmo do jogo em vários momentos em que o jogador quer estar mais focado no que está vendo ou ouvindo.

A história do game se passa em 2080, um futuro em que as grandes corporações e monopólios tem mais poder no planeta do que os próprios governos. A poderosa V-Tec é responsável pela criação e construção de estações de colonização espacial como a Tacoma, que ainda possui funcionários humanos para realizar a manutenção da nave (ao contrário de outras estações completamente automatizadas). Esse enredo secundário à lá Wall-E é de suma importância para que o jogador compreenda e consiga contextualizar as motivações que levaram cada um dos personagens a se encontrarem nessa situação.



Ainda bem que as atuações dos tripulantes da Tacoma recompensam o jogador por qualquer tempo a mais gasto lendo algum diário de bordo. Seja a especialista em mecânica ou a médica, ou mesmo o botânico, todos tem uma história a ser explorada através de suas conversas com os outros personagens e com Odin. A forma como cada um expressa suas emoções, seus receios, seus medos é genuinamente verdadeira, e ajuda o jogador a criar uma relação com cada um deles.

Esse sentimento que o jogo consegue construir entre o jogador e seus personagens é a essência de Tacoma. Com o espaço e a estação espacial de pano de fundo, o jogo nada mais é de um retrato das relações humanas quando as pessoas são colocadas em situações extremas. Quando descobrem que vão ficar sem oxigênio em breve e que as comunicações com qualquer tipo de resgate foram cortadas, todos tentam manter a calma, mas logo cada um deles entre em seu universo particular para lidar com essa situação.



A médica tenta pedir ajuda e conforto a Odin, uma IA que mesmo tendo características humanas em sua interface não pode fazer nada mais do que dizer o óbvio e tentar acalmar a tripulante. A engenheira e cientista tentam aproveitar seu amor nos últimos momentos. O botânico reluta em ir para o sono em criogenia (uma morte lenta, mas sem dor), mas grava uma mensagem final para seus entes queridos. O espaço é um lugar opressor onde as emoções humanas são nosso único contato com nós mesmos.

Em contraste com os tripulantes da Tacoma, infelizmente o game não coloca o destaque suficiente na protagonista Amy (será que ela realmente seria a personagem principal aqui?) e em Odin. É possível conferir alguns detalhes sobre a vida dela no menu principal de AR do game, mas nada muito profundo. Já Odin parece um personagem com muito potencial (vide HAL, Glados e tantas outras IA nos filmes e games) mas que acaba ofuscado pelos tripulantes da estação. É um sacrifício feito para focar em outras histórias e também para manter o game curto e simples, afinal, é possível completar o jogo em apenas 2 horas.


No fim… Solidão

Tacoma também é um game que impressiona com sua qualidade de som e visual, ainda mais considerando que foi um jogo desenvolvido na Unity - uma engine gráfica altamente funcional, mas que pode apresentar problemas de desempenho em algumas situações. Felizmente, durante toda minha experiência não tive nenhum problema gráfico ou de execução e fui capaz de aproveitar toda a história que consegue provocar uma grande tensão no jogador não por o colocar em um lugar isolado, sem sons e sem socorro, mas por fazer você entrar na pele de cada tripulante e imaginar o que você faria se estivesse lá… Sozinho no espaço.


Prós

  • Reinvenção da temática espacial;
  • Ótima atuação dos personagens;
  • Visual de alta qualidade.

Contras

  • Excesso de textos;
  • Falta de desenvolvimento de alguns personagens.

Tacoma - PC/Xbox One/PS4 - Nota: 8.0
Versão utilizada na análise: PS4

Análise produzida com cópia digital cedida pela Fullbright.


Luis Antonio Costa escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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