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Análise: Forgotton Anne (Multi) é um lindo conto sobre a vida no formato de animação

Obra interativa relembra desenhos clássicos da Walt Disney e do Studio Ghibli.

Estreia da produtora independente dinamarquesa ThroughLine Games na indústria dos games, o jogo de plataforma 2D Forgotton Anne (Multi) vai muito além dos aspectos mecânicos. A obra traz uma história nos moldes cinematográficos com a estética das animações japonesas contemporâneas e o formato estadunidenses da década de 1990, em uma trama repleta de mistérios e descobertas sobre a vida.

Um mundo próprio para aqueles esquecidos no tempo

Forgotton Anne possui uma premissa muito interessante e delicada. O enredo foca no mundo mágico de Forgotten Lands, onde objetos perdidos e esquecidos no mundo humano vão morar. Seus habitantes são chamados de Forgotlings e são liderados pelo artesão Bonku, que os convence a trabalhar diariamente para construir uma ponte que os levará de volta para o Ether, o mundo humano.



Nesse contexto, o jogador assume o comando de Anne, a chefe de segurança de Forgotten Lands e aprendiz de Bonku, responsável por manter a ordem e a paz no lugar. Quando um ataque rebelde corta as comunicações e a energia da cidade, Anne deve caçar os culpados e os levar a justiça. Porém, enquanto ela sai em sua missão, aprenderá muitos segredos sobre Forgotten Lands e si mesma.

A trama aborda temas como vida e morte, bem como o impacto das memórias e lembranças na identidade de uma pessoa. Os objetos esquecidos precisam merecer suas passagens para o Ether, o que coloca diversos personagens em situações de excesso de trabalho para serem escolhidos por Bonku. Toda a esperança de Forgotten Lands está no ideal de serem lembrados novamente.

De A Bela e a Fera a estética do Studio Ghibli

A arte de Forgotton Anne se destaca pelo visual que mescla o traço ocidental do filme animado A Bela e a Fera (Gary Trousdale, Kirk Wise, 1991) com a técnica japonesa das produções cinematográficas em anime do Studio Ghibli, como Vidas ao Vento (Hayao Miyazaki, 2013) e As Memórias de Marnie (Hiromasa Yonebayashi, 2014).



Os cenários e personagens são belamente expostos. Os ambientes optam por uma arte no estilo pintura, privilegiando construções arquitetônicas, designs interiores e grandes espaços em campo aberto. Humanos e objetos vivos seguem uma arte intermediária entre o anime e o cartoon, sem usar demasiadamente a lineart estilizada dos animes, mas também sem o formato mais arredondado e infantilizado dos cartoons tradicionais do Ocidente.
 
O jogo também se ambienta em um espaço com elementos steampunk em conformidade com uma história que passa entre os anos de 1960. Em um momento em que o mundo vive a ascensão de novas tecnologias mecanicistas, muitos dos objetos encontrados são abandonados devido à falta de função neste novo cenário internacional.



As cinemáticas de Forgotton Anne são ricas em expressividade e beleza, muito devido ao trabalho de animação tradicional feito com animações quadro a quadro. Da mesma forma, os personagens possuem personalidades únicas e diferenciadas, tornando cada interação uma surpresa. Alguns objetos são mal-humorados, outros são medrosos, alguns conversadores, entre outras características que divertem o jogador.

Ser esquecido ou ser lembrado?

A jogabilidade de Forgotton Anne é muito fluída e os comandos respondem com rapidez e exatidão. Um dos pontos fortes do jogo de plataforma é o sistema de escolhas, que permite caminhos diferentes e finais alternativos. Durante todo o gameplay, o jogador é confrontado com diálogos que exigem decisões que posteriormente desencadearão consequências para a protagonista e todos do mundo de Forgotten Lands.



Ao contrário dos jogos apenas com finais alternativos, cuja decisão principal foca em um momento específico que decidirá o final da trama, Forgotton Anne possibilita que o jogador vivencie as consequências de suas atitudes ao longo de toda campanha. As palavras ditas e promessas feitas durante os diálogos são relembradas em várias situações do jogo, o que faz com que o jogador escolha com sabedoria suas decisões.
 
Além da mecânica de ação e consequência, o título possui vários puzzles divertidos e com um nível adequado de desafio, que fornecem uma experiência digna do que se espera de um puzzle de plataforma.



Forgotton Anne é uma estreia muito bem-sucedida da dinamarquesa ThroughLine Games, bem como um dos jogos mais bonitos e tocantes que tive o privilégio de jogar. Um título com puzzles desafiadores, história profunda, visual cinematográfico e personagens cativantes, Forgotton Anne é um dos melhores jogos indies de 2018.

Prós

  • História cativante;
  • Finais alternativos;
  • Personagens carismáticos;
  • Puzzles inteligentes;
  • Sistema de escolhas que gera consequências marcantes;
  • Visual das animações clássicas da Walt Disney e do Studio Ghibli.

Contras

  • Nenhum.
Forgotton Anne — PC/PS4/XBO — 10.0
Versão usada para análise: XBO

Análise produzida com cópia digital cedida pela Square Enix Collective.
Texto: Karen K. Kremer
Revisão: Cainã Marques
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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