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Análise: Ni no Kuni II: Revenant Kingdom (PS4/PC) é uma bela e imersiva jornada

No papel de um rei deposto, construímos um reino em uma jornada repleta de conteúdo e visual impressionante.


Ni no Kuni II: Revenant Kingdom, o novo JRPG da série da Level-5, te convida a montar um reino e unificar as nações do mundo. O título mistura características tradicionais do gênero com algumas novidades muito bem inseridas em um universo convidativo repleto de conteúdo e possibilidades. Esses detalhes, aliados a uma ambientação excepcional e a vários sistemas divertidos, me conquistaram com uma experiência imersiva. É uma continuação que carrega o legado da franquia, mas se difere bastante do título anterior.

Tentando unir o mundo

Revenant Kingdom é uma continuação de Ni no Kuni: Wrath of the White Witch, porém as duas aventuras só compartilham de alguns conceitos centrais e algumas poucas referências. Além disso, os sistemas e mecânicas são completamente diferentes e não há mais a colaboração direta do Studio Ghibli (por mais que alguns de seus responsáveis também trabalharam nesse novo episódio). Por conta disso, o segundo título pode ser aproveitado tranquilamente por novos jogadores por ser uma experiência individual e autocontida. Eu mesmo joguei muito pouco Wrath of the White Witch e não fiquei perdido em nenhum momento em Revenant Kingdom.

O protagonista é Evan Pettiwhisker Tildrum, herdeiro do reino de Ding Dong Dell. No dia da coroação, acontece um golpe de estado e o garoto é forçado a fugir de sua terra natal com a ajuda de Roland, um homem que veio de outro mundo. Depois de perder seu pai, sua ama Aranela e também seu reino, Evan decide que quer mudar o mundo. Para isso, o garoto cria um novo reino e pretende unir todas as nações a fim de evitar conflitos. Paralelo a isso, há uma figura sombria que ameaça a paz ao promover o caos, e os caminhos dele e de Evan eventualmente se cruzam.


O principal tema da trama é o esforço para tornar o mundo um lugar melhor, e a tragédia de Evan é só o incentivo para esse objetivo. Pelo caminho, o novo rei visita outras nações com problemas capazes de atrapalhar sua ambição. A exótica Goldpaw, por exemplo, é uma cidade em que tudo é decidido na sorte por meio de dados e seus governantes utilizam artifícios para enganar o povo. Já a nação marítima Hydropolis sofre com leis severas, como a proibição de andar por locais altos ou até mesmo se apaixonar. Cada reino é construído com esmero e gostei bastante da história de cada um — os motivos de seus líderes são lógicos e as conclusões são bem amarradas. Sendo assim, sempre fiquei me perguntando o que viria a seguir e como Evan resolveria os problemas.

Cada reino é bem construído, porém o mesmo não acontece com os personagens. Os heróis de Ni no Kuni II são rasos e unilaterais e pouco evoluem com o passar da trama. Evan amadurece levemente no decorrer da jornada, porém seu passado é nebuloso e tem pouco impacto em suas ações. Outro exemplo é Roland, habitante de um mundo similar ao nosso que misteriosamente vai parar no de Evan: ele aceita muito rápido o fato de ter parado em um local fantástico e simplesmente decide ajudar Evan, e suas motivações e medos mal são explorados durante a jornada. Já a pirata Tani é espirituosa e intensa, mas fora o momento em que é introduzida na história esses aspectos não são explorados. Missões paralelas e certos diálogos dão pequenas dicas sobre os personagens em si, mas, no geral, fiquei decepcionado com a simplicidade de todos eles.


A diversão de administrar um reino

Em sua jornada pelo mundo de Ni no Kuni II, Evan explora inúmeros locais, enfrenta inimigos e ajuda pessoas necessitadas, como em um bom JRPG. O diferencial, aqui, é a execução do tema de construção de reino: vários sistemas diferentes se relacionam entre si para trazerem uma experiência que remete a essa atividade.

Depois de um ponto da história, Evan funda seu reino Evermore e somos apresentados ao modo de administração. Nele, construímos estruturas, melhoramos lojas e escolhemos habitantes para executar tarefas. O mais curioso é que as atividades desse modo levam em conta o tempo de jogo: desenvolver novos tipos de armas, por exemplo, pode levar por volta de 20 minutos ou mais. Sendo assim, é importante voltar constantemente a Evermore para administrar as coisas.


O mais legal do modo de construção de reino é que ele é completamente integrado à aventura. Novos feitiços, por exemplo, só podem ser aprendidos ao construir e melhorar a estrutura específica. Já certas construções permitem liberar vantagens para os combates ou novos itens. Fora alguns requerimentos da história, administrar Evermore é opcional. Confesso que este foi um dos meus elementos favoritos do jogo: gostei bastante de transformar um simples acampamento em uma grande cidade. Durante a jornada, visitei o reino sempre que possível e fiz o máximo para maximizar sua evolução. O reino também foi um incentivo para fazer as missões opcionais do jogo, pois boa parte dessas tarefas tem como recompensa um novo morador para Evermore que, consequentemente, significa mais opções de evolução do reino. 

Fora isso, gostei bastante do mundo convidativo de Ni no Kuni II. Vários lugares, como cavernas, florestas e pequenos calabouços, estão espalhados pelos continentes e sempre há algum prêmio por explorá-los. Muitos deles, inclusive, só podem ser acessados após desenvolver alguma tecnologia em Evermore (ou seja, mais incentivos para ficar de olho no reino). A quantidade de coisas opcionais para ver é grande e boa parte do meu tempo de jogo foi dedicada a elas — fiquei obcecado em melhorar Evermore ao máximo.


Um detalhe interessante vem do fato de que a jornada principal é compacta e leva por volta de 30 horas para ser concluída. Pode parecer pouco, mas, para mim, foi algo bom: a narrativa não tem excessos e não existem trechos desinteressantes obrigatórios criados justamente para estender a aventura. Claro, essa abordagem sacrifica outras áreas, como o desenvolvimento de personagens, contudo gostei da abordagem mais compacta e focada. E aqueles que pretendem ver tudo o que o jogo tem a oferecer com certeza gastarão mais que o dobro desse tempo.

Estratégia e agilidade nos combates

Em sua jornada para construir um mundo melhor, Evan enfrenta inúmeros oponentes em dois tipos de combate.

A maior parte das batalhas acontece em tempo real e lembra bastante um jogo de ação. Nesses momentos, os heróis têm à disposição ataques rápidos, golpes lentos, feitiços, projéteis, movimentos de esquiva e técnicas especiais. Tudo é muito responsivo e os encontros são frenéticos e ágeis, resultando em uma experiência divertida. Alguns detalhes trazem profundidade ao sistema de combate, como a possibilidade de alternar entre três armas, golpes especiais fortalecidos e a presença dos Higgledies (criaturinhas elementais que ajudam os heróis).


Apreciei bastante a agilidade e visual dos combates: é muito gratificante acabar rapidamente com inimigos utilizando golpes estilosos. Porém, senti que o desafio deixou a desejar, pois a maioria dos encontros é bem fácil de vencer, inclusive chefes — em muitos momentos não é necessário agir estrategicamente. Por sorte, existem inimigos bem mais difíceis, principalmente nos trechos de conteúdo opcional, e foram alguns dos meus momentos favoritos por exigirem que eu agisse com mais atenção. A impressão que eu tive é que os desenvolvedores tentaram deixar o combate bem acessível, principalmente para os jogadores menos habilidosos, porém não se lembraram de pessoas mais experientes. Espero que adicionem novas opções de dificuldade em atualizações futuras.

Já o modo Skirmish retrata batalhas entre exércitos e lembra uma espécie de jogo de estratégia em tempo real bem simples. Nele, Evan comanda quatro batalhões diretamente e precisa derrotar vários outros grupos de inimigos. Para sair vitorioso, é importante ficar atento às fraquezas das unidades, que respeitam o tradicional modelo pedra, papel e tesoura. Achei interessante a inclusão desse modo por lembrar um aspecto importante de reinos em expansão (grandes batalhas campais) e combinar com a temática, porém a execução não é das melhores: o andamento das batalhas é lento, a estratégia não é tão importante (muitos confrontos eu venci mesmo utilizando unidades vulneráveis aos tipos dos inimigos) e não há muita variedade entre um confronto e outro. Isso fez com que eu não suportasse as batalhas Skirmish, para mim elas não foram nada divertidas — por sorte existem poucas ocasiões em que somos obrigados a jogá-las.


Jornada deslumbrante

No geral, a trama e personagens de Revenant Kingdom são simples quando comparadas a outros jogos do gênero, e eu fiquei com a sensação de que isso foi intencional. Para compensar, o jogo conta com ambientação deslumbrante: a direção de arte é belíssima e o visual é impressionante. Os reinos, mais uma vez, foram o maior destaque para mim. Gostei bastante de explorar a exótica Goldpaw, que mistura arquitetura asiática tradicional com luzes neon à Las Vegas; Eu me surpreendi com Hydropolis e sua beleza representada por construções cercadas de água; fiquei intrigado com a mescla de tecnologia e vegetação da torre de Broadleaf. As cidades são orgânicas, com muita gente nas ruas, além de vielas e estabelecimentos a serem explorados — fiquei com a sensação de que os lugares realmente poderiam existir. 

Outro detalhe que me impressionou bastante foi a representação dos personagens com a técnica cell shading: as animações detalhadas, principalmente nas expressões faciais, me trouxeram a sensação de estar jogando um anime. Isso fica ainda mais aparente nas cenas não interativas, onde é possível observar melhor as características dos heróis. É uma pena que a quantidade dessas cenas é bem reduzida, limitando um pouco o impacto deste recurso visual.


Por fim, temos uma trilha sonora completamente orquestrada que complementa o visual. O responsável pela composição musical foi Joe Hisaishi, conhecido principalmente por inúmeros trabalhos no Studio Ghibli e também no jogo anterior. A presença da orquestra é capaz de reforçar a sensação de se estar explorando um mundo fantástico com o uso de muitos instrumentos de corda e piano. Destaque para o intenso tema de chefes com a forte presença de percussão, a bela valsa da música tema de Hydropolis e o marcante tema musical do jogo.

Um reinado que vale a pena

A aventura em prol de construir um novo reino em Ni no Kuni II: Revenant Kingdom é muito recompensadora e divertida. Gostei bastante de acompanhar Evan em uma aventura para unir o mundo, principalmente por causa do viciante modo de administração de reino, do combate divertido e da ambientação impecável. Este é um jogo que te conquista com o carisma do mundo e com a grande quantidade de coisas legais para fazer, e é difícil não querer continuar explorando depois de terminar a história principal. Mesmo assim, fiquei um pouco decepcionado com a facilidade do combate e com o desenvolvimento raso dos heróis. De qualquer maneira, Ni no Kuni II: Revenant Kingdom oferece uma jornada memorável e imersiva capaz de cativar por muito tempo.

Prós

  • Ótima combinação de estilos diferentes em uma única aventura;
  • Combate ágil e recompensador;
  • Modo de administração de reino enriquece a experiência
  • Mundo vasto e convidativo, com inúmeros segredos para descobrir;
  • Belíssimo visual que remete a animes;
  • Jornada compacta respeita o tempo do jogador.

Contras

  • Personagens de personalidade subdesenvolvida;
  • Modo Skirmish é muito simples e não diverte;
  • Baixo desafio na maior parte do tempo.
Ni no Kuni II: Revenant Kingdom — PS4/PC — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Alberto Canen
Análise produzida com cópia digital cedida pela Bandai Namco
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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