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Análise: Railway Empire (Multi) é desafiador e histórico

Conheça um pouco mais da história dos Estados Unidos e encare a gestão de uma companhia de trens.



Railroad Tycoon foi o meu primeiro contato com um simulador de trens e a ideia, apesar de ser bem simples (você controla uma empresa de ferrovias para transportar cargas e pessoas por toda a região), era muito bem executada. Após ficar órfão da série Railroad, eis que surge Railway Empire, um simulador de trens produzido usando os recursos e o poder gráfico da atual geração.

Bem-vindo ao século XIX

É com o auxílio de figuras históricas, como Thomas Clark Durant, que você será apresentado ao ano de 1830, quando a “Era a Vapor” começou nos Estados Unidos. O modo campanha vai te levar à várias regiões do país e seu objetivo é construir linhas de trem, ajudando a modernizar e ampliar as cidades. É justamente pela importante contextualização histórica e pelo tutorial apresentado nos dois primeiros capítulos que a campanha é recomendada para aqueles que estão iniciando no jogo.

Em alguns aspectos, Railway Empire lembra muito o bem sucedido Railroad. Apesar de nosso foco ser a gerência da companhia de trens, administrando as construções de ferrovias nas cidades, é preciso também se preocupar com o crescimento desses centros urbanos. Para isso, é preciso atender às necessidades de cada uma. Se um local possui indústrias que comercializam cerveja, torna-se necessário fazer com que os trens levem trigo para que a produção aumente e a cidade cresça. Dentro dessa lógica, é possível também que a companhia que administramos faça investimentos como comprar ou criar uma indústria naquela região. Isso faz com que todo o lucro da produção seja seu e também ajuda no crescimento da cidade.

Ainda no modo campanha, mais precisamente a partir do segundo capítulo, vamos nos deparar com alguns desafios interessantes. O aparecimento de competidores dá uma nova dinâmica ao jogo, pois torna-se mais empolgante e desafiador você ter que pensar em estratégias que funcionem tanto para o seu crescimento quanto para a queda do seu oponente. Para auxiliar no crescimento da empresa, você contará com a ajuda de diversos profissionais como engenheiros, seguranças e até mesmo alguns saqueadores caso queria prejudicar o seu rival. É possível também comprar ações ou adquirir totalmente a companhia de seus competidores. Outra complicação que pode aparecer são as condições climáticas, capazes de atrapalhar algumas viagens ou comprometer as linhas ferroviárias.




Uma sucessão de tentativas e erros

Embora parte da campanha se apresente como um tutorial, algumas especificações podem não ser compreendidas logo no início. Ao tentar não fazer com que dois trens se colidissem, consegui comprometer todo o percurso e nenhuma locomotiva conseguia se mover. A solução? Destruir toda a linha e reconstruí-la. O problema é que o jogo não possui nenhum sistema para reembolsar ao menos em parte o erro cometido. Construiu uma estação no local errado? Não soube fazer a linha alternativa para que os trens não colidam? Azar o seu porque o seu dinheiro foi embora e não volta. E foi nesse conjunto de erros que consegui praticamente deixar a empresa no zero e a solução foi começar uma nova campanha levando o erro do passado como lição.

Para os que gostam de um desafio, esse processo de aprendizado por meio de falhas pode ser bem interessante. Por outro lado, aos que se propõe unicamente ao divertimento, Railway Empire pode ser irritante e repetitivo.

Um jogo regional e incompleto?

O game se passa exclusivamente nos Estados Unidos, entre os anos 1830 e 1910, e  o idioma disponível é somente o inglês. Parece que a Game Minds Studio e a Kalypso Media desenvolveram um jogo para um público bem específico, que inclui os apreciadores de locomotivas,, jogadores americanos ou simpatizantes da história da terra do Tio Sam. Por mais que isso não seja ruim, o que ficou foi uma sensação de quero mais. Afinal, não seria interessante ver como se deu o desenvolvimento dessa “Era a Vapor” ao redor do mundo? Como o game traz toda uma apresentação histórica, desse ponto de vista, seria interessante trazer o primórdio das máquinas a vapor em terras britânicas, não?




O game ainda apresenta outros modos além da campanha. O Free Mode traz alguns desafios, mas com opção de estabelecer os recursos iniciais de início, isto é, você pode optar por ter mais recursos e ter uma partida mais tranquila, ou  escolher ter menos e tentar se superar. O Sandbox é um modo totalmente livre com recursos ilimitados e sem objetivos ou metas definidos. É ótimo para quem quer abusar da criatividade ou mesmo testar todas as funcionalidades do jogo. Há ainda o modo Scenario que está inserido no contexto pós-guerra civil.

O problema encontrado nos modos de jogo é que, apesar de oferecerem configurações diferentes no que diz respeito ao nível de dificuldade, realismo ou mesmo recursos iniciais disponíveis, eles apresentam objetivos que são muito parecidos. Por exemplo, uma das tarefas mais comuns que encontrei em vários modos de jogo foi a de “ligar as cidades x e y” ou “aumentar em 30 mil, 50 mil ou mais a população da cidade x” e por aí vai. Com o tempo, parece que a criatividade para a atribuição de metas vai se acabando e a única mudança é a numeração (se antes eu tinha que colocar 30 mil numa cidade, agora são 100 mil).

Ainda sobre os modos de jogo, as produtoras parecem ter se esquecido do modo multiplayer. Ao jogarmos a campanha ou qualquer outro modo com a presença de rivais, percebemos o quão interessante seria um modo rival online. Tentar superar a empresa de seu amigo fazendo acordos e ferrovias o mais rápido possível em todo o mapa ou ainda pagando capangas para sabotarem o trabalho do outro. O modo multiplayer com certeza seria bem interessante e até mesmo inédito para o gênero simulador de trens. Railway Empire perdeu uma oportunidade e tanto e com isso deixou certo vazio.




A sensação de que o jogo poderia ter muito mais também ocorre quando nos deparamos com um sistema de pesquisa para trens bem limitado. Apesar de uma grande quantidade de locomotivas a serem liberadas, o jogo parece se esquecer de que as campanhas são longas e que tudo que foi oferecido se esvai rapidamente.

É preciso também mencionar que a interface é um pouco confusa e exige mais do que o necessário do jogador. O sistema de notificações só pode ser visto ao se aproximar das áreas com problema, sendo que nem sempre elas são o nosso foco em determinados momentos do jogo. Seria interessante uma aba de notificações em que seja possível ver as mais importantes. E, ao jogar em um console (nesse caso, o Xbox), a dificuldade parece aumentar, pois algumas ações parecem ter sido feitas para funcionarem melhor nos PCs, com auxílio de um mouse.

Um jogo feito para fãs de trens

Em linhas gerais, Railway Empire não surgiu para inventar a roda. Ele é um game que pega o que havia de melhor nos jogos do gênero com aprimoramentos gráficos e alguns detalhes de jogabilidade e gerenciamento. E se você não é um fã de simuladores e muito menos simuladores de trens, o jogo pode ser um pouco chato e decepcionante. Sua proposta de público é bem definida e se for um adorador das máquinas a vapor, a diversão será garantida.

Prós

  • Contextualização histórica;
  • Boa dinâmica das I.As como competidores;
  • Sistema de gestão com mecanismos de compra e venda de ações, obtenção de empresas e auxílio de profissionais (engenheiro, segurança, etc).

Contras

  • Problemas de interface (as notificações ficam perdidas pelo mapa);
  • Ausência de um modo multiplayer;
  • Objetivos repetitivos;
  • Modos de jogo com poucas distinções. 
Railway Empire — PC/PS4/XBO — Nota: 7.0
Plataforma utilizada para análise: Xbox One 
Rafael C. Oliveira é goiano e já foi astro do rock (no Guitar Hero), líder de uma grande civilização (no Age of Empires) e bem casado (no The Sims). Ele diz que está escrevendo um livro de ficção científica numa tentativa de fazer novos amigos assim. Você pode tentar convencê-lo de desistir dessa ideia absurda no Twitter ou Facebook dele.

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