Discussão

Usando a nostalgia a favor de bons games atuais

Quando passado e presente conversam de maneira inteligente e equilibrada.


Eu sempre gostei de frequentar museus — em especial, os de história natural —, apesar de muitos considerarem um “programa de velho”. Seja qual for a cultura ou tema histórico abordado, é interessante observar o que aquilo representou no momento em que foi criado e o impacto para a época atual. Com os jogos eletrônicos, analogamente, não é diferente. Existem fenômenos que foram realmente impactantes em sua época de lançamento, seja pelo alvoroço por um novo título de uma franquia consagrada ou pelas novidades de uma propriedade intelectual inédita. De qualquer forma, sabemos que, assim como os objetos do museu ou os personagens históricos, tudo envelhece. No entanto, ainda há uma saída para trazer tudo aquilo que ficou no passado com uma cara nova, e não somente por meio da vontade de reviver os velhos tempos.

Máquina do tempo

É muito bom pegar aquele jogo que há anos você não revisita, principalmente para aqueles que te fizeram passar por bons bocados na companhia de seus primos, irmãos ou vizinhos. Isso é inegável — afinal, cada um tem seu gosto, e não cabe a nós discutirmos esse tipo de assunto. Seja por meio de relançamentos nas lojas virtuais dos consoles modernos, em versões para smartphones ou nos famigerados emuladores, os jogos clássicos ainda fazem muito sucesso, mas o que significa usar visuais, mecânicas ou abordagens retro em projetos da atualidade?

Há uma tendência da indústria de jogos em apostar naquilo que um dia fez sucesso. Trocar o certo pelo duvidoso, como diz o próprio ditado, pode parecer arriscado demais quando falamos em grandes produções — principalmente com orçamentos que ultrapassam, muitas vezes, as dezenas de milhões de dólares. Da mesma maneira, desenvolvedores indie, que apostam tudo que têm em um projeto de pequeno ou médio porte, não querem colocar a chance de suas vidas em risco com produções medíocres.


Porém, além da preocupação do sucesso financeiro, há também a tentativa de resgatar algo que ficou no passado, e que, por muito tempo, não fora “desenterrado” ou implementado da melhor maneira possível. Isso foi iniciado, principalmente, na geração passada. Seja em Dark Souls (Multi) — resgatando a então esquecida essência dos jogos difíceis — ou em Hotline Miami (Multi) — com um visual aparentemente simples e nostálgico —, o passado pode certamente ser usado da maneira correta para trazer experiências enriquecedoras.

Aprendendo com os mais velhos

Uma legião de fãs da Rare, em 2014, apoiou uma das maiores campanhas do Kickstarter para angariar fundos para o tão sonhado sucessor espiritual de Banjo-Kazooie (N64). Apoiado em mecânicas que combinam dois personagens e com alguns conceitos centrais até que bem elaborados, Yooka-Laylee (Multi) foi mais um fan service do que uma inovação para jogos de plataforma. Os controles um pouco problemáticos e a falta do fator replay — muito presente nos jogos da série Banjo — fazem dele um título de 2017 que poderia, por muitos motivos, ter sido lançado após Banjo-Tooie (N64), com exceção do seu aspecto gráfico mais moderno.


É em jogos como os da franquia Contra e Gunstar Heroes (Multi) que foi baseado um dos indies mais incríveis deste ano. Cuphead (PC/XBO) trouxe de volta um estilo praticamente esquecido — e não estou falando de seu visual magnífico e da trilha sonora única: correr e atirar em inimigos chegando por todos os lados de tela, te colocando em perigo a todo o momento. Com controles e level design ótimos, o jogo se mostra difícil não por problemas técnicos (frequentes em jogos mais antigos), mas como premissa para o fator risco vs. recompensa.


Muitos indies trazem estilos mecânicos sólidos, porém antigos, com o propósito de resgatar experiências influentes do passado. Outros também ganham destaque pelo visual pixel art, que cada vez se mostra presente numa tentativa de atribuir identidade em produções mais pessoais, seja por conta dos recursos financeiros mais limitados ou como decisão de game design. É o caso de alguns projetos mais recentes da 11 bit studiosMoonlighter e Children of Morta —, que beberam muito da fonte de The Legend of Zelda: A Link to the Past (SNES/GBA) e Diablo II (PC), respectivamente.

Velha guarda do mundo dos games

Algumas franquias viram a possibilidade de trazer pérolas do passado para o ano de 2017 a fim de se certificar que ainda havia emoção em se aventurar por cenários anteriormente desbravados. Em especial, cada um dos três “mascotes” mais famosos dos games ganhou, pelo menos, um título ao longo do ano.

O primeiro a ganhar um relançamento — ou remaster plus — foi Crash Bandicoot, eterno marsupial da Playstation. Crash Bandicoot N. Sane Trilogy (PS4) trouxe uma compilação com os três primeiros jogos da série com visual novo de deixar qualquer fã de cabelo em pé. O problema, entretanto, ficou por conta da mecânica do jogo: é a mesma. Um jogo lançado originalmente para o PS1, certamente, já apresenta sinais de idade, principalmente no que diz respeito à resposta aos controles e precisão de movimento. Digno de ser jogado por um fã? Sim, mas pouco caprichado em termos técnicos para um jogo exclusivo do poderoso PS4.

O ouriço azul correu na frente dos concorrentes e ganhou dois títulos em 2017. Em agosto, Sonic Mania (Multi) deu as caras com uma das melhores seleções de fases da franquia, com mecânicas novas e multiplayer divertido, porém com visual para lá de antigo. Mas calma, isso está longe de ser uma crítica: tudo que Sonic precisava era mergulhar de cabeça em sua fórmula original, inclusive na direção de arte.


Sonic Forces (Multi), que insistiu mais uma vez na dualidade 2D/3D de cenários, está recebendo críticas negativas muito mais do que merecidas por sua má execução. Por que insistir em coisas que deram tão errado no passado se Sonic Mania é um sucesso do presente?

Por último, mas não menos importante, um dos grandes lançamentos da Nintendo para 2017. Em Super Mario Odyssey (Switch), o ex-encanador — que tem mais de 35 anos de história — se aventura por seções de plataforma 2D, recebe homenagens musicais aos títulos anteriores e resgata personagens que há décadas não apareciam, tudo isso com um célebre level design. Com incontáveis títulos em seu currículo, essa é a “sequência” de Super Mario 64 (N64/NDS) esperada há tanto tempo pelos fãs.


É difícil entender os limites da nostalgia, por ser algo muito pessoal e subjetivo — fanatismo demais pode ser comprometedor quando analisamos a qualidade dos jogos. Porém, a combinação de idéias contemporâneas com as inteligentes do passado pode ser boa o suficiente para trazer experiências ainda melhores em termos de games.

Revisão: João Pedro Boaventura
Arthur Maia escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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