A evolução dos RPGs nos consoles caseiros

Os RPGs estão atrelados à essência dos jogos, e até aos próprios videogames, acompanhando toda sua evolução tecnológica ao atual estágio de comparação a verdadeiras obras cinematográficas.



Para compreendermos o panorama geral dos RPGs, devemos ir primeiramente aos anos 70, mais precisamente para 1974, quando houve o primeiro registro oficial de um jogo RPG. Criado por Gary Gygax e Dave Anderson, o Dungeons & Dragons deu o pontapé inicial neste estilo de jogo, hoje tão amado pelos jogadores.


Quando lançado, o D&D era inicialmente um complemento de outro jogo criado anteriormente em 1971 por Gygax e Jeff Perren, o Chainmail. No entanto, ele acabou se desvencilhando disso e se transformando em um jogo próprio e inovador. Originalmente, era de uma estrutura extremamente simples, se comparado aos RPGs atuais, influenciado principalmente por jogos de guerra e estratégia. Atualmente é um dos estilos mais jogados no mundo e foi adaptado por outras formas de mídia, incluindo videogames e até como desenho animado, afinal, quem nunca acompanhou as aventuras dos pupilos do Mestre dos Magos na Caverna do Dragão?

A primeira adaptação para o mundo virtual


Com os jogos eletrônicos em alta e os computadores caseiros começando a invadir as casas dos cidadãos comuns, não demorou muito para que os RPGs encontrassem uma nova forma de se disseminar. Em 1979 surge o primeiro game baseado no estilo, Akalabeth: World of Doom.

Lançado para os computadores Apple II, sua jogabilidade era simples, com um visual quase todo monocromático e composto por gráficos vetoriais, criando uma ilusão de 3D, similar ao que faz Star Fox (SNES). Uma curiosidade é que este jogo, criado por Richard Garriot, é o precursor da série Ultima.

A invasão nos consoles caseiros



Os anos 80 vieram e, com eles, a explosão no mercado dos videogames caseiros, principalmente com os consoles da segunda geração que tinha como seu principal representante o Atari 2600.

Adventure (Atari 2600) foi um dos primeiros jogos a explorar esse ambiente trazido pelos RPGs, porém, ele segue uma linha mais próxima dos jogos de ação ou aventura, não sendo necessariamente um RPG propriamente dito. Ele foi muito inovador, trazendo várias puzzles a serem resolvidas, sendo o primeiro a permitir que o personagem usasse vários itens e forçando o jogador a escolher qual deles seria melhor utilizado para cada enigma

No seu desenvolvimento, o jogo chegou a ser desencorajado pelo chefe da Atari, pois ele achava que, pela dificuldade do projeto, seria impossível desenvolver um título como esse. Entretanto, com as ideias do designer gráfico Warren Robinet, o game acabou se tornando um sucesso, vendeu milhões de cópias na época e foi o sétimo mais vendido de sua plataforma.

Dungeons & Dragons e Tolkien: as inspirações para o primeiro RPG dos consoles caseiros 

A segunda geração de videogames teve o Atari como seu maior representante, foi um dos videogames mais vendidos no mundo, responsável pelo apogeu e queda dos consoles caseiros. Porém, engana-se quem pensa que o primeiro RPG foi feito para ele.

Concorrente da Atari na época, mas muito atrás dele nas vendagens, a Magnavox — que tinha lançado o primeiro videogame doméstico do mundo, o Magnavox Odyssey de 1972 — foi pioneira mais uma vez, trazendo o primeiro RPG para console.

Lançado em 1981, Quest for the Rings — conhecido no Brasil como “Em Busca dos Anéis Perdidos” — veio ao mundo através do Magnavox Odyssey² (lançado em nossas terras como Philips Odyssey), console da segunda geração lançado em 1978. O game teve a sua estória inspirada em Tolkien e a sua jogabilidade em Dungeons & Dragons.


Para driblar as limitações do Magnavox, os criadores tiveram uma solução genial: mesclar o tabuleiro com o game. Neste jogo podia-se jogar três pessoas, duas delas assumiriam os papéis dos heróis e podiam escolher seus personagens, cada um com classes específicas: o Warrior (guerreiro com uma espada mágica); o Wizard (mago capaz de paralisar qualquer monstro); o Changeling (com o poder da invisibilidade) e o Phantom (que podia atravessar as paredes). O terceiro jogador seria o perverso Ring Master — o Senhor dos Anéis, uma espécie de Dungeon Master do mal — com o objetivo de atrapalhar os heróis nessa jornada.

O tabuleiro servia como mapa, onde o Ring Master organizava os castelos (como se fossem as dungeons) e assim decidia quais monstros os outros jogadores deveriam enfrentar, inclusive se haveria anel ou não naquele castelo. Podia também “possuir” um dos jogadores, conseguindo, assim, atrapalhar a busca pelos anéis. Condicionados por um tempo limite, se os heróis não conseguissem recuperar os dez anéis nesse período, o vencedor seria o Ring Master;

Terceira geração e o grande boom dos RPGs

Com a vinda da terceira geração de videogames e o grande avanço tecnológico que ela trouxe, os RPGs ficaram mais caprichados, com narrativas mais complexas e capazes de prender o jogador naquele novo mundo que ele estava explorando.

Nessa época, com a guerra entre a Nintendo e a Sega começando a se acirrar, pode-se destacar duas franquias: Final Fantasy criado por Hironobu Sakaguchi, desenvolvido e publicado pela Square — antes da fusão com a Enix — no Japão (exclusivo para o NES devido ao contrato de exclusividade que as produtoras tinham com a Nintendo na época) e o Phantasy Star (Master System) da Sega.

É possível dizer que a Sega saiu na frente durante o início de tal jornada. Com um hardware superior ao do NES, o Master System inovou principalmente com o uso dos labirintos 3D em Phantasy Star. Os gráficos eram bem superiores aos de seu concorrente, inclusive a tela em primeira pessoa nas batalhas, outra inovação do jogo da Sega, o que, graficamente falando, superou o RPG do console da Nintendo.

Outra vantagem que a Sega teve com o seu título, mas somente aqui no Brasil, foi a Tec toy. Além de distribuir os jogos da Sega no Brasil, a empresa brasileira ainda traduzia alguns títulos e o Phantasy Star foi um deles.

Quarta geração e o nascimento de um mito

As grandes sagas das franquias de gerações passadas continuaram, porém dessa vez a Nintendo tomou a dianteira. A franquia de Final Fantasy, já superava o da Sega, mas foi o surgimento de um mito dos consoles da Nintendo, produzido pela Squaresoft, que equacionou essa vantagem: Chrono Trigger.

A Squaresoft já tinha desenvolvido o Final Fantasy, mas, para idealizar um jogo tão revolucionário, a produtora resolveu montar um verdadeiro dream team. Foram convocados Hironobu Sakaguchi (produtor da série Final Fantasy), Yuji Horii (diretor da série de jogos Dragon Quest), Akira Toriyama (autor de mangás famosos, como Dragon Ball e Dr. Slump), o produtor Kazuhiko Aoki e Nobuo Uematsu (compositor de Final Fantasy).

O enredo considerado bastante complexo e dramático é um dos vários pontos positivos do título, que demandou todo o poder do Super Nintendo até então, considerando o tamanho da trama. São muitas horas de jogo até você conseguir chegar ao final da jornada.

Outro fator impressionante é a trilha sonora. Ela é tão bela e caprichada que até hoje é considerada uma das melhores trilhas já feitas para um jogo. Para se ter ideia, no ano de seu lançamento, foi produzido um box com três CDs — com 64 músicas no total — contendo a OST original do game, sucesso de vendas na época.

Lançado em 1995, Chrono Trigger é considerado um dos melhores jogos da história, com versões para Nintendo DS e PlayStation, além de duas continuações: Radical Dreamers, para Super Nintendo, podendo somente ser habilitado pelo acessório Satellaview, e o Chrono Cross, lançado para PS.

Um dos melhores jogos já feitos

 




A Squaresoft continuou a trabalhar a franquia de Final Fantasy, e em 1997, parece que encontraram a perfeição. Final Fantasy VII (PS) é considerado pela grande maioria dos críticos e gamers como um dos melhores jogos já feitos na história. Com uma temática pós-industrial (que começou com o seu antecessor, o Final Fantasy VI), e uma trama muito cativante, a Squaresoft inovou novamente ao utilizar gráficos computadorizados tridimensionais, com animações concebidas de forma totalmente pré-renderizada.

Originalmente pensado para ser lançado no Super Nintendo (sua produção começou em 1994), mas parte da equipe estava concentrada no desenvolvimento de Chrono Trigger, fazendo com que o trabalho em FFVII acabasse sendo suspenso e retomado dois anos depois, primeiramente com o Nintendo 64 como plataforma, mas depois migrando para uma nova plataforma, o PlayStation.

Final Fantasy VII quebrou vários recordes de venda, com 2,3 milhões de unidades vendidas em apenas três dias, além de receber diversos prêmios de melhor do ano em 1997. Ele venceu o primeiro prêmio da Academy of Interactive Arts & Sciences nas categorias de "Jogo de Aventura para Console" e "RPG de Console", sendo também indicado nas categorias de "Título Interativo", "Realização em Arte/Gráficos" e "Realização em Projeto Interativo". No Origins Award, ele venceu em "Melhor RPG de Computador de 1997". Pelos prêmios da Electronic Gaming Monthly, Final Fantasy VII venceu em "Jogo do Ano em Todas as Plataformas", "Jogo PlayStation do Ano" e "RPG do Ano".

RPGs da atualidade: verdadeiras obras cinematográficas



Atualmente, com a potência dos consoles atuais, as produções dos jogos eletrônicos passaram a ser verdadeiras obras cinematográficas, principalmente para os RPGs, que já há algum tempo preza pela narrativa da estória.

A franquia da atual Square Enix – Final Fantasy – continua sendo referência do estilo, desta vez criando um ambiente aberto e com livre exploração, como foi feito no Final Fantasy XV. Os jogos passaram a ser muito mais realistas, com trilhas sonoras e efeitos especiais compatíveis aos grandes Blockbusters hollywoodianos.

Essa evolução só enaltece o principal objetivo dos RPGs: nos transportar para um novo mundo (seja ele mágico ou tecnológico), nos fazer adentrar numa nova aventura, resolver mistérios e viver novas experiências através dos olhos destes personagem tão bem construídos, fascinantes, capazes de nos fazer sentir o que eles sentem. Cada dor, cada vitória que conquistamos na pele destes fantásticos seres fictícios se tornam, também, nossas dores e nossas vitórias.

Revisão: João Pedro Boaventura
Lúcio Amaral escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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