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Análise: Dragon's Dogma Dark Arisen (Multi) — o que importa aqui é combater monstros

Dragon's Dogma é a prova de que uma boa jogabilidade pode ser o suficiente para conquistar o jogador.


Em 2013, a Capcom trouxe para o PlayStation 3, Xbox 360 e PC uma versão completa de seu RPG homônimo lançado no ano anterior. Dragon’s Dogma Dark Arisen (Multi) chegava contendo o jogo base e sua expansão, Dark Arisen, oferecendo um mundo de fantasia, exploração e ação para os jogadores. Tendo sido bem recebido na época, temos uma nova oportunidade de visitar Gransys na atual geração, pois o game foi lançado também para PlayStation 4 e Xbox One no último dia 3 de outubro.


O escolhido do Dragão

Dragon’s Dogma conta a história daquele que é chamado de Arisen. Um Arisen é alguém que lutou contra o dragão Grigori e sobreviveu, tendo seu coração retirado e engolido pela criatura. Criamos nosso personagem escolhendo uma série de atributos físicos e cosméticos, como altura, peso, gênero, cor de cabelos, olhos e outros detalhes; e, então, o game nos coloca na praia de Cassardis com uma arma enferrujada na mão e roupas surradas de aldeão para enfrentar um dragão que traz o fim dos tempos amarrado metaforicamente em suas costas e, possivelmente, literalmente em seus sopros flamejantes. Nós sobrevivemos ao ataque e, sendo uma espécie de escolhido e recebendo o título de Arisen, cabe ao nosso personagem buscar enfrentar as criaturas bestiais trazidas pelo dragão para nos fortalecermos e finalmente recuperar nosso coração e nossa vida, salvando o mundo no processo.

O jogo apresenta uma história fantasiosa e até certo ponto interessante, mas muito me incomoda o fato de nosso protagonista ser mudo, o que acaba gerando momentos estranhos em diversas missões. Não há questionamentos, nem para o bem e nem para o mal, e o Arisen acaba sendo um figurante colocado como protagonista. É claro que ele tem papel fundamental no destino do mundo, afinal ele é o escolhido para derrotar o dragão e proteger o mundo, mas no fim das contas, muitas missões secundárias e algumas poucas primárias acabam reduzindo-o a um “pau para toda obra”.

Existem algumas tramas políticas e religiosas que são colocadas no decorrer da aventura, mas nenhuma delas recebe um desenvolvimento profundo, visto que o foco do game é basicamente enfrentar monstros. Infelizmente, Dragon’s Dogma carece de personagens carismáticos e também de uma boa dublagem. Após mais de 20 horas jogando, eu não me importo com absolutamente ninguém no jogo que não sejam os dois personagens que criei (Arisen e uma companheira de party). O que temos são personagens que não te inspiram, sendo genéricos em seus papéis, e muito disso se ocasiona por conta de uma movimentação simplória e uma dublagem apática, com diálogos que parecem ter sido lidos ao invés de interpretados.

O sistema de Pawns

Um dos sistemas mais interessante que temos presente no game é o sistema de Pawns. Os Pawns são membros de uma guilda e companheiros de jornada do Arisen. Criamos para nós um Pawn pessoal e fixo (o meu era uma arqueira chamada Yibera) e podemos recrutar outros dois para completar nosso grupo. Esse sistema coloca de forma brilhante os recursos online de Dragon’s Dogma. Os Pawns criados pelos jogadores são disponibilizados online para recrutamento através do Rift, um hub que serve para a busca de companheiros de jornada. Pawns de amigos ou do mesmo nível do jogador são gratuitos para recrutar, e aqueles com nível maior custam Rift Crystals, ganhos ao derrotar monstros e completar missões.



Quanto mais um Pawn é utilizado, mais ele ganha conhecimento e experiência sobre o mundo de Gransys. Ou seja, podemos encontrar companheiros com conhecimento prévio de determinadas missões e dicas para derrotar certos inimigos. Tudo é dito ao jogador de maneira orgânica durante as viagens e combates enfrentados ao lado dos Pawns. O único ponto negativo acaba ficando por conta de que este é o aspecto mais próximos que chegamos de um multiplayer no game. Infelizmente, pois seria incrível explorar Gransys com pelo menos mais um amigo em tempo real.

Caçando monstros

Dragon’s Dogma oferece ao jogador nove classes diferentes, chamadas aqui de Vocations, e cada uma permite equipar habilidades e equipamentos específicos. Temos Vocations básicas como Fighter, Strider e Mage, até Vocations híbridas como Mystic Knight, Magick Archer e Assassin. Cada uma delas possui dez níveis que vão aumentando à medida que as utilizamos em combate, e a cada nível alcançado, desbloqueamos novas habilidades ativas para serem utilizadas com armas primárias ou secundárias, e também habilidades passivas que modificam estatísticas gerais de alguma maneira. É possível trocar de Vocation a qualquer momento utilizando pontos de disciplina ganhos ao subir o nível geral do personagem e da classe.

O combate é totalmente em tempo real, com uma sequência de ataques básica e a utilização de habilidades para causar maior dano. Os encontros podem ocorrer a qualquer momento durante as perambulações do jogador por Gransys, então, é sempre bom estar preparado com poções e ervas medicinais. Também é de grande valia manter ao menos um mago que domina magias de cura como Anodyne e um especialista em combate à distância para trazer inimigos voadores ao chão.



Uma das características mais marcantes de Dragon’s Dogma está no combate contra seus monstros mais ferozes, como quimeras, grifos e ciclopes. Monstros assim, de maior porte, possuem ataques especiais e defesas mais fortes, exigindo que o jogador ataque pontos específicos de seus corpos para quebrar tais defesas ou mesmo cortar habilidades. Quimeras podem ter sua cauda de cobra cortada e cabeça de cabra trucidada, interrompendo assim suas habilidades mágicas e deixando apenas a força física bruta de sua cabeça de leão como forma de ataque; ciclopes sofrem mais dano em seu olho e, para atingi-lo, o jogador pode utilizar armas e magias de ataque a distância ou escalar o corpanzil do monstro e acertar ataques com sua lâmina diretamente em seu globo ocular. São momentos que trazem uma variedade bacana e inteligente aos combates, bem como um nível maior de desafio, não deixando que tudo se resuma apenas a pressionar um botão sem parar.

Ciclos de dia e noite estão presentes e não pense que é apenas um artifício estético. O cair da noite em Dragon’s Dogma significa estar envolto em uma penumbra de trevas habitada por velhos e novos inimigos, todos muito mais agressivos e em maior número do que em um amanhecer calmo. O ciclo dia/noite oferece uma dinâmica interessante ao jogador, afinal, caçar monstros à noite pode ser perigoso, porém pode render mais experiência. Cabe ao mesmo decidir se irá se arriscar ou não.

O jogo é assim mesmo ou devo calibrar minha tela?

Fortalezas e castelos de Gransys se misturam com planícies, densas florestas e passagens nas montanhas, com o jogador ocasionalmente passando por cavernas e tumbas. Cada cenário possui fauna e conjunto de inimigos próprios, compondo um contexto medieval/fantasioso bom de se explorar e de se conhecer. Infelizmente, porém, o visual do game parece estar coberto por uma paleta de cores extremamente escura e sem vida. Mesmo em um mundo de fantasia, os gráficos não tomam nenhum caminho cartunesco ou que tire muito o pé da realidade, e isso se mostra muito pelas cores pálidas e sem vida dos cenários.

Outro ponto a ser questionado se dá através das perambulações noturnas ou em locais sem focos de luz. Tudo fica absurdamente escuro e, no começo, me fez questionar se minha TV estava calibrada de forma correta, pois eu não conseguia enxergar nada. Mas acabei aceitando a escuridão como um artifício para fazer o jogador utilizar a lanterna para iluminar o caminho. Sempre tenham óleo reserva para queimar e acender a lanterna!



Por ser uma versão remasterizada do jogo original, não cheguei em Dragon’s Dogma exigindo muito de seus gráficos. É possível ver bons modelos de cenários e inimigos, principalmente, mas em termos de personagens humanos, a coisa é de doer os olhos. Falta expressividade e muitos possuem o olhar perdido como se suas almas tivessem ido para o além. O melhor aspecto acaba sendo a iluminação do game, com sombras projetadas de forma fiel aos seus objetos e feixes de luz atravessando frestas. Pequenos detalhes que contribuem para um saldo positivo como um todo. Percebam, porém, que eu disse que as sombras são projetadas de forma fiel aos seus objetos, e excluam desse “objetos” os personagens do game. É simplesmente triste ver sua sombra disforme projetada no chão, sem considerar seus itens equipados e composição física.

Não precisa segurar minha mão, mas também não me abandone em tudo

Dragon’s Dogma possui um sistema de tutorial um tanto quanto preguiçoso. Quadros informativos aparecem na tela para que o jogador leia assim que encontra alguma mecânica inédita, e depois são guardados no livro de histórico do menu de pausa. Não há a exigência de realizar ao menos uma vez tal mecânica, a fim de deixar que o jogador a experimente e se familiarize de forma básica com ela. Sei que o jogo possui sistema de criação de itens, mas não criei nenhum, pois o jogo não me explicou de maneira satisfatória como tal sistema funciona. Acabei utilizando os materiais e o dinheiro que coletei para reforçar armas e armaduras que ganhei ou comprei em uma loja de equipamentos.

Lembro de quando joguei Dragon’s Dogma no PS3, e era tedioso andar para cima e para baixo a pé, sem poder correr muito pois meu personagem cansava rapidamente. Perdi muito tempo pelas estradas de Gransys indo de Gran Soren até Greatwall apenas para completar uma missão secundária de escolta e ver que deveria voltar até a cidade anterior. Mais 15 a 20 minutos de caminhada matando lobos e bandidos pelo caminho. A falta de um sistema de viagem rápida me deixava entristecido, mas nunca foi algo que me incomodou a ponto de largar o game. O que tinha a meu serviço eram as Ferrystones, pedras especiais que levavam o jogador diretamente para as fortalezas de Cassardis ou Gran Soren, mas que possuem uso único. Com a chegada da expansão Dark Arisen, em 2013, trouxeram para os jogadores um item chamado Eternal Ferrystone, que possui a mesma função das Ferrystones originais porém com uso infinito. Só fui descobrir este item em minhas jogatinas após zerar o game. Ele estava guardado em meu inventário e em nenhum momento o jogo fez-me o favor de falar sobre ele, ou ao menos distingui-lo de maneira satisfatória dentro do inventário.

E por falar em inventário, manejar itens não é a coisa mais simples em Dragon’s Dogma. Para equipar itens em um Pawn, é preciso enviá-lo para o inventário do mesmo, para só então mudar de aba e equipá-lo. Poderia haver um inventário geral, comum a todos e que permitisse agilidade na hora de equipar e utilizar itens, mas isso é apenas um pormenor que não prejudica muito a experiência como um todo.



Dragon’s Dogma Dark Arisen possui uma história principal interessante e com um momento final surpreendente, mas as ramificações secundárias são prejudicadas por personagens fracos, sem carisma e sem vida. Em sua versão remasterizada, esperava-se ao menos um aumento na qualidade gráfica, mas que ocorreu de forma tão sutil que mais parece uma versão de PC com gráficos no máximo rodando nos consoles atuais. Ainda assim, é um excelente RPG de ação graças ao seu combate variado e fluido, fortalecido por uma ampla quantidade de inimigos e lutas contra criaturas e chefes especiais que dão gosto de vivenciar. O pacote Dark Arisen traz não somente o game base, como também todas as expansões lançadas originalmente, inclusive a Dark Arisen, que expande o universo do jogo com uma nova história, novas áreas e inimigos, bem como os modos Speed Run, cujo objetivo é terminar o game na maior velocidade possível, e o Hard Mode, para quem gosta de uma pitada a mais de desafio. Ou seja, é um pacote super completo e que oferecerá boas dezenas de horas de diversão.

Prós

  • Sistema de Pawns;
  • Diversas classes e habilidades;
  • Ciclo de dia e noite que oferece novos encontros e novas características do mundo de Gransys;
  • Boa variedade de inimigos e chefes;
  • Combate fluido e divertido.

Contras

  • Personagens sem carisma e sem vida;
  • Tramas secundárias desinteressantes;
  • Falta de multiplayer para se jogar com amigos;
  • Tutoriais pouco elaborados.

Dragon’s Dogma Dark Arisen — XBO/PS4/PC — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Ana Krishna Peixoto
Francisco Camilo é formado em Serviço Social pela PUC-MG e até hoje não entende a verdadeira razão de ter feito tal curso. Apaixonado pelo mundo dos jogos eletrônicos, tem em sua mente um futuro ideal cuja existência é incerta e o leva a questionar se o que imagina é parte de um sonho ou ilusão. Pode ser encontrado aqui principalmente em análises e buscando troféus na PlayStation Network.

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