Crônica

Pequenos relatos de um ex-viciado em troféus e conquistas

A busca por troféus e conquistas não é exatamente um caminho paradisíaco.


Muitos anos se passaram e o PlayStation 2 foi meu parceiro de jogatina mais fiel e incrível. Mas com a chegada de seu irmão mais forte e potente, aliada ao fato de eu ter finalizado tudo que queria em meus anos de PS2, meu interesse foi desaparecendo aos poucos. Cheguei ao PlayStation 3 em 2010, iniciando minha jornada com uma bela versão slim do console e jogos como Mafia 2 (Multi) e Just Cause 2 (Multi).

Sempre me acostumei a “jogar para zerar”. Isso acaba sendo um de meus maiores “pecados gamers”, tendo em vista que acabei deixando passar incríveis histórias de excelentes jogos simplesmente por não ter dado o valor devido. Jogos de tiro, por exemplo, eu apenas saía atirando para cima e para baixo. História? A única coisa que seria história eram os inimigos cheios de balas caídos no chão. Jogos do gênero RPG eram raridade para mim no PS2, tendo jogado apenas Final Fantasy X (Multi). Muito acabou mudando com a chegada do PS3, não apenas meu interesse com os jogos aumentou, expandindo-se para gêneros nunca antes jogados, como descobri algo novo com o que me viciar: troféus.

O dia mais claro, a noite mais densa

A busca pelo tão cobiçado 100% de um jogo começou um ano após eu adquirir um PS3. Incentivado por um amigo, busquei o troféu de platina (liberado após adquirir todos os outros troféus do jogo) de Green Lantern: Rise of the Manhunters (Multi). A partir daquele momento, a busca por troféus e conquistas acabou se tornando mais frenética do que eu gostaria que fosse. Uma das primeiras coisas que eu olhava antes de adquirir um game era se o mesmo possuía troféus. Caso não, eu o deixava de lado. Passei a olhar também o nível de dificuldade dos troféus, deixando de lado aqueles que possuíam uma dificuldade de platina muito elevada. Por fim, eu me vi jogando somente coisas extremamente fáceis de se obter o 100%. Jogos como Hanna Montana The Movie (Multi) são figurinhas carimbadas em meu perfil na PlayStation Network. Não é exatamente motivo de vergonha, mas já fui caçoado por amigos por buscar completar jogos tão, digamos, inferiores.

Ganância, sobretudo

Parte da vida de alguém que se dedica a buscar troféus e conquistas é o sentimento de ganância. Quando se está extremamente fissurado em obter algo, desenvolvemos nossa ganância interior e um senso de competição muito agressivo, fomentado principalmente por sites especializados em rankings.

Ainda me lembro de iniciar Resident Evil Operation Raccoon City (Multi) com um de meus melhores amigos. Jogávamos todos os dias em modo cooperativo e sempre tínhamos desavenças, o que distorcia um pouco o significado de cooperação. Tínhamos de atingir o ranking máximo dentro dos níveis do game e, para que ambos conseguissem, era preciso que cada um pegasse uma porção controlada dos colecionáveis presentes nos níveis. Eu sempre saía correndo para pegar tudo na frente. Era meio que incontrolável, sem falar estúpido da minha parte, já que tínhamos um objetivo em comum e muito bem definido. Eu ficava rindo e meu amigo esbravejando. Querendo ou não, prejudicava nossa diversão e não era saudável. Por fim, abandonei o game e ele seguiu sozinho.


A jornada é mais importante do que o destino

Um dos jogos mais difíceis que encarei nos últimos tempos com relação a troféus e conquistas foi Destiny (Multi). Sua lista de desafios inclui alguns um tanto quanto chatos e difíceis de serem feitos, principalmente por exigirem a presença de um grupo de pessoas. Para mim, o troféu mais difícil foi Flawless Raider. Tal façanha requer completar uma incursão sem nenhum jogador do time morrer nenhuma vez. Quem jogou Destiny ou acompanha as notícias sobre o game sabe que uma incursão não é um “passeio ao parque”. São missões complexas, diferenciadas e que exigem uma coordenação muito forte entre a equipe. Junte seis pessoas, todas com temperamentos diferentes, e a chance de explosão e discussões incoerentes e desnecessárias é algo certo de acontecer.



Ainda com o mesmo amigo de Operation Raccoon City, porém com o vício em troféus um pouco mais controlado, ouvimos todo tipo de coisa durante nossa busca pelo Flawless Raider. “Vocês são lerdos”, “Não é difícil, é só prestar atenção”, foram as coisas mais suaves que ouvimos. Ainda me lembro de um dos membros do time rir por conta das críticas daquele que se autoproclamou implicitamente “líder” da equipe; tal líder dizia em tom de arrogância “Se rir de novo, vai ser expulso”. Discussões, ofensas através de eufemismos baratos e uma perda incrível de tempo e diversão, tudo por conta de um troféu inútil, que serviria apenas para mostrar para os outros. A sensação de mérito pessoal já havia ido por água abaixo em meio à tantas desavenças. Foi preciso remanejar alguns membros do grupo para que tal sensação fosse válida e de fato positiva.

Troféus e conquistas, por mais que sejam prazerosos de serem alcançados, podem trazer sentimentos e sensações ruins para quem os busca cegamente. Depois de muitos anos de vício, consegui me controlar e hoje sou um jogador mais, digamos, feliz e pacífico. Me divirto com tudo quanto é tipo de jogo, com ou sem troféu; não brigo por causa de erros em missões, nem porque alguém conseguiu algo antes de mim. Troféus e conquistas podem trazer diversão, mas jamais irão valer mais do que uma amizade. Seja como for, a diversão precisa prevalecer. Quando ela parecer pequena em nossos momentos de jogatina, então será preciso reavaliar aquilo que estamos fazendo.

Revisão: Ana Krishna Peixoto

Francisco Camilo é formado em Serviço Social pela PUC-MG e até hoje não entende a verdadeira razão de ter feito tal curso. Apaixonado pelo mundo dos jogos eletrônicos, tem em sua mente um futuro ideal cuja existência é incerta e o leva a questionar se o que imagina é parte de um sonho ou ilusão. Pode ser encontrado aqui principalmente em análises e buscando troféus na PlayStation Network.

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