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Análise: Strafe (Multi) é uma bela homenagem ao FPS cheia de falhas

Direto do túnel do Tempo, confira um game que poderia ter sido o maior sucesso de 1996.


Sabem aquele ditado de “a intenção foi boa, mas o resultado não agradou”? Talvez não exista melhor uso para ela do que para Strafe, um FPS que buscava homenagear os clássicos como Doom e Quake mas, que no final, deixou muito a desejar. Aqueles que, como eu, tiveram experiências com os primeiros games de tiro em primeira pessoa terão uma bela dose de nostalgia ao jogarem Strafe. Já para novos jogadores essa aventura de ação no espaço pode não ser tão divertida quanto imaginam.

Muita ação e muitos problemas

Strafe nasceu através de uma campanha de sucesso no Kickstarter, na qual a desenvolvedora Pixel Titans anunciava um game que possuía “gráficos e gameplay sanguinolentos e de ponta”. Conseguindo arrecadar 207 mil dólares de uma meta de 185 mil, o time por trás do projeto veiculava vários vídeos com trailers de um suposto filme baseado no game, que teria sido um sucesso de vendas em 1996. Conseguindo apelar da maneira correta na nostalgia da comunidade gamer dos saudosos anos 1990, a Pixel Titans conseguiu produzir sua obra e obteve o apoio da Devolver Digital para distribuir o game em diferentes plataformas. E a questão da nostalgia não fica por conta apenas do material de marketing hilário que os desenvolvedores produziram, pois desde o momento em que você vislumbra o visual pixelado do menu inicial do game você sente que está prestes a embarcar em uma viagem ao passado dos jogos. Através do divertido tutorial que cria um excelente clima nostálgico ao misturar live-action com instruções sobre o gameplay, Strafe ensina o básico que o jogador precisa saber: atirar, correr, pular e juntar sucata. Esses pedaços de lixo e metal que caem aleatoriamente dos inimigos será essencial para conseguir comprar upgrades ao longo das partidas, como armadura e munições extras.

Em Strafe você é uma espécie de catador espacial que precisa enfrentar os vários níveis de uma estação no espaço infestada com monstros (basicamente a mesma ideia que os primeiros FPS como Doom e Quake promoviam). Antes de partir para a ação você pode escolher entre três tipos de armas diferentes: uma escopeta, uma metralhadora e uma arma de laser. É preciso pensar bem em qual selecionar pois cada uma tem uma quantidade diferente de munição e poder de dano, aspectos que serão essenciais para a sobrevivência. Depois dessa introdução, basta você entrar em um dos portais espalhados pela nave para começar sua sessão de matança desenfreada!
De longe, a metralhadora era a melhor escolha, pois mesmo com o dano baixo, a quantidade de munição é maior.
Os níveis são gerados proceduralmente, então sempre que você morre e retorna o design do nível é diferente. Isso pode ser frustrante, porque esse procedimento não parece ser muito inteligente: em alguns casos a saída para o outro nível estava bem próxima do início e em outros existiam corredores tão estreitos e que davam em becos sem saída que a jogabilidade ficava comprometida. Além disso, os efeitos sonoros não são muitos bons, pois o jogador pode acabar se sentindo em um jogo de terror quando se ver cercado de monstros por todos os lados sem ter sido capaz de ouvir um inimigo se aproximando. Felizmente esse problema é compensado quando você atira na cabeça de um monstro e ela explode com sangue jorrando pela parede com toda a glória do gráfico pixelado. No quesito violência anos 1990, Strafe acerta em cheio.

Falando em gráficos, uma das opções divertidas do game é deixá-los mais simples e com baixa resolução. O estilo visual dele já imita com fidelidade o primeiro Doom ou Quake com texturas simples e pixels do tamanho de um punho mas, se o jogador realmente gostar de fazer as coisas à moda antiga (e não tiver muitos problemas de vista, claro) pode escolher o modo super pixelado. Uma pena que esse apelo visual nostálgico seja arruinado quando os problemas de queda de framerate e travamentos acontecem, mesmo com o game se mantendo na maior parte do tempo em 60 FPS. Os momentos em que mais sofri disso eram logo no início quando você devia escolher uma arma e quando passava de um nível para o outro. O jogo travava tanto enquanto gerava e carregava o outro nível que a aplicação no PS4 caiu duas vezes. O vídeo abaixo mostra uma de minhas tentativas de cruzar o primeiro nível do Icarus ignorando todos os inimigos e me deparando com um lag terrível no final.
Apesar dos problemas técnicos, contudo, certamente o aspecto mais irritante em Strafe e que, infelizmente, deveria ser o mais importante e desenvolvido com cuidado é a jogabilidade. Strafe é muito injusto com o jogador. Mesmo Doom e Quake não eram games tão complicados de se progredir, uma vez que você se acostumava com o padrão de ataques dos inimigos e como manejar sua vida e munição. Inserir a característica de permadeath, em que o jogador tem que reiniciar do primeiro nível toda vez que morre é frustrante em um game com dificuldade tão alta. Mesmo tentando diversas estratégias em níveis que mudavam de design constantemente, consegui no máximo chegar ao terceiro nível de Icarus, uma das naves que você precisa investigar no game.

Obter itens que restauram sua vida ou mesmo achar as máquinas que trocam sucatas por upgrades é uma tarefa difícil. Uma das poucas vantagens da jogabilidade de Strafe é não ter que se preocupar com munição, que é recarregada automaticamente toda vez que ela se esgota. Em alguns casos tentei abordagens mais diretas como correr até achar a saída do nível, sem matar ninguém, mas só compliquei a minha situação. Uma vez que alguma criatura me via, todas se juntavam para me perseguir e, considerando que a porta que separa os níveis leva quase um minuto para abrir por completo, eu me tornava um alvo fácil e encurralado dessa maneira. Com formas tão difíceis de sobreviver nos níveis, era complicado também adotar a estratégia mais violenta, matando tudo e todos pois, quando você menos espara, pode ser emboscado por um inimigo que você esqueceu de matar ou morto pelo dano de sua própria arma. Strafe é um game simples de iniciar e jogar, mas muito complicado de progredir.
É só atirar e correr, não é mesmo?
Quando eu cansava de morrer na campanha normal do game (foram mais de 100 mortes durante minhas 15 horas de jogatina) eu apelava para o modo Murder Zone, em que você precisava enfrentar e exterminar hordas consecutivas de monstros em mapas um atrás do outro. Além do toque especial com o som de carregamento igual à conexão discada dos primeiros tempos de Internet, a vantagem desse modo é que os mapas são mais amplos, permitindo mais áreas de escape dos inimigos e a possibilidade de escolher a música que irá tocar enquanto você promove a matança. A trilha sonora de Strafe realmente é um ponto alto do game, com tons que remetem diretamente às músicas dos primeiros games de FPS para PC. E, claro, na Murder Zone, toda vez que você morre, volta para o primeiro mapa. Porém, a vantagem é que cada inimigo derrotado é uma gota a mais de sangue nos galões que o game registra e, quanto mais sangue coletado, mais upgrades você libera como armas secundárias extras, sem recarregamento, mais itens, etc.

Um ponto positivo do game é a quantidade de easter eggs presentes na jornada do nosso catador de lixo espacial, como poder usar uma chave inglesa como arma (Bioshock) e elementos do cenário que lembram games como Half-Life e Portal. A melhor referência fica por conta do nível especial “Luftweinstein”, uma paródia de Wolfenstein 3D que, apesar de divertida, é tão difícil de vencer quanto o modo normal do game. Nunca em um game eu senti tanta falta de uma opção de mudar a dificuldade quanto em Strafe. Não me considero um excelente gamer, mas levando em conta que não morri tanto quando jogava o Doom ou Quake original, a homenagem acaba se tornando mais desafiadora que a obra que a inspirou.
Se fosse deabilitar suas armas, o personagem utiliza uma chave inglesa, similar à Bioshock.
A sensação que fica depois das minhas inúmeras mortes em Strafe sem nenhuma recompensa à tanto esforço para passar pelos níveis (mesmo coletando muita sucata e fabricando alguns upgrades) é que se trata de um game que apela mais para a nostalgia do que jogabilidade. Talvez futuras atualizações poderiam corrigir os problemas técnicos do game e adicionar a possibilidade de alterar a dificuldade da aventura. Existem pontos bons nessa matança pixelada sem limites, mas os pontos ruins prejudicam tanto a experiência que fica difícil considerar Strafe uma homenagem decente aos games de FPS dos anos 1990.

Prós

  • Gráficos pixelados criam a nostalgia perfeita;
  • Gameplay simples;
  • Muitos easter eggs de outros games.

Contras

  • Travamentos e quedas de framerate;
  • Dificuldade muito alta;
  • Falta de resposta interativa dos controles;
  • Áudio e efeitos sonoros de baixa qualidade.

Strafe - PC/PS4 - Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: PS4

Revisão: Bruno Alves
Luis Antonio Costa escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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